Manoel de Barros

 Nasci para administrar o à-toa
                               o em vão
                            o inútil.
    Pertenço de fazer imagens.
   Opero por semelhanças.
   Retiro semelhanças de pessoas com árvores
              de pessoas com rãs
              de pessoas com pedras
              etc etc.
    Retiro semelhanças de árvores comigo.
   Não tenho habilidade pra clarezas.
   Preciso de obter sabedoria vegetal.
   (Sabedoria vegetal é receber com naturalidade 
uma rã no talo.)
   E quando esteja apropriado para pedra, 
terei também sabedoria mineral.




Yann Tiersen - Le Moulin

Crônica - Cláudio Neves


Nenhuma lâmina corta mais que a do domingo:
      que ela separa
o vento da palmeira, o sol de seu calor
o carro de quem dentro,
o cão
de seu latido.

Nenhuma tão feroz, e tão exata,
e tão moral que ela separa
o tédio do cansaço,
o prestes do irrecuperável,
o som da coisa que lhe é inata.

 Nenhuma tão senhora, embora ainda antes de golpeada:
que ela constrange os objetos,
lhes ameaça o excesso e os conflagra,
que em que não há cortar
é onde mais se farta.

Passa uma nuvem pelo sol - Fernando Pessoa


Passa uma nuvem pelo sol 
Passa uma pena por quem vê. 
A alma é como um girassol: 
Vira-se ao que não está ao pé. 

Passou a nuvem; o sol volta. 
A alegria girassolou. 
Pendão latente de revolta, 
Que hora maligna te enrolou?


Amo! - J. G. de Araujo Jorge

 
Amo a terra ! Amo o sol! Amo o céu! Amo o mar!
Amo a vida! Amo a luz! Amo as árvores! Amo
a poesia que escrevo e entusiasta declamo
aos que sentem como eu a alegria de amar!

 
Amo a noite! Amo a antiga palidez do luar!
A flor presa aos cabelos soltos de algum ramo!
Uma folha que cai! Um perfume no ar
onde um desejo extinto sem querer inflamo!

 
Amo os rios! E a estranha solidão em festa,
dessa alma que possuo multiforme e inquieta
como a alma multiforme e inquieta da floresta!

 
Amo a cor que há nos sons! Amo os sons que há na cor!
E em mim mesmo - amo a glória de sentir-me um Poeta
e amar imensamente o meu imenso amor!


Soneto de maior amor - Vinícius de Moraes


Maior amor nem mais estranho existe
Que o meu, que não sossega a coisa amada
E quando a sente alegre, fica triste
E se a vê descontente, dá risada.

E que só fica em paz se lhe resiste
O amado coração, e que se agrada
Mais da eterna aventura em que persiste
Que de uma vida mal aventurada.

Louco amor meu, que quando toca, fere
E quando fere vibra, mas prefere
Ferir a fenecer - e vive a esmo

Fiel à sua lei de cada instante
Desassombrado, doido, delirante
Numa paixão de tudo e de si mesmo.



Fala dos inconfidentes mortos – Cecília Meireles

Treva da noite,
lanosa capa
nos ombros curvos
dos altos montes
aglomerados...
Agora, tudo
jaz em silêncio:
amor, inveja,
ódio, inocência,
no imenso tempo
se estão lavando...

Grosso cascalho
da humana vida...
Negros orgulhos,
ingênua audácia,
e fingimentos
e covardias
(e covardias!)
vão dando voltas
no imenso tempo,
- à água implacável
do tempo imenso,
rodando soltos,
com sua rude
miséria exposta...

Parada noite,
suspensa em bruma:
não, não se avistam
os fundos leitos...
Mas, no horizonte
do que é memória
da eternidade,
referve o embate
de antigas horas,
de antigos fatos,
de homens antigos.

E aqui ficamos
todos contritos,
a ouvir na névoa
o desconforme,
submerso curso
dessa torrente
do purgatório...

Quais os que tombam,
em crime exaustos,
quais os que sobem,
purificados?

Trecho final de Romanceiro da Inconfidência, de Cecília Meireles 



Carminho - Alma

Mistério - Florbela Espanca

 
Gosto de ti, ó chuva, nos beirados,
 Dizendo coisas que ninguém entende!
 Da tua cantilena se desprende
 Um sonho de magia e de pecados.

 Dos teus pálidos dedos delicados
 Uma alada canção palpita e ascende,
 Frases que a nossa boca não aprende,
 Murmúrios por caminhos desolados.

 Pelo meu rosto branco, sempre frio,
 Fazes passar o lúgubre arrepio
 Das sensações estranhas, dolorosas…

 Talvez um dia entenda o teu mistério…
 Quando, inerte, na paz do cemitério,
 O meu corpo matar a fome às rosas!


HAIKAI - Matsuo Bashô


Apesar do sol
 Ardendo sem compaixão,
 O vento de outono.


Batuque ao longe - Glória de Sant'Anna

Do fundo da noite
a mesma toada batendo.
(É noite de medo?)

A mesma toada por sobre os telhados,
trazendo mensagens que tombam desfeitas.

(Coladas aos vidros
há vozes de greda).

A mesma toada roçando na porta,
batendo.

Por sobre as ramadas, calcando o capim,
em volta da serra, caindo do espaço,
em ecos de outrora por todos os lados.



Allegro - Vinícius de Moraes


Sente como vibra
Doidamente em nós
Um vento feroz
Estorcendo a fibra

Dos caules informes
E as plantas carnívoras
De bocas enormes
Lutam contra as víboras

E os rios soturnos
Ouve como vazam
A água corrompida

E as sombras se casam
Nos raios noturnos
Da lua perdida.


