Álvaro Bastos

A noite traz de volta as luzes
que eu seguia quando menino.
Pequenos pontos de cor verde,
vaga-lumes enfeitando sua casa.
Círculos de luz no chão da rua,
dos postes sempre de plantão.

Estrelas, cometas e asteróides,
mistérios brilhantes do firmamento.
A lua que se escondia no telhado,
o reflexo de tudo quando chovia.
E a pequena fresta cor de rosa
que de sua janela me seduzia.



A Fala - Ferreira Gullar

  As crianças riem no esplendor das frutas, Vina,
O sol é alegre.
Esta estrada, esta estrada de terra
onde as velhas sem teto se transformam em aves, O sol
é alegre.
Fala-me da ciência. O hálito maduro
em que as folhas crescem donas de sua morte.

Vina, as hortaliças não falam. Me curvo sobre nós
e as minhas asas tocam o teto.
Aonde não chega o amor e o sábado é mais pobre,
Lá, ciscamos estes séculos.
Os meus olhos, sábios, sorriem-me de entre as pedras.
Prossegue, eu te escuto, chão, usar a minha língua.
Vejo os teus dentes e o seu brilho. A terra, dizes,
a terra. Prossegue.

Falemos alto. Os peixes ignoram as estações e nadam.
Nos, caminhamos entre as árvores. Quando é verão, os druidas,
curvados, recolhem as ervas novas.
falemos alto,
Os milagres são poucos.
As águas refletem os cabelos, as blusas dos viajantes.
Os risos, claros, detrás do ar. Os pássaros voam em silêncio.
Não te posso dizer: ‘vamos’ – senão por aqui.
A infância dentro da luz dum musgo que os bichos
comem com a sua boca.
Eu ouço o mar; sopro, caminho na folhagem.
Mirar-nos límpidos no susto das águas escondidas!,
a alegria debaixo das palavras.

O culto do sol perdeu os homens; os restos de suas asas
rolam nestas estradas por onde vamos ainda.
Aqui é o chão, o nosso. No alto ar as esfinges sorriem.
Seus vastos pés de pedra, entre as flores.

Sopra, velho sopro de fé, vento das épocas
comedor de alfabetos, come o perfil dos mitos, vento
grande rato do ar eriçado de fomes,
Galopa

Esta linguagem não canta e não voa,
não voa,
o brilho baixo;
filha deste chão, vento que dele se ergue
em suas asas de terra.
Aqui, a pouca luz,
ganha a um sol fechado, soluça.

Sopra o coração o sol das folhas, Vina,
é verão nas minhas palavras.

Maduras, movem-se
as águas, fervilhando de rostos.
E me iluminam um lado no silêncio
para onde as cousas estão extremamente voltadas.

O teu mais velho canto,
arrastado com sol, varrido
no coração das épocas,
eu o recolho, agora, de entre estas pedras, queimado.

Tua boca, real,
clareia os campos que perdemos.
Eu jazo detrás da casa, aonde já ninguém vai
(onde a mitologia sopra, perdida dos homens,
entre flores pobres).
Fora, é o jardim, o sol – o nosso reino.
Sob a fresca linguagem, porém,
dentro de suas folhas mais fechadas,
a cabeça, os chavelhos reais de lúcifer,
esse diurno.

Assim é o trabalho. Onde a luz da palavra
torna à sua fonte,
detrás, detrás do amor,
ergue-se para a morte, o rosto.

Um fogo sem clarão queima os frutos
neste campo. Onde a vegetação não ri.

Cavamos a palavra. Sob o seu lustro
a cal; e cavamos a cal.

Onde jorrara a fonte, as pedras
secas. Onde jorrara
a fonte, jorrara a fonte.

Aqui jorrara a fonte.

Um fogo sem clarão cria os frutos deste campo.

Isto é a poesia florindo
sem rumor e sem milagre. A poeira
florindo o seu milagre.
Isto é um verão se erguendo
com as suas folhas e o seu sol.
Duma garganta clara,
o mar (um verão)
se erguendo sem barulho.

Numa altura do ar,
esplendentes,
as frutas.
Aonde não chega a fome, a nossa
fome, nos mostro:
as frutas!

Onde jorrara a fonte, jorrara
a fome. Onde jorrara
a morte, jorrara
a fonte. Aqui,
jorrara a fonte.
Aqui, onde jorrara
a morte, a água sorria
livre; a primavera
brilhava nos meus dentes.

Onde jorrando a morte, a fome vinha
e a boca apodrecia bem seu hálito;
e no hálito as rosas
desta fonte; e nas rosas
a morte desta fome.

