N.Y. - Ezra Pound
Minha cidade, minha amada,
minha branca!
Ah, esbelta,
Ouça! Ouça-me, vou soprar uma
alma dentro de ti.
Delicadamente pela flauta,
atenta-me!
Agora sei que sou louco,
Porque há aqui um milhão de
pessoas na fúria do tráfego;
Isso não é donzela.
Nem eu poderia tocar uma
flauta se a tivesse.
Minha cidade, minha amada,
És uma donzela sem seios,
És esbelta como uma flauta de
prata.
Ouça, atente-me!
E eu soprarei uma alma dentro
de ti,
E viverás para sempre.
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Um sonho - Edgar Allan Poe
Em visões da noite escura
Tenho sonhado da alegria
afastado--
Mas um sonho acordado de vida
e luz
Tem me deixado de coração
partido.
Ah! O que não é um sonhar
acordado
Para ele cujos olhos estão
presos
Em coisas ao redor dele com
um raio
Retornado para o passado?
Aquele sagrado sonho--aquele
sagrado sonho,
Enquanto o mundo inteiro dele
ria,
Me alegrou como um adorável
raio de luz
Para um espírito solitário
era um guia.
O que então se aquela luz,
através de tempestade e treva,
Tremulasse tanto à
distância--
O que poderia ser mais
puramente brilhante
Que a Verdade a brilhar de
dia?
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Edgar Allan Poe
As Coleções - Henriqueta Lisboa
Em primeiro lugar as
magnólias.
Com seus cálices
e corolas: aquarelas
de todas as tonalidades e
suma
delicadeza do toque.
Pequena aurora diluída
com doçura, nos tanques.
Depois a música: frêmito
e susto de pássaro.
As valsas – que sorrateiras.
E as flautas.
As noites com flauta sob a
janela
inaugurando a lua nascida
para o suspirado amor.
Mais tarde os campos, as
grutas,
a maravilha. E o caos.
Com seus favos e suas hidras,
o mundo. O mar com seus
apelos,
horizontes para o éter,
desespero em mergulho.
Com o tempo, o ocaso. As
lentas
plumas, os reposteiros
com seus moucos ouvidos,
a tíbia madeira para
o resguardo das cinzas,
as entabulações – e com que
recuos –
da paz.
Finalmente os endurecidos
espelhos,
os cristais sob o quebra-luz,
dos ângulos o verniz,
o ouro com parcimônia, a
prata,
o marfim com seus esqueletos.
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Henriqueta Lisboa
Desenhos do sonho - Cecília Meireles

Eu, mulher dormente,
na líquida noite
alargo a ramagem de meus cabelos verdes.
Sigo dentro desse cristal ondulante,
contida como o som dos sinos imóveis.
Surda é a transparência do mundo que ocupo,
onde vago, em vigilância do eterno,
livre do efêmero visível e tranqüila,
e embora incomunicável,
em solidão feliz.

Eu, mulher dormente, de olhos fechados
estou vendo essas paredes fluidas que caminham comigo mesma,
na cristalina arquitetura:
muralha de sucessivos patamares à luz de nenhum sol.
Espelhos de quartzo verde
em que me reconheço admirada, de olhos abertos desde sempre,
para sempre,
desenhando-me involuntária,
buscando-me exata,
fugindo-me nesta caligrafia que não alcanço.
Ah! dos meus verdes cabelos
sobem agora ramos de rosas,
alta coroa de retrato submerso,
frágil e melancólica,
e já me esqueço do que vou sonhando.
E nem suspiro
se as flores se desfolharem nesse planeta de silêncio.
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Cecília Meireles
A folha do choupo - Yorgos Seferis
Tremia tanto que o vento a levou
tremia tanto como não a levaria o vento
lá longe
um mar
lá longe
uma ilha ao sol
e as mãos apertando os remos
morrendo no momento em que o porto apareceu
e os olhos fechados
em anémonas do mar.
Tremia tanto tanto
procurei-a tanto tanto
na cisterna com os eucaliptos
na primavera e no verão
em todas as nuas florestas
meu Deus procurei-a.
