Valsa suburbana - Cláudio Neves

No muro a hera,
se calcinada,
se regenera,

e flore tão ela,
tão rente ao que era,
como se não houvesse

na hera a morte,
na morte
a primavera.

Madrugada - Adolfo Casais Monteiro


Ah! Este poema das madrugadas,
que há tanto tempo enrodilhado
num sem-fim de estados de alma
me obcecava, tirânico,
sem se deixar fixar! ...

Madrugada... e esta solidão crescendo,
esta nostalgia maior, e maior, e maior,
de não se sabe o quê
— nunca se sabe o quê...
que haverá nestas horas sozinhas e geladas,
para assim trazer à tona as indefinidas mágoas,
as saudades e as ânsias sem motivo
— de que não sabemos o motivo?...

Vieram as saudades do tempo de menino
— ou dum paraíso lá não sei onde?
Ah! que fantasmas pesaram sobre os ombros,
que sombras desceram sobre os olhos,
que tristeza maior fez maior o silêncio?
A que vem esse calor distante e absorto,
esse calar, esses modos distraídos?
Meu pobre sonhador! a esta hora
porventura se desvenda a Suprema Inutilidade?
e a definitiva ilusão de tantos gestos?
Interroga, interroga...
vai sonhando,
sem que saibas sequer o caminho que segues
vai, distraído e pensativo,
alheio de hoje,
vivendo já o derradeiro segundo...

Que a madrugada tem o pungir das agonias,
mas alheio, como o fim dum pesadelo...


Encantamento - Graça Pires

Amanhã, quando o chão for a construção da nudez
 e houver, entre os teus olhos
 e os meus, um súbito musgo,
 não se repetirá, meu Amor,
 o cambalear das palavras na garganta,
 nem diremos a interdição dos lagos
 na saliva esgotada no sal.

 Alguns corpos inventam
 a dimensão incondicionada da noite,
 exposta e cúmplice como a terra.
 Nós saberemos, lentamente,
 o mel inquietante dos dedos.

 Em nome da primeira vez que amei,
 tracei na pele um movimento eterno de combustão e dor,
 peças sensíveis da engrenagem
 montada no fundo dos meus olhos
 como um ciclo solar.

 Hoje conheço os contornos de um lugar
 pela quietude das ondas na maré vaza,
 ou pela brisa espontânea do poente
 e sei que o amor,
 onde nenhuma contradição é necessária
 é tudo quanto sobra no espaço vazio
 entre o que somos e o que não somos.


Egberto Gismonti - Bachiana nº 5 - Villa Lobos

Sob a Tua Serenidade - Cecília Meireles


Não me ouvirás ...É vão ... Tudo se espalha
Pelos ermos de azul ... E permaneces
Sobre o vale das súplicas e preces
Com solenes grandezas de muralha ...

Minha alma, sem Te ouvir nem ver, trabalha
Tranquila. Solidão ... Desinteresses ...
Por que pedir? De tudo que me desses
Nada servirá a esta existência falha...

Nada servirá, agora ... E, noutra vida,
Oh, noutra vida eu sei que terei tudo
Que há na paragem bem-aventurada ...

Tudo – porque eu nasci desiludida
E sofri, de olhos mansos, lábio mudo,
Não tenho nada e não pedindo nada ... 


Porque me negas o que te não peço - Ricardo Reis (Fernando Pessoa)


Porque me negas o que te não peço
A flor que és, não a que dás, eu quero.
 Porque me negas o que te não peço.
 Tempo há para negares
 Depois de teres dado.

 Flor, sê-me flor! Se te colher avaro
 A mão da infausta esfinge, tu perene
 Sombra errarás absurda,
 Buscando o que não deste.



Paisagem - Vieira Calado


Percorro esta paisagem com os olhos
e vejo grandes árvores perfiladas contra o vento,
mas o vento é a luz que esvanece nos meus olhos
as árvores que não vejo como vejo ou imagino.
Nos meus olhos há florestas
ervas que se erguem para ser árvores
no seio interior da paisagem,
esta paisagem que eu percorro com os olhos.
E é esse o caminho liberto a esvoaçar em bandos de aves
que vêm de longe, donde o vento sopra
o ânimo dum milagre feito mágica
de azuis e verdes no cinzento da minha terra.