As frutas sem morte
não as comemos.
Essas
que uma outra fome, clara,
segura.
Essas
suspensas lá onde o silêncio,
não bem como uma árvore
de vidro,
frutifica.

Ouve jorrar a morte
no teu riso, a alegria
queimando a vida;
os teus bichos domésticos,
as flores infernais
a rebentar dos passos.
Agora, eu te falo duma água
que não te molha a mão
nem reflete
O teu rosto casual

O odor
do corpo é impuro,
mas é preciso amá-lo.
Nenhum outro sol me clareia,
senão esse, mortal
como um pássaro,
que meu trabalho acende
desse odor.

E é assim que a alegria constrói;
dentro de minha boca,
o seu cristal difícil.

Movimento – tão pouco é o ar,
tão muito o tempo falho
nesse ar.

Fala: movimento... a fala
acende da poeira. Gira
o cone do ar, as velhas forças
movendo a luz.

Move, que é onde se apoia
o vértice do pó.
Roda a mecânica esquecida
e, resguardado, o trigo
– o silêncio extremo
acossado de sóis.
As cavernas jamais tocadas
vibram.

Apagado o hálito,
onde seguras
o teu vivo brilho?

Trigo, trigais
comidos. Rebenta
no ouro a espiga.
O nosso pão vacila
mas a tua língua é feliz.

O mito nos apura
em seus cristais.

Os ventos que enterramos
não nos deixam.
Estão nos castigando
com seu escuro fogo.

A altura em que queimamos
o sono
estabelece o nosso inferno
e as nossas armas.

Chão verbal,
campos de sóis pulverizados.
As asas da vida aqui se desfazem
e mais puras regressam.

O mar lapida os trabalhos
de sua solidão

A palavra erguida
vigia
acima das fomes
o terreno ganho.
Flores diurnas, minhas feras,
estas são as máquinas do voo
A pele do corpo
se incendeia
em vosso inferno verdadeiro.

Eu te violento, chão da vida,
garganta de meu dia.
Em tua áspera luz
governo o meu canto.

Sobre a poeira dos abraços
construo meu rosto

Entre a mão e o que ela fere
o pueril sopra seu fogo

Oficina impiedosa!
Minha alquimia
é real

Na minha irascível pátria
o perfume
queima a polpa
Nos fundos lagos o dia move
seus carvões enfurecidos

O silêncio sustenta caules
em que o perigo gorjeia.

As rosas que eu colho
não são essas, frementes
na iluminação da manhã;
são, se as colho, as dum jardim contrário,
nascido desses, vossos, de sua terrosa
raiz, mas crescido inverso
como a imagem nágua;
aonde não chegam os pássaros
com seu roubo, no exasperado coração da terra,
floresce, tigre, isento de odor.

Aranha,
como árvore, engendra na sombra
a sua festa, seu voo qualquer.
Velhos sóis que a folhagem bebeu,
luz, poeira
agora, tecida no escuro. Alto abandono
em que os frutos alvorecem,
e rompem!

Mas não se exale a madurez
desse tempo: e role o ouro, escravo,
no chão,
para que o canto se redima sem ajuda.



Salve Rainha - Adélia Prado

A melancolia ameaça
queria ficar alegre
sem precisar escrever
sem pensar
que labor de abelhas
e voo de borboletas
precisam desse registro.

Chorando seus casamentos,
vejo mulheres que conheci na infância
como crianças felizes.

A vida é assim, Senhor?

Desabam mesmo
pele do rosto e sonhos?
Não é o que anuncio
- já vejo o fim dessas linhas,
isto é um poema, tem ritmo,
obedece a ordem mais alta
e parece me ignorar.
Me acontecem maus sonhos:
a casa só tem uma porta,
casa prisão,
paredes altas, cômodos estreitos.

Chamo pelo homem, ele ja se foi,
quem se volta é um negro,
indiferente.

A criança que se perdera
ou deixei perder-se de mim,
é um menino lobo,
eu a encontro grunhindo,
com um casal velho de negros.
Por que os negros de novo?
Por que este sonho?
Gasto minhas horas em pedir socorro,
esgotando-me, monja extramuros,
em produzir espaços de silêncio
para encontrar Tua voz.
É medo, meu apregoado amor,
uma fita gravada, meu contentamento.
O primeiro santo do Brasil
invocou para um pobre:
"Pos partum, Virgo Inviolata permansisti.
Dei Genitrix intercede pro nobis."

Ó Virgem,
volte à minha alma a alegria,
também eu
estendo a mão a esta esmola.


