O poeta é belo - Mário Quintana


O poeta é belo como o Taj-Mahal
 feito de renda e mármore e serenidade

O poeta é belo como o imprevisto perfil de uma árvore
ao primeiro relâmpago da tempestade

O poeta é belo porque os seus farrapos
são do tecido da eternidade



Primavera e Esplendor na Relva - William Wordsworth


Apesar de a luminosidade
outrora tão brilhante
Estar agora para sempre afastada do meu olhar,
Ainda que nada possa devolver o momento
Do esplendor na relva,
da glória na flor,
Não nos lamentaremos, inspirados
no que fica para trás;
Na empatia primordial
que tendo sido sempre será;
Nos suaves pensamentos que nascem
do sofrimento humano;
Na fé que supera a morte,
Nos tempos que anunciam o espírito filosófico.


Verses and calligrammes by Guillaume Apollinaire.

Agora, ó José - Adélia Prado

É teu destino, ó José,
a esta hora da tarde,
se encostar na parede,
as mãos para trás.
Teu paletó abotoado
de outro frio te guarda,
enfeita com três botões
tua paciência dura.
A mulher que tens, tão histérica,
tão histórica, desanima.

Mas, ó José, o que fazes?

Passeias no quarteirão
o teu passeio maneiro
e olhas assim e pensas,
o modo de olhar tão pálido.
Por improvável não conta

O que tu sentes, José?

O que te salva da vida
é a vida mesma, ó José,
e o que sobre ela está escrito
a rogo de tua fé:

“No meio do caminho tinha uma pedra”
“Tu és pedra e sobre esta pedra”.
A pedra, ó José, a pedra.

Resiste, ó José. Deita, José,
Dorme com tua mulher,
gira a aldraba de ferro pesadíssima.
O reino do céu é semelhante a um homem
como você, José.


Extrair - Arnaldo Antunes

ex
 trair
 do tempo improvável, do improvável,
 de suas maquinações, ações,
 do ato regular que se dissipa em método, todo
 hábito que habito, repito,
 da meta inalcançável que me fita, cripta
 do incontável número dos dias vividos, idos,
 da inumerável cota dos dias por vir, ir,
 da engrenagem que não pára, dispara,
 sacode o chão que piso, piso
 de um ônibus em movimento, momento
 em que me agarro ao cilindro de metal do alto

 -

 a vida

 -

 não a que resta ainda, indo,
 mas a que transborda de cada ar expirado, inspirado,
 até que arrebente, vente




Prelude in D-Minor - Esbjörn Svensson

Congresso Internacional do Medo - Carlos Drummond de Andrade

                                             Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio porque esse não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,
depois morreremos de medo e sobre nossos túmulos 
nascerão flores amarelas e medrosas.


Paulo Leminski

podem ficar com a realidade
esse baixo astral
em que tudo entra pelo cano

eu quero viver de verdade
eu fico com o cinema americano

Cantares de perda e predileção - Hilda Hilst



I
Vida da minha alma:
Recaminhei casas e paisagens
Buscando-me a mim, minha tua cara.
Recaminhei os escombros da tarde
Folhas enegrecidas, gomos, cascas
Papéis de terra e tinta sob as árvores
Nichos onde nos confessamos, praças

Revi os cães. Não os mesmos. Outros
De igual destino, loucos, tristes,
Nós dois, meu ódio-amor, atravessando
Cinzas e paredões, o percurso da vida.

Busquei a luz e o amor. Humana, atenta
Como quem busca a boca nos confins da sede.
Recaminhei as nossas construções, tijolos
Pás, a areia dos dias

E tudo que encontrei te digo agora:
Um outro alguém sem cara. Tosco. Cego.
O arquiteto dessas armadilhas.



Sophie Hunger - Travelogue

Expressão - Graça Pires


Dentro da curva inesperada
 dos meus braços,
 transbordam os gestos
 numa espiral imperceptível.