No meu olhar - Cecília Vilas Boas

No meu olhar, voam pássaros inventados
 Contos lendários de príncipes e princesas
 Centelhas de ventos sobranceiros
 Violetas que perfumam o meu travesseiro.

 Vejo névoas que encobrem castelos
 Manhãs de bruma em dias soalheiros
 Ondas oceânicas, que rebentam nas estrelas
 Tudo cabe ali, na fantasia do meu olhar...

 Nos meus sonhos perco-me em melancolia
 Ainda lembro as brisas aladas do fim de tarde
 E as magnólias do meu jardim...
 Onde estão as magnólias do meu jardim?!


Epigrama nº 14 - Cecília Meireles


Pelo arco-íris tenho andado.
Mas de longe, e sem vertigens.
E assim pude abraçar nuvens,
para amá-las e perdê-las.

Foi meu professor um pássaro,
dono de arco-íris e nuvens,
que dizia com as asas,
em direção às estrelas...


Os Vazios do Homem - João Cabral de Melo Neto


Os vazios do homem não sentem ao nada
do vazio qualquer: do do casaco vazio,
do da saca vazia (que não ficam de pé
quando vazios, ou o homem com vazios);
os vazios do homem sentem a um cheio
de uma coisa que inchasse já inchada;
ou ao que deve sentir, quando cheia,
uma saca: todavia não, qualquer saca.
Os vazios do homem, esse vazio cheio,
não sentem ao que uma saca de tijolos,
uma saca de rebites; nem têm o pulso
que bate numa de sementes, de ovos.

Os vazios do homem, ainda que sintam
a uma plenitude (gora mas presença)
contêm nadas, contêm apenas vazios:
o que a esponja, vazia quando plena;
incham do que a esponja, de ar vazio,
e dela copiam certamente a estrutura:
toda em grutas ou em gotas de vazio,
postas em cachos de bolha, de não-uva.
Esse cheio vazio sente ao que uma saca
mas cheia de esponjas cheias de vazio;
os vazios do homem ou o vazio inchado:
ou vazio que inchou por estar vazio.



Não se mate - Carlos Drummond de Andrade


Carlos, sossegue, o amor
é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe
o que será.

Inútil você resistir
ou mesmo suicidar-se.
Não se mate, oh não se mate,
Reserve-se todo para
as bodas que ninguém sabe
quando virão,
se é que virão.

O amor, Carlos, você telúrico,
a noite passou em você,
e os recalques se sublimando,
lá dentro um barulho inefável,
rezas,
vitrolas,
santos que se persignam,
anúncios do melhor sabão,
barulho que ninguém sabe
de quê, praquê.

Entretanto você caminha
melancólico e vertical.
Você é a palmeira, você é o grito
que ninguém ouviu no teatro
e as luzes todas se apagam.
O amor no escuro, não, no claro,
é sempre triste, meu filho, Carlos,
mas não diga nada a ninguém,
ninguém sabe nem saberá.



O outro lado da noite? - Marco Lucchesi

A natureza, em seu amor ardente,
no círculo da própria negação,
em ouro, pedra e sal ambivalente,
trabalha na perene transição.
Dissolve e coagula eternamente
a vida, que renasce, em floração,
da morte, como a lua refulgente,
surgindo na profunda escuridão.
Na síntese do velho Magofonte,
a vívida matéria se desfaz
em águas claras, na secreta fonte:
até que inesperada se refaz,
envolta, como a Uroburos insonte,
num círculo sutil que não se esfaz.
  


Só - Florbela Espanca

Eu tenho pena da Lua!
Tanta pena, coitadinha,
Quando tão branca, na rua
A vejo chorar sozinha!…

As rosas nas alamedas,
E os lilases cor da neve
Confidenciam de leve
E lembram arfar de sedas

Só a triste, coitadinha…
Tão triste na minha rua
Lá anda a chorar sozinha …

Eu chego então à janela:
E fico a olhar para a lua…
E fico a chorar com ela! …


Poema da tarde - Murilo Mendes

         A tarde move-se entre os galhos das minhas mãos.
Uma estrela aparece no fim do meu sangue,
Minha nuca recebeu o hálito fino de uma rosa branca.
Todas as formas servem-se mutuamente,
Umas em pé, outras se ajoelhando, outras sentadas,
Regando o coração e a cabeça do homem:

E dentre os primeiros véus surge Maria da Saudade
Que, sem querer, canta.


