Frank Sinatra - New York, New York

N.Y. - Ezra Pound

Minha cidade, minha amada, minha branca!
Ah, esbelta,
Ouça! Ouça-me, vou soprar uma alma dentro de ti.
Delicadamente pela flauta, atenta-me!

Agora sei que sou louco,
Porque há aqui um milhão de pessoas na fúria do tráfego;
Isso não é donzela.
Nem eu poderia tocar uma flauta se a tivesse.

Minha cidade, minha amada,
És uma donzela sem seios,
És esbelta como uma flauta de prata.
Ouça, atente-me!
E eu soprarei uma alma dentro de ti,
E viverás para sempre.


Um sonho - Edgar Allan Poe

Em visões da noite escura
Tenho sonhado da alegria afastado--
Mas um sonho acordado de vida e luz
Tem me deixado de coração partido.

Ah! O que não é um sonhar acordado
Para ele cujos olhos estão presos
Em coisas ao redor dele com um raio
Retornado para o passado?

Aquele sagrado sonho--aquele sagrado sonho,
Enquanto o mundo inteiro dele ria,
Me alegrou como um adorável raio de luz
Para um espírito solitário era um guia.

O que então se aquela luz, através de tempestade e treva,
Tremulasse tanto à distância--
O que poderia ser mais puramente brilhante
Que a Verdade a brilhar de dia?


Pat Metheny and Toots Thielemans - Always And Forever

As Coleções - Henriqueta Lisboa

Em primeiro lugar as magnólias.
Com seus cálices
e corolas: aquarelas
de todas as tonalidades e suma
delicadeza do toque.
Pequena aurora diluída
com doçura, nos tanques.

Depois a música: frêmito
e susto de pássaro.
As valsas – que sorrateiras. E as flautas.
As noites com flauta sob a janela
inaugurando a lua nascida
para o suspirado amor.

Mais tarde os campos, as grutas,
a maravilha. E o caos.
Com seus favos e suas hidras,
o mundo. O mar com seus apelos,
horizontes para o éter,
desespero em mergulho.

Com o tempo, o ocaso. As lentas
plumas, os reposteiros
com seus moucos ouvidos,
a tíbia madeira para
o resguardo das cinzas,
as entabulações – e com que recuos –
da paz.

Finalmente os endurecidos espelhos,
os cristais sob o quebra-luz,
dos ângulos o verniz,
o ouro com parcimônia, a prata,
o marfim com seus esqueletos.


Desenhos do sonho - Cecília Meireles


Eu, mulher dormente,
na líquida noite
alargo a ramagem de meus cabelos verdes.
Sigo dentro desse cristal ondulante,
contida como o som dos sinos imóveis.
Surda é a transparência do mundo que ocupo,
onde vago, em vigilância do eterno,
livre do efêmero visível e tranqüila,
e embora incomunicável,
em solidão feliz.


Eu, mulher dormente, de olhos fechados
estou vendo essas paredes fluidas que caminham comigo mesma,
na cristalina arquitetura:
muralha de sucessivos patamares à luz de nenhum sol.
Espelhos de quartzo verde
em que me reconheço admirada, de olhos abertos desde sempre,
para sempre,
desenhando-me involuntária,
buscando-me exata,
fugindo-me nesta caligrafia que não alcanço.
Ah! dos meus verdes cabelos
sobem agora ramos de rosas,
alta coroa de retrato submerso,
frágil e melancólica,
e já me esqueço do que vou sonhando.
E nem suspiro
se as flores se desfolharem nesse planeta de silêncio.



A folha do choupo - Yorgos Seferis

Tremia tanto que o vento a levou
tremia tanto como não a levaria o vento
lá longe
um mar
lá longe
uma ilha ao sol
e as mãos apertando os remos
morrendo no momento em que o porto apareceu
e os olhos fechados
em anémonas do mar.

Tremia tanto tanto
procurei-a tanto tanto
na cisterna com os eucaliptos
na primavera e no verão
em todas as nuas florestas
meu Deus procurei-a.