 Nas pontas dos meus dedos
 se alonga a neblina
 que deriva do inverso da loucura
 quando prendo nos dentes
 a superstição da lua
 ou esboço no riso
 a cumplicidade dos espelhos
 timidamente transparentes
 para dizer que só pelo silêncio
 se vence o labirinto das palavras
 e se mede a solidão.



Immense et Rouge - Jacques Prévert

Immense et rouge 
Au-dessus du Grand Palais 
Le soleil d'hiver apparaît 
Et disparaît 
Comme lui mon coeur va disparaître 
Et tout mon sang va s'en aller 
S'en aller à ta recherche 
Mon amour 
Ma beauté 
Et te trouver 
Là où tu es. 


Não se chora apenas ... Cecília Meireles


 Não se chora apenas
com a noite estendida sobre o sono dos homens,
com o silêncio pulsando em poros de imperceptíveis silvos
trêmulos, sussurrantes, urdindo a trama de inúmeros aléns.

Não se chora apenas
com a solidão concentrada em firmes bosques,
num chão de sombras por onde as lágrimas se embebam,
e nem a palidez das estrelas seja um breve indício de presença.

Não se chora sempre de cara virada para um tranquilo muro.
Nem sempre se pode dizer: é da ausência, é da noite,
é do silêncio, é do deserto...
da planície vazia, do mar fatigante, do assombro enorme da treva...

Chora-se em pleno dia, à luz do sol, diante do mundo povoado.
Caem lágrimas em pedras quentes, com borboletas, flores, gorjeios,
nuvens brancas, moças cantando, janelas abertas, ruas alegres.

Alguma coisa em nós é maior e mais grave que as expansões da vida,
alguma coisa é maior que o candelabro azul do dia
com flores, pássaros, canções entrelaçados nos seus doze braços.

Nem é de nós, nem nos pertence.
Sentimos que é da terra e dos homens,
da desordem do tempo,
da espada das paixões sobre o peito do sonho.



O alfabeto no parque - Adélia Prado


Escrevo cartas, bilhetes, lista de compras,
 composição escolar narrando o belo passeio
 à fazenda da vovó que nunca existiu
 porque ela era pobre como Jó.
 Mas escrevo também coisas inexplicáveis:
 quero ser feliz, isto é amarelo.
 E não consigo, isto é dor.

 Vai-te de mim, tristeza, sino gago,
 pessoas dizendo entre soluços:
 «não aguento mais».

 Moro num lugar chamado globo terrestre
 onde se chora mais
 que o volume das águas denominadas mar,
 para onde levam os rios outro tanto de lágrimas.

 Aqui se passa fome. Aqui se odeia.
 Aqui se é feliz, no meio de invenções miraculosas.

 Imagine que uma dita roda-gigante
 propicia passeios e vertigens entre
 luzes, música, namorados em êxtase.
 Como é bom! De um lado os rapazes.
 Do outro as moças, eu louca para casar
 e dormir com meu marido no quartinho
 de uma casa antiga com soalho de tábua.

 Não há como não pensar na morte,
 entre tantas delícias, querer ser eterno.
 Sou alegre e sou triste, meio a meio.
 Levas tudo a peito, diz a minha mãe,
 dá uma volta, distrai-te, vai ao cinema.

 A mãe não sabe, cinema é como diria o avô:
 «cinema é gente passando.
 Viu uma vez, viu todas.»