A vida verdadeira - Thiago de Mello

Pois aqui está a minha vida.
 Pronta para ser usada.
 Vida que não guarda
 nem se esquiva, assustada.
 Vida sempre a serviço
 da vida.
 Para servir ao que vale
 a pena e o preço do amor

 Ainda que o gesto me doa,
 não encolho a mão: avanço
 levando um ramo de sol.
 Mesmo enrolada de pó,
 dentro da noite mais fria,
 a vida que vai comigo
 é fogo:
 está sempre acesa.

 Vem da terra dos barrancos
 o jeito doce e violento
 da minha vida: esse gosto
 da água negra transparente.

 A vida vai no meu peito,
 mas é quem vai me levando:
 tição ardente velando,
 girassol na escuridão.

 Carrego um grito que cresce
 Cada vez mais na garganta,
 cravando seu travo triste
 na verdade do meu canto.

 Canto molhado e barrento
 de menino do Amazonas
 que viu a vida crescer
 nos centro da terra firme.
 Que sabe a vinda da chuva
 pelo estremecer dos verdes
 e sabe ler os recados
 que chegam na asa do vento.
 Mas sabe também o tempo
 da febre e o gosto da fome.

 Nas águas da minha infância
 perdi o medo entre os rebojos.
 Por isso avanço cantando

 Estou no centro do rio
 estou no meio da praça.
 Piso firme no meu chão
 sei que estou no meu lugar,
 como a panela no fogo
 e a estrela na escuridão.

 O que passou não conta ?, indagarão
 as bocas desprovidas.
 Não deixa de valer nunca.
 que passou ensina
 com sua garra e seu mel.

 Por isso é que agora vou assim
 no meu caminho. Publicamente andando
 Não, não tenho caminho novo.
 O que tenho de novo
 é o jeito de caminhar.
 Aprendi
 (o que o caminho me ensinou)
 a caminhar cantando
 como convém
 a mim
 e aos vão comigo.
 Pois já não vou mais sozinho.

 Aqui tenho a minha vida:
 feita à imagem do menino
 que continua varando
 os campos gerais
 e que reparte o seu canto
 como o seu avô
 repartia o cacau
 e fazia da colheita
 uma ilha do bom socorro.

 Feita à imagem do menino
 mas a semelhança do homem:
 com tudo que ele tem de primavera
 de valente esperança e rebeldia.

 Vida, casa encantada,
 onde eu moro e mora em mim,
 te quero assim verdadeira
 cheirando a manga e jasmim.
 Que me sejas deslumbrada
 como ternura de moça
 rolando sobre o capim.

 Vida, toalha limpa
 vida posta na mesa,
 vida brasa vigilante
 vida pedra e espuma
 alçapão de amapolas,
 sol dentro do mar,
 estrume e rosa do amor:
 a vida.

 Há que merecê-la.


Supernova - Jorge de Sousa Braga

Uma estrela quando morre
morre tão devagar
que não se lembra sequer
de que chegou a brilhar

Mas nem todas as estrelas
morrem dessa maneira
Há quem antes de morrer
brilhe pela vida inteira


Décio Pignatari



um
         movi
         mento
     compondo
    além
                  da
 nuvem
       um
     campo
           de
     combate


         mira
     gem
            ira
                 de
        um
             horizonte
puro
      num
          mo
          mento
  vivo 


Canção da noite alta - Mário Quintana


Menina está dormindo.

Coração bulindo.
Mãe, por que não fechaste a janela?

É tarde, agora:
Pé ante pé
Vem vindo
O Cavaleiro do Luar.
Na sua fronte de prata
A lua se retrata.
No seu peito
Bate um coração perfeito.
No seu coração
Dorme um leão,
Dorme um leão com uma rosa na boca.
E o príncipe ergue o punhal no ar:
...um grito
aflito...
Louca!


Vivaldi - Autumn

Santo e Senha - Miguel Torga

Deixem passar quem vai na sua estrada.
Deixem passar
Quem vai cheio de noite e de luar.
Deixem passar e não lhe digam nada

Deixem, que vai apenas
Beber água de sonho a qualquer fonte;
Ou colher açucenas
A um jardim que ele lá sabe, ali defronte.

Vem da terra de todos, onde mora
E onde volta depois de amanhecer.
Deixem-no pois passar, agora

Que vai cheio de noite e solidão
Que vai ser uma estrela no chão.



Um dia branco - Sophia de Mello B. Andresen

Dai-me um dia branco, 
um mar de beladona
Um movimento
Inteiro, unido, adormecido
Como um só momento.

