O tempo acaba o ano, o mês e a hora - Luís Vaz de Camões

O tempo acaba o ano, o mês e a hora,
A força, a arte, a manha, a fortaleza;
O tempo acaba a fama e a riqueza,
O tempo o mesmo tempo de si chora;

O tempo busca e acaba o onde mora
Qualquer ingratidão, qualquer dureza;
Mas não pode acabar minha tristeza,
Enquanto não quiserdes vós, Senhora.

O tempo o claro dia torna escuro
E o mais ledo prazer em choro triste;
O tempo, a tempestade em grão bonança.

Mas de abrandar o tempo estou seguro
O peito de diamante, onde consiste
A pena e o prazer desta esperança.


Tempo - Artur da Távola

Hoje eu sou poesia,
Pedaço de nuvem
Nas mãos do teu dia.

Eu sou amargura,
Espaço de espanto
Num céu de loucura.

Hoje eu quero ser jardim,
Temporada de espanto
No sorriso de teu sim.

Agora vai ser a vez
Da esperança sem lança,
Da amizade sem força,
Do afago sem sexo,
Do sexo sem falsa noção de esmagar.

Chegou o tempo
De ser
E amar.


Astor Piazzolla - Oblivion

O lago e a rosa - Homero Frei

Só minha voz dentro do lago cresce
Como um caule de raiva. No alto a rosa,
Indiferente às aves diluídas
E ao sonho seco do tumor das ilhas.

No lago a dúvida é uma estrada (ou era?).
E os barcos têm perdido tantos lemes,
Que só retornam quando o vento vela
O cadáver solícito dos rumos.

Ao céu a rosa é fria como um grito
Diariamente antigo. O lago dorme
Longe das horas de sessenta medos.

E enquanto a dor não se transforma em rosa,
Só minha voz das águas mortas crava
Sobre a carne da luz beijos de pedra.




Soneto de Paz - Paulo Mendes Campos

Cismando, o campo em flor, eu vi que a terra
Pode ser outra terra, de outra gente,
Para o prazer armada e competente
E desarmada para a voz da guerra.

No chão, olhando o céu que nos desterra,
Sem terminar falei, presente, ausente,
Ó vento desatado da vertente,
Ó doce laranjal sem fim da serra!

Mais tarde me esqueci, mas esse instante
De muito antiga perfeição campestre
Fez-me constante um pensamento errante:

Era o sem tempo, a paz da eternidade
Unindo a luz celeste à luz terrestre
Sem solução de amor e de unidade.


Haikai - Yeda Prates Bernis

Inúltil. A gaiola
nunca aprisiona
as penas do canto.


Noturno Urbano - Helena Kolody

O cansaço anoitece
nas solidões aglomeradas.

Noite alta,
velam janelas,
semáforos insones.

Nem um trilar de grilo
estremece a teia do tédio.



Meu povo, meu poema - Ferreira Gullar


Meu povo e meu poema crescem juntos
como cresce no fruto
a árvore nova.

No povo meu poema vai nascendo
como no canavial
nasce verde o açúcar.

No povo meu poema está maduro
como o sol
na garganta do futuro.

Meu povo em meu poema
se reflete
como a espiga se funde em terra fértil.

Ao povo seu poema aqui devolvo
menos como quem canta
do que planta.



Dom Quixote - Afonso Estebanez

Tantas paixões meu cavaleiro errante
triste figura andante em mim venceu...
De eterno amor por sua doce amante
bem mais que eternamente padeceu...

Deu expressão ao asno e ao rocinante.
Aos guerreiros do amor deu o apogeu.
Aos moinhos de vento o vago instante
da reinvenção do sonho que morreu...

Revi meu Dom Quixote de La Mancha...
O escudeiro... O cavalo e a augusta lança
contra os dragões do inferno sob o céu...

Quando uma simples chuva de verão
derreteu – qual num passe de ilusão –
a minha Dulcinéia de papel...