 Com perdão da palavra, quero cair na vida.
 Quero ficar no parque, a voz do cantor açucarando a tarde…
 Assim escrevo: tarde. Não a palavra,
 a coisa.



paisagem - Vera Lúcia de Oliveira


solidão de morros
solidão de tetos mudos
solidão congênita de estradas
um cão manco um passante
apressado
uma touceira
um muro
uma calçada


Poema 18 - Inez Andrade Paes


transfiro a carga 
para um outro barco 
de proa mais largo

equilibra em cada vaga alta
mas não se afunda

as gotas pesadas que ainda batem
no convés lavado
transparecem na penumbra
quando a lua aparece
e o mar reflete barcos



Off Price - Thiago de Mello



Que a sorte me livre do mercado
e que me deixe
continuar fazendo (sem o saber)
fora de esquema
meu poema
inesperado
e que eu possa
cada vez mais desaprender
de pensar o pensado
e assim poder
reinventar o certo pelo errado...

Rasteja mole - Fernando Pessoa (Ricardo Reis)



Rasteja mole pelos campos ermos
O vento sossegado.
Mais parece tremer de um tremor próprio,
Que do vento, o que é erva.
E se as nuvens no céu, brancas e altas,
Se movem, mais parecem
Que gira a terra rápida e elas passam,
Por muito altas, lentas.
Aqui neste sossego dilatado
Me esquecerei de tudo,
Nem hóspede será do que conheço
A vida que deslembro.
Assim meus dias seu decurso falso
Gozarão verdadeiro.


Ser - Hilda Hilst



Ser terra
E cantar livremente
O que é finitude
E o que perdura.

Unir numa só fonte
O que soube ser vale
Sendo altura.


A ceifeira solitária - William Wordsworth



Só ela no campo vi: 
solitária de altas serras, 
ceifa e canta para si. 
Não digas nada, que a aterras! 
Sozinha ceifa no mundo 
E canta melancolia. 
Escuta: o vale profundo 
Transborda à de harmonia. 

Nunca um rouxinol cantou 
em sombras da Arábia ardente 
ao que exausto repousou 
mais grata canção dolente; 
ou gorjeio tão extremado 
se escutou na Primavera, 
cortando o Oceano calado 
entre ilhas de Além-Quimera. 

Quem me dirá do que canta? 
Será que o que ela deplora 
é antigo, triste e distante, 
como batalhas de outrora? 
Ou coisas simples são 
do quotidiano viver? 
Essas dores de coração, 
que já foram e hão-de ser? 

Seja o que for que cantara 
é como infindo cantar, 
que a vi cantando na seara, 
no trabalho de ceifar. 
Sem falar, quieto, eu escutava 
e, quando o monte subia, 
no coração transportava 
o canto que não se ouvia. 





Havia uma palavra - Eugênio de Andrade


Havia uma palavra
no escuro.
Minúscula. Ignorada.
Martelava no escuro.
Martelava
no chão da água.
Do fundo do tempo,
martelava.
contra o muro.
Uma palavra.
No escuro.
Que me chamava.


Partida - Arthur Rimbaud



Farto de ver.
A visão que se reencontra em toda parte.
Farto de ter.
O ruído das cidades, à noite, e ao sol, e sempre.
Farto de saber.
As paradas da vida.
- Ó Ruídos e Visões!
Partir para afetos e rumores novos.

Para fazer um soneto - Carlos Pena Filho


Tome um pouco de azul, se a tarde é clara,
E espere um instante ocasional
Neste curto intervalo Deus prepara
E lhe oferta a palavra inicial

 Ai, adote uma atitude avara
Se você preferir a cor local
Não use mais que o sol da sua cara
E um pedaço de fundo de quintal

 Se não procure o cinza e esta vagueza
Das lembranças da infância, e não se apresse
Antes, deixe levá-lo a correnteza

 Mas ao chegar ao ponto em que se tece
Dentro da escuridão a vã certeza
Ponha tudo de lado e então comece.


Diante das fotos de Evandro Teixeira - Carlos Drummond de Andrade

A pessoa, o lugar, o objeto
estão expostos e escondidos
ao mesmo tempo sob a luz,
e dois olhos não são bastante
para captar o que se oculta
no rápido florir de um gesto.

É preciso que a lente mágica
enriqueça a visão humana
e do real de cada coisa,
o mais seco real extraia
para que penetremos fundo
no puro enigma das imagens.