Eu quero caminhar como quem dorme
Entre países sem nome que flutuam.

Imagens tão mudas
Que ao olhá-las me pareça
Que fechei os olhos.

Um dia em que se possa não saber.



Ato de contrição - Artur da Távola


Ah, como somos comedidos!
Acomodamo-nos, vãos,
nos limites do concebido.

Somos bem educados, cultos,
e ruge tanta fome
nos apetites fora do concedido.

Ah, como somos sob medida!
sub metidos, hirtos, bem vestidos,
robôs impecáveis, ilusão de vida.

Ah, somos como os subvertidos,
introvertida soma de extrovertidos
por pompa, tinta, arroto ou brilhantina.

Filhos do instante, do entanto e do porém,
somos através, como os vidros,
mas opacos e pervertidos, sempre aquém.

Traçamos sinas e abstrações,
terçamos ódio finos, dissuadidos,
lãs de olvido e alucinações.

Sovamos os sidos, os vividos,
somos eiva, disfarce, diluição.
Somos somas a subtrações.


Roda do Tempo - Ademir Antônio Bacca


as pás
do velho moinho de água
giram a roda do tempo
e trazem à tona
antigas lembranças

na beira do rio
da minha infância
lembro de ti
e algo em mim diz
que neste momento
posso escrever
o meu mais belo poema
de amor

inerte na beira do rio,
no ir e vir
das pás do velho moinho
com a água,
aos poucos,
vi passar minha vida,
lembrança por lembrança,
e sofri mais uma vez a dor
de todas as perdas
ao vê-las desaparecerem
na curva do rio

impotente,
vi todas as minhas palavras
substituírem as águas
no mover das velhas pás
e lembranças
e uma a uma
irem me escapando
não sobrando nenhuma
para escrever o poema
que você sempre quis
ouvir de meus lábios
entre os nossos lençóis



Se deste outono - Eugénio de Andrade

Se deste OUTONO uma folha,
apenas uma, se desprendesse
da sua cabeleira ruiva,
sonolenta,
e sobre ela a mão
com o azul do ar escrevesse
um nome, somente um nome,
seria o mais aéreo
de quantos tem a terra,
a terra quente e tão avara
de alegria.

O Circo - Sidney Miller


Vai, vai, vai começar a brincadeira
Tem charanga tocando a noite inteira
Vem, vem, vem ver o circo de verdade
Tem, tem, tem picadeiro e qualidade

Corre, corre minha gente
Que é preciso ser esperto
Quem quiser que vá na frente,
Vê melhor quem vê de perto
Mais no meio da folia
Noite alta céu aberto
Sopra o vento que protesta
Cai no teto rompe a lona
Para que a lua de carona
Também possa ver a festa.

Bem me lembro trapezista
Que mortal era seu salto
Balançando lá no alto
Parecia de brinquedo
Mas fazia tanto medo
Que o Zezinho do trombone
De renome tão sagrado
Esquecia o próprio nome
E abraçava o microfone
Para tocar o seu dobrado

Faço versos pro palhaço
Que na vida já foi tudo
Foi soldado, carpinteiro
Seresteiro, vagabundo
Sem juiz e sem juízo
Fez feliz a todo mundo
Mas no fundo não sabia
Que em seu rosto coloria
Todo o encanto de um sorriso
Que o seu corpo não sorria

De chicote cara feia
Domador fica mais forte
Meia volta, volta e meia
Meia vida, meia morte,
Terminado o seu batendo
De repente a fera some
Domador que era valente
Noutra esfera se consome
Seu amor indiferente
Sua vida e sua fome.

Fala o fole da sanfona
Fala a flauta pequenina
Que o melhor vai vir agora
Que desponta a bailarina
Que seu corpo é de senhora
E que seu rosto é de menina
Quem chorava já não chora
E quem cantava desafina
Porque a dança só termina
Quando a noite for embora

Vai, vai, vai terminar a brincadeira
Que a charanga tocou a noite inteira
Morre o circo, renasce na lembrança
Foi-se embora e eu ainda era criança


Bliss - "Silence"

Eternidade inútil - Cecília Meireles

Até morrer estarei enamorada
de coisas impossíveis:

tudo que invento, apenas,
e dura menos que eu,
que chega e passa.

Não chorarei minha triste brevidade:
unicamente alheia,
a esperança plantada em tristes dunas,
em vento, em nuvem, n'água.

A pronta decadência,
a fuga súbita
de cada coisa amada.

O amor sozinho vagava.
Sem mais nada além de mim...
numa eternidade inútil.