Flor - Fernando Py

Quem te ensinou o segredo
e a forma de assim colorir?
Quem te criou o perfume?
Quem te fez sorrir?
(O seio assim despojado
o corpo e a voz sem brilhar
silêncio de todas as cores
domínio da luz sobre o tempo.)
Quem te viveu nos momentos
de desespero e abandono
ao ar, ao sol – teus lamentos?
Quem te sofreu as tragédias
sob mão assassina e lasciva?
Quem te sentiu os instantes
de morte, paz e miséria?

No jarro inútil – prisão colorida,
já não és mais a mesma voz.
O seio murchou e o perfume
desfez-se. Ninguém reparou.
Quem te fará outra vez?



Franz Liszt - Liebestraum

O Poema - Mário Quintana

Um poema 
como um gole d'água bebido no escuro.
Como um pobre animal palpitando ferido.
Como pequenina moeda de prata 
perdida para sempre na floresta noturna.
Um poema sem outra angústia 
que a sua misteriosa condição de poema.
Triste.
Solitário.
Único.
Ferido de mortal beleza. 


Acordai - José Gomes Ferreira


Acordai!

Acordai, homens que dormis
A embalar a dor
Dos silêncios vis!
Vinde, no clamor
Das almas viris,
Arrancar a flor
Que dorme na raiz!

Acordai!
Acordai, raios e tufões
Que dormis no ar
E nas multidões!
Vinde incendiar
De astros e canções
As pedras e o mar,
O mundo e os corações...

Acordai!
Acendei, de almas e de sóis,
Este mar sem cais,
Nem luz de faróis!
E acordai, depois
Das lutas finais,
Os nossos heróis
Que dormem nos covais.

Acordai!


Vou-me embora pra Pasárgada - Manuel Bandeira


Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive


E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar


E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.


Papel molhado - Mario Benedetti


Com rios
com sangue
com chuva
ou sereno
com sêmen
com vinho
com neve
com pranto
os poemas
costumam ser
papel molhado.


Primeira Infância - Adélia Prado

Era rosa, era malva, era leite,
 as amigas de minha mãe vaticinando:
 vai ser muito feliz, vai ser famosa.
 ...Eram rendas, pano branco, estrela dalva,
 benza-te a cruz, no ouvido, na testa.
 Sobre tua boca e teus olhos
 o nome da Trindade te proteja.
 Em ponto marca no vestidinho: navios.
 Todos à vela. A viagem que eu faria
 em roda de mim.


Homenagem a Alexei Sakarov - Hilda Hilst

de cima do palanque

 de cima da alta poltrona estofada
 de cima da rampa
 olhar de cima

 LÍDERES, o povo
 Não é paisagem
 Nem mansa geografia
 Para a voragem
 Do vosso olho.
 POVO, POLVO
 UM DIA.

 O povo não é o rio
 De mínimas águas
 Sempre iguais.
 Mais fundo, mais além
 E por onde navegais
 Uma nova canção
 De um novo mundo.

 E sem sorrir
 Vos digo:
 O povo não é
 Esse pretenso ovo
 Que fingis alisar,
 Essa superfície
 Que jamais castiga
 Vossos dedos furtivos.
 POVO. POLVO.
 LÚCIDA VIGÍLIA.
 UM DIA.


Sonho, vigília, noite, madrugada... Fernanda de Castro


Sonho, vigília, noite, madrugada?
Um a um, desfolhei os sete véus,
e adormecido o corpo, a alma acordada,
um a um, escalei os sete céus.

Sem limites de tempo nem espaço,
quanto tempo durou minha viagem?
Andei mundos sem dor e sem cansaço,
ficou, em meu lugar, a minha imagem.

Agora, de regresso, cumpro a pena.
Tudo esqueci dessa abismal distância
mas algo é diferente: volto à arena
com uma nova inocência, um gosto a infância.

Serena, com uma paz desconhecida,
aceito, sem revolta, a humana sorte:
viver, da Vida, esta pequena vida,
morrer, da Morte, esta pequena morte.