Fotografia - é o codinome
da mais aguda percepção
que a nós mesmos nos vai mostrando
e da evanescência de tudo
edifica uma permanência cristal
do tempo no papel.

Das lutas de rua no Rio
em 68, que nos resta?
Mais positivo, mais queimante
do que as fotos acusadoras,
tão vivas hoje como então
a lembrar como exorcizar?

Marcas de enchente e do despejo.
O cadáver insepultável.
O colchão atirado ao vento.
A lodosa, podre favela.
O mendigo de Nova York.
A moça em flor no Jóquei Clube.

Garrincha e Nureyev, dança
de dois destinos, mães-de-santo
 na praia-templo de Ipanema,
 a dama estranha de Ouro Preto,
 a dor da América Latina,
 mitos não são, pois são fotos.

Fotografia: arma de amor,
 de justiça e conhecimento,
 pelas sete partes do mundo
 a viajar, a surpreender
 a tormentosa vida do homem
 e a esperança a brotar das cinzas.


A surpresa de ser - Mário Quintana


A florzinha
Crescendo
Subia
Subia
Direito
Pro céu
Como na história de Joãozinho e o Pé de Feijão.
Joãozinho era eu
Na relva estendido
Atento ao mistério das formigas que trabalhavam tanto...
E as nuvens, no alto, pasmadas, olhavam...
E as torres, imóveis de espanto, entre voos ariscos
Olhavam, olhavam...
E a água do arroio arregalava bolhas atônitas
Em torno de cada pedra que encontrava...
Porque todas as coisas que estavam dentro do balão
azul daquela hora
Eram curiosas e ingênuas como a flor que nascia
E cheias do tímido encantamento de se encontrarem juntas,
Olhando-se...


Marinha XXXVI - Gabriel Bicalho


No cais
ou
no caos
mergulho
em mim
mesmo


Carminho e Chico Buarque - Carolina

Fado - Adolfo Casais Monteiro



Música triste
desenganado
canto nocturno
a pouco e pouco
vai penetrando
meu coração

Nocturna prece
ou pesadelo
não sei que sombra
aquele canto
em mim deixou.

Febre ou cansaço?
Não sei! Nem quero.
lúgubre pranto
de roucas vozes
não tem beleza
- só emoção.

É como um eco
de noites mortas
de vidas gastas
ao deus dará.

Mas eu o recebo
dentro de mim.
Entendo. Choro.
Eu o recebo
Como um irmão.


Crise - Fernando Py



O horizonte encoberto. Nuvens agridem.
Blasfêmias elevam-se, caem.
Os cavalos soltos nas planícies, nitridos,
Crinas galopando na névoa, superfície quebrada,
cascos, ânsia no duro pisar, levantando ódio,
negrume, os cavalos.

Os cavalos: as patas, o pescoço intumescido,
Veias saltando, os cavalos são dor
- angústia presa devastando o horizonte encoberto.
Cinza na boca, sombra e fezes, garra sobre o peito,
vertigem no planeta rubro e em sua aurora.

Os cavalos: neles, golpeando o horizonte encoberto,
Vejo a terra imóvel sob nuvens
- pureza que já não é,
Mas sorrindo na treva, campina
onde os cavalos cairão.
Diviso (planeta rubro) a aurora clara
- centelha mínima da noite
na terra ainda paraíso.

Tal como antigamente - António Ramos Rosa



Tal como antigamente tal como agora
essa estrela esse muro
esse lento
esse morto
sorrir
nenhum acaso
nenhuma porta
impossível sair



Melodia Sentimental - João Bosco

Purificação - Carlos Nejar



Coarar as emoções,
junto às camisas e lenços,
secando tudo isto,
para os poder usar
no serviço.