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Yorgos Seferis
Mar deprimido - Luís Augusto Cassas
mar de São Luis,
constrangido,
que banhas as costas do
Atlântico
e as costas e seios das
pacíficas,
quem te roubou o azul do
paraíso:
os vendedores de cloro das
piscinas
ou o céu desbotado do olhar
das meninas?
mar de São Luis, humilhado,
saqueado por metralhas e
conquistadores
em navios que vazam óleo
desde o início,
quem roubou o azul do teu
sorriso:
os poetas que te deixaram
abandonado
ou os petroleiros que te
sujaram o vestido?
mar de São Luis, sucateado,
sobra de outros mares, poluído.
o cinzento de tuas águas
é tua bandeira de mágoas?
o cinzento de tuas mágoas
é o teu vestido e anágua?
choras por Antônio: o de
Cleópatra?
choras por outro: o de Ana
Amélia.
mar de São Luís, enrubescido,
derramas lágrimas de
crocodilo,
deságuas sujas águas em
praias e portos.
enches os tonéis, os lenços,
os esgotos.
mar de São Luis, emaranhado
em maranhas de mar
amargurados,
quem sequestrou o teu
azul-coral
deixou-te em troca o excesso
de sal.
entanto, o verde que antevejo
nessa manhã,
só o vislumbro detrás de
óculos rayban.
a não ser que eu ponha cloro,
nas lágrimas que, em ti,
choro.
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Luís Augusto Cassas
A estrada não trilhada - Robert Frost
Num bosque, em pleno outono,
a estrada bifurcou-se,
mas, sendo um só, só um caminho eu tomaria.
Assim, por longo tempo eu ali me detive,
e um deles observei até um longe declive
no qual, dobrando, desaparecia…
Porém tomei o outro,
igualmente viável,
e tendo mesmo um atrativo especial,
pois mais ramos possuía e talvez mais capim,
embora, quanto a isso, o caminhar, no fim,
os tivesse marcado por igual.
E ambos, nessa manhã, jaziam
recobertos
de folhas que nenhum pisar enegrecera.
O primeiro deixei, oh, para um outro dia!
E, intuindo que um caminho outro caminho gera,
duvidei se algum dia eu voltaria.
Isto eu hei de contar mais
tarde, num suspiro,
nalgum tempo ou lugar desta jornada extensa:
a estrada divergiu naquele bosque – e eu
segui pela que mais ínvia me pareceu,
e foi o que fez toda a diferença.
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Robert Frost
Madrugada - Ferreira Gullar

Do fundo de meu quarto, do fundo
de meu corpo
clandestino
ouço (não vejo) ouço
crescer no osso e no músculo da noite
a noite
a noite ocidental obscenamente acesa
sobre meu país dividido em classes.
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Ferreira Gullar
Inventei - Sophia de Mello B. Andresen
Inventei a dança
para me disfarçar.
Ébria de solidão
Eu quis viver.
E cobri de gestos
a nudez da minha alma
Porque eu era semelhante
às paisagens esperando
E ninguém me podia entender.
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Sophia de Mello B. Andresen
Quaresmeiras - Alexandre Bonafim
da memória
desenhado a giz
um menino teima
em brincar
com as sombras
do silêncio.
Quaresmeiras
latejantes de cor
também insistem
em fincar raízes
no que se perdeu.
ao adentrares a brancura
dessa página
folhas e húmus
hão de enredar
o teu nome
o teu passado.
A brancura desse poema
há de mergulhar
a tua voz
nas origens
de todo
esquecimento.
Por entre os muros
da palavra
uma criança teima
em desenhar
na existência
um rosto de chuva
para sempre iluminado.
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Alexandre Bonafim
Prece Irlandesa
O vento sopre leve em teus
ombros.
Que o sol brilhe cálido sobre
tua face,
As chuvas caiam serenas em
teus campos.
E até que eu de novo te veja,
que a Pureza te guarde na
palma de Sua mão.
Que a estrada abra à tua
frente,
que o vento sopre levemente
em tuas costas,
que o sol brilhe morno e
suave em tua face,
que a chuva caia de mansinho
em teus campos.
E até que nos encontremos de
novo...
Que a Pureza te guarde na
palma de Sua mão.
Que as gotas da chuva molhem
suavemente o teu rosto,
que o vento suave refresque
teu espírito,
que o sol ilumine teu
coração,
que as tarefas do dia não
sejam um peso nos teus ombros,
e que a Pureza te envolva num
manto de amor.
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Trouxe o sol à poesia - João Cabral de Melo Neto
Trouxe o sol à poesia
mas como trazê-lo ao dia?
No papel mineral
qualquer geometria
fecunda a pura flora
que o pensamento cria.
Ora, no rosto que, grave
riso súbito abria,
no andar decidido
que os longes media,
na calma segurança
de quem tudo sabia,
no contacto das coisas
que apenas coisas via,
nova espécie de sol
eu, sem contar, descobria:
não a claridade imóvel
da praia ao meio-dia,
de aérea arquitetura
ou de pura poesia:
mas o oculto calor
que as coisas todas cria.