HAIKAI - Jandira Mingarelli


dia de sol –
até o canto do passarinho
tem cor




Esperança - Pablo Neruda


Saúdo-te, esperança, tu que vens de longe,
inundas com teu canto os tristes corações,
tu que dás novas asas aos sonhos mais antigos,
tu que nos enches a alma de brancas ilusões.

Saúdo-te, Esperança. Tu forjarás os sonhos
naquelas solitárias desenganadas vidas,
carentes do possível de um futuro risonho,
naquelas que inda sangram as recentes feridas.

Ao teu sopro divino fugirão as dores
como tímido bando de ninho despojado,
e uma aurora radiante, com suas belas cores,
anunciará às almas que o amor é chegado.
  

À manhã - William Blake

Ó sagrada virgem, de alvura adornada.
Abre os dourados umbrais do céu e sai,
Desperta a aurora inebriada no azul,
deixa a luz emergir de sua morada no leste
e esparge o suave orvalho que vem com o novo dia.
Ó luminosa manhã, saúda o sol
que qual um caçador cedo se levanta
e se alça sobre nossas colinas.
Escuta o beija-flor, que a canção da primavera entoa
e a suave cotovia, no terno ramo pousada
que na aurora sibilante surge sobre os ondulantes trigais
regendo os refulgentes corais do sol,
trina, trina, trina,
deslizando nas asas da luz,
Escoando através do azul imenso
da concha celestial.


Mar e céu - Roseana Murray




Mar e céu
oscilam.
As velas brancas do barco
são quase nuvens
pousadas na água,
são quase aves,
e no fundo azul do mar
uma sereia arruma estrelas,
e no fundo azul do céu
um poeta arruma estrelas
enquanto o barco desliza.


Saudação - Ezra Pound

 Oh geração dos afetados consumados
 e consumadamente deslocados,
 Tenho visto pescadores em piqueniques ao sol,
 Tenho-os visto, com suas famílias mal-amanhadas,
 Tenho visto seus sorrisos transbordantes de dentes
 e escutado seus risos desengraçados.
 E eu sou mais feliz que vós,
 E eles eram mais felizes do que eu;
 E os peixes nadam no lago
 e não possuem nem o que vestir.



EROS E PSICHE - Fernando Pessoa


Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.
Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.
A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.
Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.


Mas cada um cumpre o Destino
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.
E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora,
E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.


Tripulantes do veleiro - Adalgisa Nery

O veleiro é o mesmo,
O horizonte é outro, mais infinito,
E o oceano se repete na variação
Entre a fúria e a placidez.
O azul do céu é manto de perfeição
Cobrindo tudo que existe.

O veleiro voltará um dia
Abrindo o mesmo horizonte,
Flutuando sobre a mesma ansiedade do oceano,
Cortando o mesmo azul da perfeição,
Carregando as terríveis vigílias
Dos mesmos cansados tripulantes,
Vítimas da mesma paisagem de monótona repetição.



Lição de casa - Flora Figueiredo

Você tampa a panela,
 dobra o avental,
 deixa a lágrima secar no arame do varal.
 Fecha a agenda,
 adia o problema,
 atrasa a encomenda,
 guarda insucessos no fundo da gaveta.
 A ideia é tirar a tarja preta
 e pôr o dedo onde se tem medo.
 Você vai perceber
 que a gente é que faz o monstro crescer.
 Em seguida superar o obstáculo,
 pois pode-se estar perdendo
 um espetáculo acontecendo do outro lado.
 Atravessar o escuro
 até conseguir tatear o muro,
 que é o limite da claridade.
 Se tiver capacidade para conquistá-la,
 tente retê-la o mais que puder.
 Há que ter habilidade, sem esquecer
 que a luz é mulher.
 Do inferno assim desmascarado,
 é hora de voltar.
 Não importa se é caminho complicado,
 se a curva é reta,
 ou se a reta entorta.
 Você buscou seu brilho, voltou completa;
 jogou a tranca fora, abriu a porta. 