Bernardo Soares (Fernando Pessoa)


O homem não deve poder ver a sua própria cara.
Isso é o que há de mais terrível.
A Natureza deu-lhe o dom de não a poder ver,
assim como de não poder fitar os seus próprios olhos.
Só na água dos rios e dos lagos ele podia fitar seu rosto.
E a postura, mesmo, que tinha que tomar, era simbólica.
Tinha de se curvar, de se baixar para cometer a ignomínia de se ver.
O criador do espelho envenenou a alma humana.


Inscrição para uma lareira - Mário Quintana


A vida é um incêndio: nela
dançamos, salamandras mágicas
Que importa restarem cinzas
se a chama foi bela e alta?
Em meio aos toros que desabam,
cantemos a canção das chamas!

Cantemos a canção da vida,
na própria luz consumida...



Permanência da poesia - Emílio Moura


Quando a luz desaparecer de todo,
Mergulharei em mim mesmo e te procurarei lá dentro.

A beleza é eterna.
A poesia é eterna.
A liberdade é eterna.
Elas subsistem, apesar de tudo.

É inútil assassinar crianças. É inútil atirar aos cães os que,
de repente, se rebelam e erguem a cabeça olímpica.
A beleza é eterna. A Poesia é eterna. A liberdade é eterna.
Podem exilar a poesia: exilada, ainda será mais límpida.

As horas passam, os homens caem,
A poesia fica.

Aproxima-te e escuta.
Há uma voz na noite!

Olha:
É uma luz na noite!



"Guardar" (Antonio Cícero) - Por Fernanda Montenegro

Libertação - Tasso da Silveira

Nossos desejos se purificaram e o nosso pensamento
foi subindo, ascendendo, serenando...

Nossas paixões se altearam
como o vento, que, depois de varrer o pó do chão,
para as estrelas trêmulas se eleva,
e, mais alto que a sombra, além da treva,
fica ressoando,
longe e livre, na ignota solidão...



Estudo Para Metáfora - Eric Ponty


Rasguei dos meus cadernos
os meus sonhos colhidos
nos verdes campos de aurora.

Rasguei dos meus cadernos
coisas e frases definitivas
como existência ou alma.

Rasguei dos meus cadernos
as metáforas
e das metáforas
lancei nas sombras.

II


Onde foi o princípio e o findo
é metáfora.

Onde o sol toca ao meio-dia
é metáfora.

Onde existem voos ausentes
é metáfora.

Onde se vasculha os destroços
é metáfora.

E nos campos onde se fazem
a textura.


E, ó vento vago - Fernando Pessoa


E, ó vento vago

Das solidões,
Minha alma é um lago
De indecisões.

Ergue-a em ondas
De iras ou de ais,
Vento que rondas
Os pinheirais!


Carta da Infância - Carlos de Oliveira

Amigo Luar:

Estou fechado no quarto escuro
e tenho chorado muito.
Quando choro lá fora
ainda posso ver as lágrimas caírem na palma das
minhas mãos e brincar com elas ao orvalho
nas flores pela manhã.

Mas aqui é tudo por demais escuro
e eu nem sequer tenho duas estrelas nos meus olhos.
Lembro-me das noites em que me fazem deitar tão
cedo e te oiço bater, chamar e bater, na fresta
da minha janela.

Pelo muito que te tenho perdido enquanto durmo
vem agora,
no bico dos pés
para que eles te não sintam lá dentro,
brincar comigo aos presos no segredo
quando se abre a porta de ferro e a luz diz:
bons dias, amigo.               
                       


À l'aube - Gregorio Allegri, Miserere

Companheiros - Mia Couto

 quero
 escrever-me de homens
 quero
 calçar-me de terra
 quero ser
 a estrada marinha
 que prossegue depois do último caminho

 e quando ficar sem mim
 não terei escrito
 senão por vós
 irmãos de um sonho
 por vós
 que não sereis derrotados

 deixo
 a paciência dos rios
 a idade dos livros

 mas não lego
 mapa nem bússola
 porque andei sempre
 sobre meus pés
 e doeu-me
 às vezes
 viver
 hei-de inventar
 um verso que vos faça justiça

 por ora
 basta-me o arco-íris

 em que vos sonho
 basta-te saber que morreis demasiado
 por viverdes de menos
 mas que permaneceis sem preço

 companheiros


Notícia do Alto Sertão - João Cabral de Melo Neto

Por trás do que lembro,
 ouvi de uma terra desertada,
 vaziada, não vazia,
 mais que seca, calcinada.
 De onde tudo fugia,
 onde só pedra é que ficava,
 pedras e poucos homens
 com raízes de pedra, ou de cabra.
 Lá o céu perdia as nuvens,
 derradeiras de suas aves;
 as árvores, a sombra,
 que nelas já não pousava.
 Tudo o que não fugia,
 gaviões, urubus, plantas bravas,
 a terra devastada
 ainda mais fundo devastava.



Expectativas - Flora Figueiredo

O vento anda ficando mentiroso.
Prometeu trazer você, não trouxe.
Ficou de dizer o porquê, não disse.
Esperou que eu me distraísse,
passou depressa, rumo ao horizonte.

Já não tem importância
que cometa outra vez,
um ato de inconstância.

Aprendi a esperar...
Se ventos são capazes de levar embora,
a qualquer hora, também,
são capazes de fazer voltar.




As Cores de Abril - Vinícius de Moraes

 As cores de abril
Os ares de anil
O mundo se abriu em flor
E pássaros mil
Nas flores de abril
Voando e fazendo amor

O canto gentil
De quem bem te viu
Num pranto desolador
Não chora, me ouviu
Que as cores de abril
Não querem saber de dor

Olha quanta beleza
Tudo é pura visão
E a natureza transforma a vida em canção

Sou eu, o poeta, quem diz
Vai e canta, meu irmão
Ser feliz é viver morto de paixão.