Coarar as emoções
febris e as elevadas
na grama ou laje de viver,
no quintal,
lavando estas peças
do bem e do mal,
amontoando-as
na bacia, ao fundo.

Talvez o sol.
Antes que tal suceda,
que as paixões sequem
e o medo e os pressentimentos
vindos, amiúde,
no tecido que fomos e somos,
as Parcas entrarão
para dentro do inverno
e nós esperaremos,
a depender do tempo,
do barro, dos elementos,
a depender de fios, atavios,
céu, inferno,
a depender da sorte
que nos recolhe
ao balde.

A alma! Que ferro de engomar
a desenrugue dos erros
e ela se limpe, ao menos!

Que o ferro alise
suas ênfases, tropeços.
E trace as imagens
nas emoções mais velhas,
nas que foram pisadas.
Esquecê-las!

O ferro de passar
no mundo inapreendido.
Depois,
coser botões caídos
ou quem sabe,
coser os símbolos
e a jubilação do dia.

Que a alma, ao menos,
saia sem vincos!



A vida assim nos afeiçoa - Manuel Bandeira



Se fosse dor tudo na vida,
Seria a morte o sumo bem.
Libertadora, apetecida,
A alma dir-lhe-ia, ansiosa: - Vem!

Quer para a bem-aventurança
Leves de um mundo espiritual
A minha essência, onde a esperança
Pôs o seu hálito vital;

Quer no mistério que te esconde,
Tu sejas, tão somente, o fim:
- Olvido, impertubável, onde
"Não restará nada de mim!"

Mas horas há que marcam fundo...
Feitas, em cada um de nós,
De eternidades de segundo,
Cuja saudade extingue a voz.

Ao nosso ouvido, embaladora,
A ama de todos os mortais,
A esperança prometedora,
Segreda coisas irreais.

E a vida vai tecendo laços
Quase impossíveis de romper:
Tudo o que amamos são pedaços
Vivos do nosso próprio ser.

A vida assim nos afeiçoa,
Prende. Antes fosse toda fel!
Que ao se mostrar às vezes boa,
Ela requinta em ser cruel... 


Esplendores - Adélia Prado



Toda a compreensão é poesia,
clarão inaugural que névoa densa
faz parecer velados diamantes.
Em pequenos bocados,
como quem dá comida a criancinhas,
a beleza retém seu vórtice.
São águas de compaixão
e eu sobrevivo.



Poema da incerteza - Adalgisa Nery



O desespero estéril da indecisão
Cobre o ar frio como uma sombra glacial
Dispersando a humana compreensão
Sobre o objetivo e o vital.
Com a madrugada se vai também a solidão
A única e doce companheira
Para a irremediável e a completa aceitação.
O irresoluto afoga a verdade,
Caminha sobre o certo
Colocando trevas na humanidade
Já tão fria e tão sofrida
Para que a alma fique sempre acesa
Aos arrancos trágicos da vida
Onde germina a força e a beleza.

Maturidade - Lya Luft



Caminho entre as minhas perdas
que são insetos escuros,
e os meus ganhos: douradas borboletas.

A luz de uma paixão, o dedo da morte,
o grave pincel da solidão
desenharam meus contornos, firmaram
meu chão.

Que liberdade, não precisar pensar;
que alívio não ter de administrar
minha vida:
apenas andar, e olhar,
apenas ouvir essas vozes
que vêm de longe, passam por mim
e não me dão importância.

Porque no vasto oceano,
a minha eventual desarmonia
é só uma gota
desafinada.
Mais nada.


Que esperança será forte? - Luís Vaz de Camões



 Acha a tenra mocidade
Prazeres acomodados,
E logo a maior idade
Já sente por pouquidade
Aqueles gostos passados.
Um gosto que hoje se alcança,
Amanhã já não o vejo;
Assim nos traz a mudança
De esperança em esperança
E de desejo em desejo.
Mas em vida tão escassa
Que esperança será forte?
Fraqueza da humana sorte,
Que quanto da vida passa
Está receitando a morte!