Requiescat - Fernando Campanella


 De meu mar, ofereço-te as ondas
e as poéticas conchas
que minhas praias te trazem
Tais suaves mistérios te concedo,
mais as algas, e as gaivotas
que bicam tecidos de luz na tarde.

Povoados de ti, de mim,
os barcos que chegam e ardem.

Adere-te, pois, ao sal que e mim te chama,
molha teus pés em espuma e encanto,
cobre teu rosto
nas claras águas que o dia me abre.

(Sosseguem, minhas dorsais;
Descanse meu leviatã escuso.)


Esboço da tarde - Eric Ponty

Eu sou a ilustre tarde cuja coroa,
Grande lustre do mundo ainda doa,
Nós outros, cuja dama tanto traz,
Grande tarde das horas se refaz.

Crepúsculo celeste berço adia,
Que observa os tons domados deste dia,
Mas insistindo lua por derradeira,
Com as ocultas vistas que recreia.

Aflora as flores rubras deste espanto,
E forte alteração solene manto,
Por vindouro hemisfério nu do outono.

Veio à tarde no céu pintando os pobres,
Vão das horas descendo de tons lúgubres,
Neste trabalho árduo que me ufano.


Leonard Cohen - A Thousand Kisses Deep

Destino - Cecília Meireles

Pastora de nuvens, fui posta a serviço
por uma campina desamparada
que não principia nem também termina,
e onde nunca é noite e nunca madrugada.

(Pastores da terra, vós tendes sossego,
que olhais para o sol e encontrais direção.
Sabeis quando é tarde, sabeis quando é cedo.
Eu, não.)

Pastora de nuvens, por muito que espere,
não há quem me explique meu vário rebanho.
Perdida atrás dele na planície aérea,
não sei se o conduzo, não sei se o acompanho.

(Pastores da terra, que saltais abismos,
nunca entendereis a minha condição.
Pensais que há firmezas, pensais que há limites.
Eu, não.)

Pastora de nuvens, cada luz colore
meu canto e meu gado de tintas diversas.
Por todos os lados o vento revolve
os velos instáveis das reses dispersas.

(Pastores da terra, de certeiros olhos,
como é tão serena a vossa ocupação!
Tendes sempre o início da sombra que foge...
Eu, não.)

Pastora de nuvens, não paro nem durmo
neste móvel prado, sem noite e sem dia.
Estrelas e luas que jorram, deslumbram
o gado inconstante que se me extravia.

(Pastores da terra, debaixo de folhas
que entornam frescura num plácido chão,
Sabeis onde pousam ternuras e sonos.
Eu, não.)

Pastora de nuvens, esqueceu-me o rosto
do dono das reses, do dono do prado.
E às vezes parece que dizem meu nome,
que me andam seguindo, não sei por que lado.

(Pastores da terra, que vedes pessoas
sem serem apenas de imaginação,
podeis encontrar-vos, falar tanta coisa!
Eu, não.)

Pastora de nuvens, com a face deserta,
sigo atrás de formas com feitios falsos,
queimando vigílias na planície eterna
que gira debaixo dos meus pés descalços.

(Pastores da terra, tereis um salário,
e andará por bailes vosso coração.
Dormireis um dia como pedras suaves.
Eu, não).


Seja Paciente - Rainer Maria Rilke


Quero lhe implorar
para que seja paciente
com tudo o que não está
resolvido em seu coração,
e tente amar as perguntas
como quartos trancados
e como livros escritos
em língua estrangeira.

Não procure respostas que
não podem ser dadas porque não
seria capaz de vivê-las.
E a questão é viver tudo.
Viva as perguntas agora.
Talvez assim, gradualmente,
você sem perceber,
viverá a resposta num dia distante.

Canção da manhã - Helena Kolody


No esguio minarete do pinheiro,
O sabiá convida para a prece.
Canta e baila a água trêfega das fontes,
Na cristalina infância dos rios.
Fragílimas filigramas de teias orvalhadas
tremeluzem ao sol.
Ostenta um lustro novo e verde da folhagem,
Comunicando ao velho encanto da paisagem
Um brilho inaugural.
Fulvo oceano de luz em que submerge o mundo!
Riso feliz que assoma aos lábios sem querer...
Ó gloriosa manhã, como é doce viver!