Os barcos - Thiago de Mello

Os barcos nascem como nascem dores.
E chegam como pássaros ao céu,
como flores do chão. São mensageiros.
Vêm na crista dos astros, vêm de ventres
por onde rolam rastros de cantigas
de antigas barcarolas estaleiras.
Trazem na proa audácias e esperanças,
as cismas e os assombros nos porões.

A mão que os faz, humana, os não perfaz,
apenas segue, tímida, ao comando
de vozes nascituras que lhe chegam
da boca dos martelos e das ripas.
A si mesmos se fazem, pelo mando
de voz sem boca: os barcos são auroras.
Despejam-se na foz de águas escuras.
Contudo, chegam sempre de manhã.

Chegam antes, alguns. Outros são póstumos.
Há os que não chegam nunca: naufragaram
nas primícias do rio. Tantos mastros
se vergam na chegada, outros se racham.
Partem-se popas, lemes, em pelejas
imaginárias contra calmarias.
Uns são velozes, zarpam mal-chegados,
outros são lerdos, de hélices sem sonhos.

Há barcaças nascidas para as idas
ao oco dos mistérios, há as que trazem
lendas futuras presas ao convés,
as que guardam nos remos os roteiros
de grandes descobertas e as que vêm
para vingar galeras soçobradas.
Há as que já chegam velhas, sem navego.

O mar, sempre desperto, espreita e espera
a todos, e de todos se acrescenta.
Para barcos se fez o mar amargo
e fundo, sobretudo se fez verde.
O mar nem sempre os quer. O mar se tranca
frequentemente a barcos, e os roteiros
marítimos se encantam em lajedos,
estraçalhando quilhas e calados.

O coração das caravelas viaja
desfraldado nos mastros, invisível
bandeira também bússola. Altaneiro,
ele surpreende, quando manso, as rotas
que se desenham longes sobre o mar.
Sextante é o coração, que escuta estrelas,
que antes de erguer as âncoras demora-se
em concílio amoroso com os ventos.

O coração comanda. Manda e segue.
E, à sua voz, os barcos obedecem
e avançam, confiantes, pois dos mastros
as velas vão surgindo, vão crescendo
como cresce uma folha de palmeira,
às manobras da brisa sempre dóceis.
De caminhos de barcos sabe o mar.
Os ventos é que sabem dos destinos.






Jon and Vangelis - Love Is

O Direito ao Delírio - Eduardo Galeano

Que tal começarmos a exercer
O direito de sonhar?
Que tal se delirarmos um pouquinho?

No próximo milênio, o ar estará limpo
de todo veneno
O televisor deixará de ser
o membro mais importante da família
As pessoas trabalharão para viver,
em vez de viver para trabalhar.

Os economistas não chamarão
nível de vida o nível de consumo,
nem chamarão qualidade de vida
a quantidade de coisas.

Ninguém será considerado herói
ou tolo só porque faz aquilo que
acredita ser justo, em vez de fazer
aquilo que mais lhe convém.

A comida não será uma mercadoria,
nem a comunicação um negócio,
porque comida e comunicação
são direitos humanos.

A educação não será um privilégio
apenas de quem possa pagá-la.
A polícia não será a maldição daqueles
que não podem comprá-la.

A justiça e a liberdade,
irmãs siamesas
condenadas a viverem separadas,
voltarão a juntar-se, bem unidas
ombro com ombro.

E os desertos do mundo e os desertos
da alma serão reflorestados.


pelo fogo da fala - Vera Lúcia de Oliveira

pelo fogo das palavras
pela sarça ardente das palavras
pisando por rugas de telhas
enquanto o coração crescia

pelo fogo da fala
pelo pavio secreto da língua
pela fagulha ardente
crescia meu coração
como crescem as folhas
que o vento arrasta no ardor da combustão


Canção do dia que se vai - Federico Garcia Lorca

Que trabalho me custa
deixar-te ir, ó dia!
Vais-te cheio de mim,
voltas sem conhecer-me.