Mar deprimido - Luís Augusto Cassas

mar de São Luis, constrangido,
que banhas as costas do Atlântico
e as costas e seios das pacíficas,
quem te roubou o azul do paraíso:
os vendedores de cloro das piscinas
ou o céu desbotado do olhar das meninas?

mar de São Luis, humilhado,
saqueado por metralhas e conquistadores
em navios que vazam óleo desde o início,
quem roubou o azul do teu sorriso:
os poetas que te deixaram abandonado
ou os petroleiros que te sujaram o vestido?

mar de São Luis, sucateado,
sobra de outros mares, poluído.
o cinzento de tuas águas
é tua bandeira de mágoas?
o cinzento de tuas mágoas
é o teu vestido e anágua?

choras por Antônio: o de Cleópatra?
choras por outro: o de Ana Amélia.
mar de São Luís, enrubescido,
derramas lágrimas de crocodilo,
deságuas sujas águas em praias e portos.
enches os tonéis, os lenços, os esgotos.

mar de São Luis, emaranhado
em maranhas de mar amargurados,
quem sequestrou o teu azul-coral
deixou-te em troca o excesso de sal.
entanto, o verde que antevejo nessa manhã,
só o vislumbro detrás de óculos rayban.

a não ser que eu ponha cloro,
nas lágrimas que, em ti, choro.


A estrada não trilhada - Robert Frost

 Num bosque, em pleno outono, a estrada bifurcou-se,
 mas, sendo um só, só um caminho eu tomaria.
 Assim, por longo tempo eu ali me detive,
 e um deles observei até um longe declive
 no qual, dobrando, desaparecia…

Porém tomei o outro, igualmente viável,
 e tendo mesmo um atrativo especial,
 pois mais ramos possuía e talvez mais capim,
 embora, quanto a isso, o caminhar, no fim,
 os tivesse marcado por igual.

E ambos, nessa manhã, jaziam recobertos
 de folhas que nenhum pisar enegrecera.
 O primeiro deixei, oh, para um outro dia!
 E, intuindo que um caminho outro caminho gera,
 duvidei se algum dia eu voltaria.

Isto eu hei de contar mais tarde, num suspiro,
 nalgum tempo ou lugar desta jornada extensa:
 a estrada divergiu naquele bosque – e eu
 segui pela que mais ínvia me pareceu,
 e foi o que fez toda a diferença.


Madrugada - Ferreira Gullar


Do fundo de meu quarto, do fundo
de meu corpo
clandestino
ouço (não vejo) ouço
crescer no osso e no músculo da noite
a noite

a noite ocidental obscenamente acesa
sobre meu país dividido em classes.


Quaresmeiras - Alexandre Bonafim

 Por entre as paredes
da memória
desenhado a giz
um menino teima
em brincar
com as sombras
do silêncio.

Quaresmeiras
latejantes de cor
também insistem
em fincar raízes
no que se perdeu.
ao adentrares a brancura
dessa página
folhas e húmus
hão de  enredar
o teu nome
o teu passado.

A brancura desse poema
há de mergulhar
a tua voz
nas origens
de todo
esquecimento.

 Por entre os muros
da palavra
uma criança teima
em desenhar
na existência
um rosto de chuva
para sempre iluminado.





Nádia Dantas

tarde fria, chuvosa
passarinho não canta
veio se abrigar na varanda






Prece Irlandesa

Que o caminho seja brando a teus pés,
O vento sopre leve em teus ombros.
Que o sol brilhe cálido sobre tua face,
As chuvas caiam serenas em teus campos.
E até que eu de novo te veja,
que a Pureza te guarde na palma de Sua mão.

Que a estrada abra à tua frente,
que o vento sopre levemente em tuas costas,
que o sol brilhe morno e suave em tua face,
que a chuva caia de mansinho em teus campos.
E até que nos encontremos de novo...
Que a Pureza te guarde na palma de Sua mão.

Que as gotas da chuva molhem suavemente o teu rosto,
que o vento suave refresque teu espírito,
que o sol ilumine teu coração,
que as tarefas do dia não sejam um peso nos teus ombros,
e que a Pureza te envolva num manto de amor.



Trouxe o sol à poesia - João Cabral de Melo Neto

Trouxe o sol à poesia
mas como trazê-lo ao dia?

No papel mineral
qualquer geometria
fecunda a pura flora
que o pensamento cria.

Ora, no rosto que, grave
riso súbito abria,
no andar decidido
que os longes media,

na calma segurança
de quem tudo sabia,
no contacto das coisas
que apenas coisas via,

nova espécie de sol
eu, sem contar, descobria:
não a claridade imóvel
da praia ao meio-dia,

de aérea arquitetura
ou de pura poesia:
mas o oculto calor
que as coisas todas cria.