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João Cabral de Melo Neto
Canto XVII - Hilda Hilst
O poeta se fez
Água de fonte
Infância
Circunsoante
Madeira leve
Límpida caravela
E Túlio não quis.
O poeta se fez
Aroma
Voz inflamante
Vestido
Metalescente
Insânia
E Túlio não quis.
O poeta se cobre
De visgo, de vergonha
Enterra seu bandolim
Artimanha do sonho
Tem o corpo de luto
E o rosto de giz
Porque Túlio não ama.
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Hilda Hilst
As Coisas Transitórias - Rabindranath Tagore
Irmão,
nada é eterno, nada
sobrevive.
Recorda isto, e alegra-te.
A nossa vida
não é só a carga dos anos.
A nossa vereda
não é só o caminho
interminável.
Nenhum poeta tem o dever
de cantar a antiga canção.
A flor murcha e morre;
mas aquele que a leva
não deve chorá-la sempre...
Irmão, recorda isto, e
alegra-te.
Chegará um silêncio absoluto,
e, então, a música será
perfeita.
A vida inclinar-se-á ao
poente
para afogar-se em sombras
doiradas.
O amor há-de ser chamado do
seu jogo
para beber o sofrimento
e subir ao céu das lágrimas
...
Irmão, recorda isto, e
alegra-te.
Apanhemos, no ar, as nossas
flores,
não no-las arrebate o vento
que passa.
Arde-nos o sangue e brilham
nossos olhos
roubando beijos que
murchariam
se os esquecêssemos.
É ânsia a nossa vida
e força o nosso desejo,
porque o tempo toca a
finados.
Irmão, recorda isto, e
alegra-te.
Não podemos, num momento,
abraçar as coisas,
parti-las e atirá-las ao
chão.
Passam rápidas as horas,
com os sonhos debaixo do
manto.
A vida, infindável para o
trabalho
e para o fastio,
dá-nos apenas um dia para o amor.
Irmão, recorda isto, e
alegra-te.
Sabe-nos bem a beleza
porque a sua dança volúvel
é o ritmo das nossas vidas.
Gostamos da sabedoria
porque não temos sempre de a
acabar.
No eterno tudo está feito e
concluído,
mas as flores da ilusão
terrena
são eternamente frescas,
por causa da morte.
Irmão, recorda isto, e
alegra-te.
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Rabindranath Tagore
Sonetinho a Portinari - Vinícius de Moraes
O pintor pequeno
O grande pintor
Ruim como um veneno
Bom como uma
flor
Vi-o da Inglaterra
Uma tarde, vi-o
No ermo, vadio
Brodósqui
onde a terra
É cor de pintura
Muito louro, vi-o
Dentro da
moldura
De um quadro de aurora
O olhar azul frio:
- Lá ia ele
embora...
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Vinícius de Moraes
A Camões - Manuel Bandeira
Quando n'alma pesar de tua raça
A névoa da apagada e vil tristeza,
Busque ela sempre a glória que não passa,
Em teu poema de heroísmo e de beleza.
Gênio purificado na desgraça,
Tu resumiste em ti toda a grandeza:
Poeta e soldado... Em ti brilhou sem jaça
O amor da grande pátria portuguesa.
E enquanto o fero canto ecoar na mente
Da estirpe que em perigos sublimados
Plantou a cruz em cada continente,
Não morrerá sem poetas nem soldados
A língua em que cantaste rudemente
As armas e os barões assinalados.
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Manuel Bandeira
Trem de carga - Helena Kolody

Longa serpente,
de olhos acesos,
coleava dentro da noite,
bufando fumaça,
cuspindo fagulhas.
Muita carga, pouca força!
Muita carga, pouca força!
Resfolegava a locomotiva.
Vagões oscilavam de leve,
no embalo das rodas nos trilhos.
Parava o trem
nas estaçõezinhas sonolentas.
Besouros e mariposas
dançavam na luz dos lampiões.

A locomotiva saciava a sede
na mangueira.
Chiava o vapor nos freios.
Um silvo longo
soluçava no silêncio da noite.
Lento,
o trem de carga punha-se em movimento.
As rodas tocavam batucadas nos trilhos,
pois a alegria das rodas é viajar.
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Helena Kolody
Sinastria - Elizabeth F. de Oliveira
Somos compatíveis
na sinastria da solidão,
carregamos no peito
o mesmo crepúsculo
circunscrito de silêncio e
desilusão.