A vida é que nos vive - Lou Andreas-Salomé


A vida humana

- na verdade toda a vida -
É poesia.

Nós a vivemos inconscientemente,
dia a dia,
fragmento a fragmento,
mas na sua totalidade
inviolável,
Ela é que nos vive!


O interior do invisível - Rumi

Esquece o mundo e comanda o mundo.
Sê a lâmpada, o barco salva-vidas,
a escada.

Sai de tua casa e, como o pastor,
ajuda a curar a alma do teu próximo.
Entra no fogo espiritual
e deixa-te calcinar.

Sê o pão bem assado, sê o senhor da mesa.
Vem, sacia teus irmãos.
Tu, que tens sido a fonte da dor,
sê agora o deleite.

Viveste como uma casa sem alicerces.
Sê agora o Um que perscruta
o interior do invisível.

Assim que me calei,
uma voz chegou aos meus ouvidos:
"Se te tornas isto, serás aquilo."

Silêncio!
E depois mais silêncio.
Não uses a boca para falar.
A boca é para provar dessa doçura.



Rosto - Sophia de Mello B. Andresen


Rosto nu na luz directa.

Rosto suspenso, despido e permeável,
Osmose lenta.
Boca entreaberta como se bebesse,
Cabeça atenta.

Rosto desfeito,
Rosto sem recusa onde nada se defende,
Rosto que se dá na duvida do pedido,
Rosto que as vozes atravessam.

Rosto derivando lentamente,
Pressentindo que os laranjais segredam,
Rosto abandonado e transparente
Que as negras noites de amor em si recebem

Longos raios de frio correm sobre o mar
Em silêncio ergueram-se as paisagens
E eu toco a solidão como uma pedra.

Rosto perdido
Que amargos ventos de secura em si sepultam
E que as ondas do mar puríssimas lamentam.


O espelho - Mia Couto


Esse que em mim envelhece
assomou ao espelho
a tentar mostrar que sou eu.

Os outros de mim,
fingindo desconhecer a imagem,
deixaram-me a sós, perplexo,
com meu súbito reflexo.

A idade é isto: o peso da luz
com que nos vemos.


Desconcerto Do Mundo - Luís Vaz de Camões

 Os bons vi sempre passar
 no mundo graves tormentos;
 e, para mais m´espantar,
 os maus vi sempre nadar
 em mar de contentamentos.
 Cuidando alcançar assim
 o bem tão mal ordenado,
 fui mau, mas fui castigado:
 Assi que, só para mim
 anda o mundo concertado.



HAIKAI - A. A. de Assis

Curvam-se as roseiras.
Jogam as rosas, felizes,
beijos às raízes.



Canção tão simples - Manuel Alegre


Quem poderá domar os cavalos do vento
quem poderá domar este tropel
do pensamento
à flor da pele?

Quem poderá calar a voz do sino triste
que diz por dentro do que não se diz
a fúria em riste
do meu país?

Quem poderá proibir estas letras de chuva
que gota a gota escrevem nas vidraças
pátria viúva
a dor que passa?

Quem poderá prender os dedos farpas
que dentro da canção fazem das brisas
as armas harpas
que são precisas?


O eco - Cecília Meireles


O menino pergunta ao eco
onde é que ele se esconde.
Mas o eco só responde: "Onde? Onde?"

O menino também lhe pede:
"Eco, vem passear comigo!"

Mas não sabe se eco é amigo
ou inimigo.

Pois só lhe ouve dizer:
"Migo!"



O amor passou - Geraldo Carneiro


Daqui até o futuro do futuro
Por toda a eternidade e mais um dia
Por toda a eternidade e mais um dia.

Escuta, meu amor, o amor passou
Passou o fogo, a fome, o sonhador
Só não passou foi o sonho de amar
Que há de andar comigo até passar
Nas reencarnações da minha dor
Talvez até se converter em flor
Pra alimentar os pássaros do tempo
Os girassóis das novas gerações
As aventuras dos novos verões
Que ainda haverá verões e primaveras, e primaveras
Daqui até o futuro do futuro
Por toda a eternidade e mais um dia

Por toda a eternidade e mais um dia.