Canto XVII - Hilda Hilst

O poeta se fez
Água de fonte
Infância
Circunsoante
Madeira leve
Límpida caravela

E Túlio não quis.

O poeta se fez
Aroma
Voz inflamante
Vestido
Metalescente
Insânia

E Túlio não quis.

O poeta se cobre
De visgo, de vergonha
Enterra seu bandolim
Artimanha do sonho
Tem o corpo de luto
E o rosto de giz

Porque Túlio não ama.


As Coisas Transitórias - Rabindranath Tagore

Irmão,
nada é eterno, nada sobrevive.
Recorda isto, e alegra-te.

A nossa vida
não é só a carga dos anos.
A nossa vereda
não é só o caminho interminável.
Nenhum poeta tem o dever
de cantar a antiga canção.
A flor murcha e morre;
mas aquele que a leva
não deve chorá-la sempre...
Irmão, recorda isto, e alegra-te.

Chegará um silêncio absoluto,
e, então, a música será perfeita.
A vida inclinar-se-á ao poente
para afogar-se em sombras doiradas.
O amor há-de ser chamado do seu jogo
para beber o sofrimento
e subir ao céu das lágrimas ...
Irmão, recorda isto, e alegra-te.

Apanhemos, no ar, as nossas flores,
não no-las arrebate o vento que passa.
Arde-nos o sangue e brilham nossos olhos
roubando beijos que murchariam
se os esquecêssemos.

É ânsia a nossa vida
e força o nosso desejo,
porque o tempo toca a finados.
Irmão, recorda isto, e alegra-te.

Não podemos, num momento, abraçar as coisas,
parti-las e atirá-las ao chão.
Passam rápidas as horas,
com os sonhos debaixo do manto.
A vida, infindável para o trabalho
e para o fastio,
dá-nos apenas um dia para o amor.
Irmão, recorda isto, e alegra-te.

Sabe-nos bem a beleza
porque a sua dança volúvel
é o ritmo das nossas vidas.
Gostamos da sabedoria
porque não temos sempre de a acabar.
No eterno tudo está feito e concluído,
mas as flores da ilusão terrena
são eternamente frescas,
por causa da morte.
Irmão, recorda isto, e alegra-te.




Sonetinho a Portinari - Vinícius de Moraes

O pintor pequeno
O grande pintor
Ruim como um veneno
Bom como uma flor

Vi-o da Inglaterra
Uma tarde, vi-o
No ermo, vadio
Brodósqui onde a terra

É cor de pintura
Muito louro, vi-o
Dentro da moldura

De um quadro de aurora
O olhar azul frio:
- Lá ia ele embora...



A Camões - Manuel Bandeira

Quando n'alma pesar de tua raça
A névoa da apagada e vil tristeza,
Busque ela sempre a glória que não passa,
Em teu poema de heroísmo e de beleza.

Gênio purificado na desgraça,
Tu resumiste em ti toda a grandeza:
Poeta e soldado... Em ti brilhou sem jaça
O amor da grande pátria portuguesa.

E enquanto o fero canto ecoar na mente
Da estirpe que em perigos sublimados
Plantou a cruz em cada continente,

Não morrerá sem poetas nem soldados
A língua em que cantaste rudemente
As armas e os barões assinalados.



João Bosco e Orquestra Sinfônica de Minas Gerais

Trem de carga - Helena Kolody


Longa serpente,

de olhos acesos,
coleava dentro da noite,
bufando fumaça,
cuspindo fagulhas.
Muita carga, pouca força!
Muita carga, pouca força!
Resfolegava a locomotiva.
Vagões oscilavam de leve,
no embalo das rodas nos trilhos.

Parava o trem
nas estaçõezinhas sonolentas.
Besouros e mariposas
dançavam na luz dos lampiões.


A locomotiva saciava a sede

na mangueira.
Chiava o vapor nos freios.
Um silvo longo
soluçava no silêncio da noite.

Lento,
o trem de carga punha-se em movimento.

As rodas tocavam batucadas nos trilhos,
pois a alegria das rodas é viajar.