E, na contradança do destino,
as sincronicidades se
transformam
em desatino, fazendo do
desencanto
nosso melhor ponto de
convergência,
de eloquência da harmonia;
para que, quem sabe, juntos
e com paciência,
possamos, do peito,
desocultar a alvorada
e fazer dessa vida inabitada
um encontro inesperado
de poesia.
www.elizabethfdeoliveira.blogspot.com
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Elizabeth F. de Oliveira
Nostalgia - Hélio Pellegrino
As palavras borbotam
do oco do ser
Onde o pleno
silêncio dos prados?
A insciente dos deuses,
pastagens dos deuses,
onde decorre o gado?
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Hélio Pellegrino
Harmonia da tarde - Charles Baudelaire
Chegado é o tempo em que,
vibrando o caule virgem,
Cada flor se evapora igual a
um incensório;
Sons e perfumes pulsam no ar
quase incorpóreo;
Melancólica valsa e lânguida
vertigem!
Cada flor se evapora igual a
um incensório;
Fremem violinos como fibras
que se afligem;
Melancólica valsa lânguida
vertigem!
É triste e belo o céu como um
grande oratório.
Freme violinos como fibras
que se afligem,
Almas ternas que odeiam o
nada vasto e inglório!
É triste e belo o céu como um
grande oratório;
O sol se afoga em ondas que
de sangue o tingem.
Almas ternas que odeiam o
nada vasto e inglório
Recolhem do passado as
ilusões que o fingem!
O sol se afoga em ondas que
de sangue o tingem...
Fulge a tua lembrança em mim
qual ostensório!
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Charles Baudelaire
Asas - Inez Andrade Paes
pousada no negro azul brilhante das asas
quero ir também
partiste com elas sem dizer
volta
na próxima primavera que te quero
olhar no dorso dela
já ambas
vestidas de África
volta
traz-me agora as nuvens
mesmo as que trazem água
se não conseguir voar
receberei no rosto essa água
marinha
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Inez Andrade Paes
Silêncio Amoroso - Affonso Romano de Sant’Anna
Preciso do teu silêncio
cúmplice sobre minhas
falhas.
Não fale.
Um sopro, a menor
vogal pode me desamparar.
E se eu abrir a boca
minha alma vai rachar.
O silêncio, aprendo,
pode construir.
É um modo denso/tenso
- de coexistir.
Calar, às vezes, é
fina forma de amar.
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Affonso Romano de Sant’Anna
Manhã - Mia Couto
Estou
e num breve instante
sinto tudo
sinto-me tudo
Deito-me no meu corpo
e despeço-me de mim
para me encontrar
no próximo olhar
Ausento-me da morte
não quero nada
eu sou tudo
respiro-me até à exaustão
Nada me alimenta
porque sou feito de todas as coisas
e adormeço onde tombam a luz e a poeira
A vida (ensinaram-me assim)
deve ser bebida
quando os lábios estiverem já mortos
Educadamente mortos
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Perfil - Graça Pires
como a véspera
imprecisa
do poema,
principia em mim
a planície agreste
da solidão dos
outros.
E a não ser
o silêncio poente
dos meus olhos,
tudo o resto me diz
que sou um pássaro
a voar,
inconsequentemente,
no sentido das
palavras.
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Graça Pires
Dona Doida - Adélia Prado

Uma vez, quando eu era menina,
choveu grosso, com trovoada e clarões,
exatamente como chove agora.
Quando se pôde abrir as janelas,
as poças tremiam com os últimos pingos.
Minha mãe, como quem sabe que vai escrever um poema,
decidiu inspirada: chuchu novinho, angu, molho de ovos.
Fui buscar os chuchus e estou voltando agora,
trinta anos depois. Não encontrei minha mãe.
A mulher que me abriu a porta, riu de dona tão velha,
com sombrinha infantil e coxas à mostra.
Meus filhos me repudiaram envergonhados,
meu marido ficou triste até a morte,
eu fiquei doida no encalço.
Só melhoro quando chove.
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Adélia Prado
Árvore verde - Fernando Pessoa
Meu pensamento
Em ti se perde.
Ver é dormir
Neste momento.
Que bom não ser
'Stando acordado!
Também em mim enverdecer
Em folhas dado!
Tremulamente
Sentir no corpo
Brisa na alma!
Não ser quem sente,
Mas tem a calma.
Eu tinha um sonho
Que me encantava.
Se a manhã vinha,
Como eu a odiava!