Horário do fim - Mia Couto


Morre-se nada
quando chega a vez

é só um solavanco
na estrada por onde já não vamos

morre-se tudo
quando não é o justo momento

e não é nunca
esse momento


O voo dos pássaros - Lêdo Ivo


Os áridos pássaros que mudam as estações
não vieram nunca, embora eu os esperasse.

Acaso falam os homens do que viram?
Silenciosos são os lábios dos homens.

Grito ou palavra de amor não comovem
as pedras empedernidas pelo tempo.

Eram secos pássaros.
E o céu, que é plumagem, crepita.

Nem nos que voam nem nos que permanecem.
Não me demorei sobre nenhum pássaro.

Voando, eram a velha canção da infância morta
para mim, que sempre vi o que não existe
e eternamente verei o que jamais existirá.

Em voo, como os anos, a vida, o tempo...
Nada imaginei que pudesse ser admitido
pelos que não entendem uma teoria de pássaros.


Sintonia - Helena Kolody


Desejo de estar presente
na vibração deste agora
de inquietação e procura,
coragem e afirmação.
Bem dentro do coração
que supera o sofrimento

Estar no exato momento
em que o pensar se libera
de suas grades e muros.
Contagiar-se de espera.
Lavrar os dias futuros.



Self - Hélio Pellegrino



As raízes espalmam seus dedos
na ampla redoma azul
as copas verdes cavam seu vazio
nos pulmões da pedra
o céu e a terra
são um do outro seus contrários:
o centro é o centro.

Carpe Diem - Mário Faustino


 
Que faço deste dia, que me adora?
Pegá-lo pela cauda, antes da hora
Vermelha de furtar-se ao meu festim?
Ou colocá-lo em música, em palavra,
Ou grava-lo na pedra, que o sol lavra?
Força é guarda-lo em mim, que um dia assim
Tremenda noite deixa se ela ao leito
Da noite precedente o leva, feito
Escravo dessa fêmea a quem fugira
Por mim, por minha voz e minha lira.

(Mas já se sombras vejo que se cobre
Tão surdo ao sonho de ficar – tão nobre.
Já nele a luz da lua – a morte – mora,
De traição foi feito: vai-se embora.)

FREDERIC CHOPIN - NOCTURNES

Noturno - Cecília Meireles


Suspiro do vento,
lágrima do mar,
este tormento
ainda pode acabar?

De dia e de noite,
meu sonho combate:
veem sombras, vão sombras,
não há quem o mate!

Suspiro do vento,
lágrima do mar,
as armas que invento
são aromas no ar!

Mandai-me soldados
de estirpe mais forte,
com todas as armas
que levam à morte!

Suspiro do vento,
lágrima do mar,
meu pensamento
não sabe matar!

Mandai-me esse arcanjo
de verde cavalo,
que desça a êste campo
a desbaratá-lo!

Suspiro do vento,
lágrima do mar,
que leve esse arcanjo meu longo tormento,
e também a mim, para o acompanhar!



Há poetas que são artistas - Fernando Pessoa (Alberto Caeiro)


E há poetas que são artistas
E trabalham nos seus versos
Como um carpinteiro nas tábuas!...
Que triste não saber florir!
Ter que pôr verso sobre verso, como quem constrói um muro
E ver se está bem, e tirar se não está!...
Quando a única casa artística é a Terra toda
Que varia e está sempre bem e é sempre a mesma.

Penso nisto, não como quem pensa, mas como quem respira,
E olho para as flores e sorrio...
Não sei se elas me compreendem
Nem sei eu as compreendo a elas,
Mas sei que a verdade está nelas e em mim
E na nossa comum divindade
De nos deixarmos ir e viver pela Terra
E levar ao solo pelas Estações contentes
E deixar que o vento cante para adormecermos
E não termos sonhos no nosso sono.