Sinastria - Elizabeth F. de Oliveira

Somos compatíveis
na sinastria da solidão,
carregamos no peito
o mesmo crepúsculo
circunscrito de silêncio e desilusão.
E, na contradança do destino,
as sincronicidades se transformam
em desatino, fazendo do desencanto
nosso melhor ponto de convergência,
de eloquência da harmonia;
para que, quem sabe, juntos
e com paciência,
possamos, do peito,
desocultar a alvorada
e fazer dessa vida inabitada
um encontro inesperado
de poesia.


www.elizabethfdeoliveira.blogspot.com

Nostalgia - Hélio Pellegrino

As palavras borbotam
do oco do ser

Onde o pleno
silêncio dos prados?
A insciente dos deuses,
pastagens dos deuses,
onde decorre o gado?



Harmonia da tarde - Charles Baudelaire

Chegado é o tempo em que, vibrando o caule virgem,
Cada flor se evapora igual a um incensório;
Sons e perfumes pulsam no ar quase incorpóreo;
Melancólica valsa e lânguida vertigem!

Cada flor se evapora igual a um incensório;
Fremem violinos como fibras que se afligem;
Melancólica valsa lânguida vertigem!
É triste e belo o céu como um grande oratório.

Freme violinos como fibras que se afligem,
Almas ternas que odeiam o nada vasto e inglório!
É triste e belo o céu como um grande oratório;
O sol se afoga em ondas que de sangue o tingem.

Almas ternas que odeiam o nada vasto e inglório
Recolhem do passado as ilusões que o fingem!
O sol se afoga em ondas que de sangue o tingem...
Fulge a tua lembrança em mim qual ostensório!


Asas - Inez Andrade Paes

foste com as andorinhas 
pousada no negro azul brilhante das asas

quero ir também

partiste com elas sem dizer

volta
na próxima primavera que te quero
olhar no dorso dela

já     ambas
vestidas de África

volta
traz-me agora as nuvens
mesmo as que trazem água

se não conseguir voar
receberei no rosto essa água 
marinha


Silêncio Amoroso - Affonso Romano de Sant’Anna

 Preciso do teu silêncio
 cúmplice sobre minhas falhas.
 Não fale.
 Um sopro, a menor vogal pode me desamparar.
 E se eu abrir a boca minha alma vai rachar.
 O silêncio, aprendo, pode construir.
 É um modo denso/tenso - de coexistir.
 Calar, às vezes, é fina forma de amar.


Manhã - Mia Couto

Estou
e num breve instante
sinto tudo
sinto-me tudo

Deito-me no meu corpo
e despeço-me de mim
para me encontrar
no próximo olhar

Ausento-me da morte
não quero nada
eu sou tudo
respiro-me até à exaustão

Nada me alimenta
porque sou feito de todas as coisas
e adormeço onde tombam a luz e a poeira

A vida (ensinaram-me assim)
deve ser bebida
quando os lábios estiverem já mortos

Educadamente mortos


Perfil - Graça Pires


De passagem,
 como a véspera imprecisa
 do poema,
 principia em mim
 a planície agreste
 da solidão dos outros.
 E a não ser
 o silêncio poente
 dos meus olhos,
 tudo o resto me diz
 que sou um pássaro
 a voar, inconsequentemente,
 no sentido das palavras.


Dona Doida - Adélia Prado

Uma vez, quando eu era menina,
choveu grosso, com trovoada e clarões,
exatamente como chove agora.
Quando se pôde abrir as janelas,
as poças tremiam com os últimos pingos.
Minha mãe, como quem sabe que vai escrever um poema,
decidiu inspirada: chuchu novinho, angu, molho de ovos.
Fui buscar os chuchus e estou voltando agora,
trinta anos depois. Não encontrei minha mãe.
A mulher que me abriu a porta, riu de dona tão velha,
com sombrinha infantil e coxas à mostra.
Meus filhos me repudiaram envergonhados,
meu marido ficou triste até a morte,
eu fiquei doida no encalço.
Só melhoro quando chove.




Heitor Villa-Lobos | Bachianas Brasileiras n.1 - Prelúdio (Modinha) -

Árvore verde - Fernando Pessoa

Árvore verde,
Meu pensamento
Em ti se perde.
Ver é dormir
Neste momento.
Que bom não ser
'Stando acordado!
Também em mim enverdecer
Em folhas dado!

Tremulamente
Sentir no corpo
Brisa na alma!
Não ser quem sente,
Mas tem a calma.

Eu tinha um sonho
Que me encantava.
Se a manhã vinha,
Como eu a odiava!