Que trabalho me custa
deixar sobre teu peito
possíveis realidades
de impossíveis minutos!

Pela tarde um Perseu
te lima as cadeias,
e foges sobre os montes
ferindo-te os pés.
Não podem seduzir-te
minha carne ou meu pranto,
nem os rios em que
a sesta de ouro dormes.

De Leste para Oeste
levo-te a luz redonda.
Teu fulgor que sustem
minha alma em tensão fina.
De Leste para Oeste,
que trabalho me custa
levar-te com teus pássaros
e teus braços de vento!


Nascer do dia - John Donne

Fica, doçura, não te levantes;
A luz que brilha vem dos teus olhos neste instante;
Não é o dia que se levanta, meu coração é que se parte,
Porque devemos tu e eu nos separar com pressa.
Fica, senão minhas alegrias perecem,
e mal nasce, já se extinguem.




HAIKAI - Alice Ruiz

rede ao vento
se torce de saudade
sem você dentro



Lágrima - Eugénio de Andrade

Dos olhos me cais,
redonda formosura.
Quase fruto ou lua,
cais desamparada.
Regressas à água
mais pura do dia,
obscuro alimento
de altas açucenas.
Breve arquitectura
da melancolia.
Lágrima, apenas.


Jardin - Verónica Volkow

Hay en mi jardín rosas que deshojan
un corazón abierto al descampado.
Así es la flor,
su desnudez es magia.
Le pido a la rosa me guarde,
en la fragilidad, secretos dones
y a la espina me otorgue la humildad
y sus manos precisas.

Pido un techo que no tape, que recuerde
al cielo
y una ciudad que es nueva siempre
porque no agota sus caminos,
y le pido al río su fluir,
su muerte en el instante
que también es vuelo.


A criança que ri na rua - Fernando Pessoa,

A criança que ri na rua,
A música que vem no acaso,
A tela absurda, a estátua nua,
A bondade que não tem prazo —

Tudo isso excede este rigor
Que o raciocínio dá a tudo,
E tem qualquer coisa de amor,
Ainda que o amor seja mudo.


Tempo - Manoel de Barros

Eu não amava que botassem data na minha existência.
A gente usava mais era encher o tempo.
Nossa data maior era o quando.
O quando mandava em nós.
A gente era o que quisesse ser só usando esse advérbio.
Assim, por exemplo: tem hora que eu sou quando uma árvore
e podia apreciar melhor os passarinhos.
Ou tem hora que eu sou quando uma pedra.
E sendo uma pedra eu posso conviver com os lagartos e os musgos.
Assim: tem hora eu sou quando um rio.
E as garças me beijam e me abençoam.
Essa era uma teoria que a gente inventava nas tardes.
Hoje eu estou quando infante.
Eu resolvi voltar quando infante por um gosto de voltar.
Como quem aprecia de ir às origens de uma coisa ou de um ser.
Então agora eu estou quando infante.
Agora nossos irmãos, nosso pai, nossa mãe e todos
moramos no rancho de palha perto de uma aguada.
O rancho não tinha frente nem fundo.
O mato chegava perto, quase roçava nas palhas.
A mãe cozinhava, lavava e costurava para nós.


Não faz mal - Eduardo White

Voar é uma dádiva da poesia.
Um verso arde na brancura aérea do papel,
toma balanço,
não resiste.

Solta-se-lhe
o animal alado.
Voa sobre as casas,
sobre as ruas,
sobre os homens que passam,
procura um pássaro
para acasalar.

Sílaba a sílaba
o verso voa.

E se o procurarmos?
Que não se desespere, pois nunca o iremos encontrar.
Algum sentimento o terá deixado pousar, partido com ele.
Estará o verso connosco?
Provavelmente apenas a parte que nos coube.
Aquietemo-nos.
Amainemo-nos esse desejo de o prendermos.

Não é justo um pássaro
onde ele não pode voar.



HAIKAI - Teruko Oda

Um quê de inquietude
no balé das borboletas —
Tarde de outono.