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Salve Rainha - Adélia Prado

A melancolia ameaça
queria ficar alegre
sem precisar escrever
sem pensar
que labor de abelhas
e voo de borboletas
precisam desse registro.

Chorando seus casamentos,
vejo mulheres que conheci na infância
como crianças felizes.

A vida é assim, Senhor?

Desabam mesmo
pele do rosto e sonhos?
Não é o que anuncio
- já vejo o fim dessas linhas,
isto é um poema, tem ritmo,
obedece a ordem mais alta
e parece me ignorar.
Me acontecem maus sonhos:
a casa só tem uma porta,
casa prisão,
paredes altas, cômodos estreitos.

Chamo pelo homem, ele ja se foi,
quem se volta é um negro,
indiferente.

A criança que se perdera
ou deixei perder-se de mim,
é um menino lobo,
eu a encontro grunhindo,
com um casal velho de negros.
Por que os negros de novo?
Por que este sonho?
Gasto minhas horas em pedir socorro,
esgotando-me, monja extramuros,
em produzir espaços de silêncio
para encontrar Tua voz.
É medo, meu apregoado amor,
uma fita gravada, meu contentamento.
O primeiro santo do Brasil
invocou para um pobre:
"Pos partum, Virgo Inviolata permansisti.
Dei Genitrix intercede pro nobis."

Ó Virgem,
volte à minha alma a alegria,
também eu
estendo a mão a esta esmola.


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