Volvia a noite,
E o sonho a mim.
Era o meu lar,
Minha alma afim.

Depois perdi-o.
Lembro? Quem dera!
Se eu nunca soube
O que ele era.


As bênçãos - Manoel de Barros

Não tenho a anatomia de uma garça pra receber
em mim os perfumes do azul.
Mas eu recebo. 
É uma bênção.

Às vezes se tenho uma tristeza, 
as andorinhas me namoram mais de perto.
Fico enamorado. 
É uma bênção.

Logo dou aos caracóis ornamentos de ouro
para que se tornem peregrinos do chão.
Eles se tornam. 
É uma bênção.

Até alguém já chegou de me ver passar
a mão nos cabelos de Deus!
Eu só queria agradecer.



Compasso de calmaria - Lêdo Ivo

Já não falo de amor aos céus de pedra
nem firo as águas com os remos sujos.
Aprendi a viver.

O pulso de meus dias canta em mim
e a poesia é o espelho do espírito.
Contemplei-me, afinal.

Das altas persianas vejo o sol
ao compasso dos bosques inativos.
Paisagens são relâmpagos.

Agora, até os anjos compreendem
minha necessidade de estar só.
Sou incomunicável.

Porém esta conquista não é dádiva.
Lutei, buscando a ilha onde pudesse
enterrar meu tesouro.

Assim estou, mais pobre do que nunca.
Tudo o que fulgurava está oculto
e jamais volverá.

Vertigem de não ser meu próprio hóspede
nem ter memória em seu firmamento,
aqui estou, sozinho.

Nem pecados, nem gestos, nem trombetas
exploram minha lenda. Estou à espera
deste reino que é a morte.





Composição - Carlos Drummond de Andrade

E é sempre a chuva
nos desertos sem guarda-chuva,
algo que escorre, peixe dúbio,
e a cicatriz, percebe-se, no muro nu.

E são dissolvidos fragmentos de estuque
e o pó das demolições de tudo
que atravanca o disforme país futuro.
Débil, nas ramas, o socorro do imbu.
Pinga, no desarvorado campo nu.

Onde vivemos é água. O sono, úmido,
em urnas desoladas. Já se entornam,
fungidas, na corrente, as coisas caras
que eram pura delícia, hoje carvão.

O mais é barro, sem esperança de escultura.




Culpa do Vento - Glória de Sant'Anna

o vento é brisa
e corre leve
pelo rendado
das casuarinas

corre de manso
pelo verde liso
-asa de cântico
de um outro mar

e pela folhagem
e entre as aves
mergulham peixes
de oiro e cristal

(culpa do vento
a segredar
vozes de espuma
e sons do mar)



Paulo Leminski

nada que o sol
não explique
tudo que a lua
mais chique
não tem chuva
que desbote essa flor





Azul dos Pássaros - Vieira Calado

Sonhamos voar azul dos pássaros –
uma grinalda branca para enfeitar um rosto de mulher,
um cavalo de sangue lusitano no coração dum réptil.

De tempos a tempos desenterramos um diamante
dentro duma ostra
(que nunca nos pertence),
mas resistimos

porque as águas caiem escorrendo sobre a fronte
porque a cidade se estende no interior
das árvores
porque as árvores se justificam na solidão dos ares.



O carroção de feno - Dora Ferreira da Silva

Nenhuma estrela no céu
e poucas árvores na terra
esquecida a doce língua materna
(quem se lembra em mim?)

Taciturnos pensadores de queixo alteado
olham a ceifa do mundo
com advertências tardias e letras vencidas
dos senhores do dia.
Prosperam ratos. E a alegria?
Raptada ou foragida foi levada ou foi-se
por sonho
ou enfado.

Passa um carroção puxado a cavalos:
ontem? hoje? amanhã? quando?
O Poder passa decrépito escarrando
os últimos decretos
à rosa do amanhã.




Começo de Biografia - Murilo Mendes

Eu sou o pássaro diurno e noturno,
O pássaro misto de carne e lenda,
Encarregado de levar o alimento da poesia e da música
Aos habitantes da estrada do arranha-céu e da nuvem.
Eu sou o pássaro feito homem , que vive no meio de vós.
Eu vos forneço o alimento da catástrofe e o ritmo puro.
Trago comigo a semente de Deus... e a visão do dilúvio.