O Jardim do Amor - William Blake


O Jardim do Amor fui visitar,
E vi então o que jamais notara:
Lá bem no meio estava uma Capela,
Onde eu no prado correra e brincara.

E os portões desta Capela não abriam,
E "Não farás" sobre a porta escrito estava;
E voltei-me então para o Jardim do Amor
Lá onde toda a doce flor se dava;

E os túmulos enchiam todo o campo,
E eram esteias funerárias as flores;
E Padres de preto, em seu passeio secreto,
Atando com pavores minhas alegrias & amores.



14 de Março - Dia Nacional da Poesia


Todo dia é dia de poesia.
Ela está em toda parte.

Em todos os cantos do mundo há,
em todo os momentos,
alguém evocando sensações,
impressões e emoções.


A poesia não está no papel

Está na vida
Vista e sentida
Por olhos sensíveis
E corpos que se permitem ir além.
Por almas que ousam
Interiores que gritam.
(Carolina Salcides)


A POESIA

Onde está
a poesia? Indaga-se
por toda parte. E a poesia
vai à esquina comprar jornal. Ferreira Gullar

Castro Alves
(Depois da leitura de um poema)


(IMPROMPTU)


La vem o pastor subindo aos Alpes
Lança aos abismos a canção tremente.
Responde embaixo — o precipício enorme!
Responde em cima — o firmamento ingente!

Poeta! a voz do pegureiro errante
Em ti vibrando... se alteou!... cresceu!
Tua alma é funda — como é fundo o pego!
Teu gênio é alto — como é alto o céu!


Poesia é quando uma emoção encontra seu pensamento
e o pensamento encontra palavras.
(Robert Frost)




Pedras antárticas - Pablo Neruda


Ali termina tudo
e não termina:
ali começa tudo
se despedem os rios no gelo,
o ar se há casado com a neve,
não há ruas nem cavalos
e o único edifício
o construiu a pedra.
Ninguém habita o castelo
nem as almas perdidas
que frio e vento frio
amedrontaram:
é sozinha ali a solidão do mundo,
e por isso a pedra
se fez música,
elevou suas delgadas estaturas,
se levantou para gritar ou cantar,
porém ficou muda.
Só o vento,
o açoite
do Pólo Sul que assobia,
só o vazio branco
e um som de pássaro de chuva
sobre o castelo da solidão.


Os jardins imaginários - Ana Hatherly


Os jardins imaginários
que de longe vislumbramos
pertencem
aos distraídos insensíveis entes
com que os povoamos

Sempre ficamos
do lado de cá de suas grades
desejosos-receosos de as passarmos

Sentimos o perfume
das rosas que inventamos
vemos o esplendor
dos frutos que sonhamos

Contemplamos
na inventada montra dos prazeres
as sublimes doçuras que sonhamos
sentindo sempre
que não
que não somos dignos
de fruir tais gozos

Nos proibidos jardins
que inventamos
nós
sombras-fantasmas
dum desejo que nos impele em vão
nós
jamais perturbamos
a serenidade
de seu eterno impassível Verão


LIII - Hilda Hilst

Cadenciadas
Vão morrendo as palavras
Na minha boca.
Um sudário de asas
Há de ser agasalhado
E pátria para o corpo.
Anônimo, calado
O poeta contempla
Espelho e mágoa

Fragmentos de um veio
Berçário de palavras.

Umas lendas volteiam
O poeta vazio de seus meios:
Escombro, escadas
Amou de amor escuro
E fugiu de si mesmo
De sua própria cilada.

O poeta. Mudo.
Aceitável agora para o mundo
No seu sudário de asas.



O grito - Cláudio Neves

(sobre um quadro de Munch)

Há sempre um fiorde e uma ponte
 em toda a vertigem humana,
 e sempre essas nuvens em chama
 no som da palavra horizonte.

Há sempre um fiorde, uma ponte,
 dois homens de negro e o louco,
 e curvas no espaço amplo e pouco,
 e ser nesse andrógino instante.

Há sempre dois barcos que somem
 além do fiorde e da ponte
 que brumas tão rubras consomem.

E nesse grito a que ninguém responde,
 há sempre esse eco bifronte,
 esse espaço sem quando, esse tempo sem onde.


A Ostra e o Vento - André Mehmari e Ná Ozzetti

Dedução - Vladimir Maiakóvski

Não acabarão com o amor,
nem as rusgas,
nem a distância.
Está provado,
pensado,
verificado.
Aqui levanto solene
minha estrofe de mil dedos
e faço o juramento:
Amo
firme,
fiel
e verdadeiramente.