Volvia a noite,
E o sonho a mim.
Era o meu lar,
Minha alma afim.
Depois perdi-o.
Lembro? Quem dera!
Se eu nunca soube
O que ele era.
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As bênçãos - Manoel de Barros
Não tenho a anatomia de uma
garça pra receber
em mim os perfumes do azul.
Mas eu recebo.
É uma bênção.
Às vezes se tenho uma
tristeza,
as andorinhas me namoram mais de perto.
Fico enamorado.
É uma bênção.
Logo dou aos caracóis
ornamentos de ouro
para que se tornem peregrinos
do chão.
Eles se tornam.
É uma bênção.
Até alguém já chegou de me
ver passar
a mão nos cabelos de Deus!
Eu só queria agradecer.
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Manoel de Barros
Compasso de calmaria - Lêdo Ivo
Já não falo de amor aos céus
de pedra
nem firo as águas com os
remos sujos.
Aprendi a viver.
O pulso de meus dias canta em
mim
e a poesia é o espelho do
espírito.
Contemplei-me, afinal.
Das altas persianas vejo o
sol
ao compasso dos bosques
inativos.
Paisagens são relâmpagos.
Agora, até os anjos
compreendem
minha necessidade de estar
só.
Sou incomunicável.
Porém esta conquista não é
dádiva.
Lutei, buscando a ilha onde
pudesse
enterrar meu tesouro.
Assim estou, mais pobre do
que nunca.
Tudo o que fulgurava está
oculto
e jamais volverá.
Vertigem de não ser meu
próprio hóspede
nem ter memória em seu
firmamento,
aqui estou, sozinho.
Nem pecados, nem gestos, nem
trombetas
exploram minha lenda. Estou à
espera
deste reino que é a morte.
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Lêdo Ivo
Composição - Carlos Drummond de Andrade
E é sempre a chuva
nos desertos sem
guarda-chuva,
algo que escorre, peixe
dúbio,
e a cicatriz, percebe-se, no
muro nu.
E são dissolvidos fragmentos
de estuque
e o pó das demolições de tudo
que atravanca o disforme país
futuro.
Débil, nas ramas, o socorro
do imbu.
Pinga, no desarvorado campo
nu.
Onde vivemos é água. O sono,
úmido,
em urnas desoladas. Já se
entornam,
fungidas, na corrente, as
coisas caras
que eram pura delícia, hoje
carvão.
O mais é barro, sem esperança
de escultura.
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Carlos Drummond de Andrade
Culpa do Vento - Glória de Sant'Anna
o vento é brisa
e corre leve
pelo rendado
das casuarinas
corre de manso
pelo verde liso
-asa de cântico
de um outro mar
e pela folhagem
e entre as aves
mergulham peixes
de oiro e cristal
(culpa do vento
a segredar
vozes de espuma
e sons do mar)
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Glória de Sant'Anna
Azul dos Pássaros - Vieira Calado
Sonhamos voar
azul dos pássaros –
uma grinalda
branca para enfeitar um rosto de mulher,
um cavalo de
sangue lusitano no coração dum réptil.
De tempos a
tempos desenterramos um diamante
dentro duma
ostra
(que nunca
nos pertence),
mas
resistimos
porque as
águas caiem escorrendo sobre a fronte
porque a
cidade se estende no interior
das árvores
porque as
árvores se justificam na solidão dos ares.
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Vieira Calado
O carroção de feno - Dora Ferreira da Silva
Nenhuma estrela no céu
e poucas árvores na terra
esquecida a doce língua
materna
(quem se lembra em mim?)
Taciturnos pensadores de
queixo alteado
olham a ceifa do mundo
com advertências tardias e letras
vencidas
dos senhores do dia.
Prosperam ratos. E a alegria?
Raptada ou foragida foi
levada ou foi-se
por sonho
ou enfado.
Passa um carroção puxado a
cavalos:
ontem? hoje? amanhã? quando?
O Poder passa decrépito
escarrando
os últimos decretos
à rosa do amanhã.
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Dora Ferreira da Silva
Começo de Biografia - Murilo Mendes
Eu sou o pássaro diurno e
noturno,
O pássaro misto de carne e
lenda,
Encarregado de levar o
alimento da poesia e da música
Aos habitantes da estrada do
arranha-céu e da nuvem.
Eu sou o pássaro feito homem
, que vive no meio de vós.
Eu vos forneço o alimento da
catástrofe e o ritmo puro.
Trago comigo a semente de
Deus... e a visão do dilúvio.
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