Cântico - Mário Quintana

O vento verga as árvores, o vento clamoroso da aurora...

Tu vens precedida pelos voos altos,
Pela marcha lenta das nuvens.
Tu vens do mar, comandando as frotas do Descobrimento!
Minh'alma é trêmula da revoada dos Arcanjos.
Eu escancaro amplamente as janelas.
Tu vens montada no claro touro da aurora.
Os clarins de ouro dos teus cabelos na luz!



Tão cedo passa tudo quanto passa! - Ricardo Reis (Fernando Pessoa)

Tão cedo passa tudo quanto passa!
Morre tão jovem ante os deuses quanto
Morre! Tudo é tão pouco!
Nada se sabe, tudo se imagina.
Circunda-te de rosas, ama, bebe
E cala. O mais é nada.

Poema - Orides Fontela

Saber de cor o silêncio
diamante e/ou espelho
o silêncio além
do branco.

Saber seu peso
seu signo
- habitar sua estrela
 impiedosa.

Saber seu centro: vazio
esplendor além
da vida
e vida além
 da memória.

Saber de cor o silêncio

-e profaná-lo, dissolvê-lo
                      em palavras.


Leveza - Cecília Meireles

Leve é o pássaro:
e a sua sombra voante,
mais leve.

E a cascata aérea
de sua garaganta,
mais leve.

E o que se lembra, ouvindo-se
deslizar seu canto,
mais leve.

E o desejo rápido
desse mais antigo instante,
mais leve.
E a fuga invisível
do amargo passante,
mais leve.



Uma Arte - Elizabeth Bishop

 A arte de perder não é nenhum mistério
tantas coisas contém em si o acidente
de perdê-las, que perder não é nada sério.
Perca um pouco a cada dia. Aceite austero,
a chave perdida, a hora gasta bestamente.

A arte de perder não é nenhum mistério.
Depois perca mais rápido, com mais critério:
lugares, nomes, a escala subsequente
da viagem não feita. Nada disso é sério.
Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
lembrar a perda de três casas excelentes.

A arte de perder não é nenhum mistério.
Perdi duas cidades lindas. Um império
que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.
Mesmo perder você ( a voz, o ar etéreo, que eu amo)
não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser um mistério
por muito que pareça (escreve) muito sério.



Homem - Tasso da Silveira

É a Natureza, em torno. – Em vão a estudas,
e os problemas intérminos agitas:
em solidões desérticas transmudas
a seara azul das ilusões benditas ...

- É a altura imensa. – As ânsias mais agudas, por
entendê-las, te laceram: gritas!
... mas são os astros reticências mudas
no silêncio das trevas infinitas ...

- É teu ser tumultuante. – Rememoras ...
e ouve vozes longínquas e sonoras
de perdidas distâncias, de outros mundos ...

Na água-morta do sonho te debruças,
cantas! E, assim cantando, é que soluças,
trêmulo, os teus soluços mais profundos ...





HAIKAI - Rodrigo de Almeida Siqueira

Sopra o vento
Segura-te borboleta!
Na pétala da flor.


A música e a letra - Mário Quintana


Os pássaros pousados na pauta dos fios do telégrafo,
Eles é que vão sucessivamente improvisando
- um após outro -
A letra e a música dos ventos...



Na varanda de Florbela - Eugénio de Andrade

Aqui cantaste nua.
Aqui bebeste a planície, a lua,
e ao vento deste os olhos a beber.
Aqui abandonaste as mãos
a tudo o que não chega a acontecer.

Aqui vieram bailar as estações
e com elas tu bailaste.
Aqui mordeste os seios por abrir,
fechaste o corpo à sede das searas
e no lume de ti própria te queimaste.



Pássaros - Miguel Reale

 Nos meus poemas não há pássaros
aflitos dentro dos versos,
bicos metidos entre as rimas
na angústia dos voos livres.

Amo as aves revoluteando no ar
a liberdade em plena luz,
que não é querer nem cogitar
mas a forma mesma do corpo.

Asas irrequietas receosas
inconstantes buliçosas
o que voam são os olhos
acesos desconfiados vigilantes
perscrutando inimigos, vítimas, distâncias,
adivinhando flores antevendo ninhos.


Claude Debussy Google Doodle

Poema I - James Joyce

Cordas na terra e ar,
Fazem doce música.
Cordas pelo rio onde
salgueiros se encontram.
Há música ao longo do rio,
para viagens de amor,
Flores pálidas o cobrem,
folhas escuras nos ramos.
Tocam suavemente tudo,
inclinando-se sobre música,
e dedos vagueiam,
sobre o instrumento...



Tradução: Eric Ponty





Fazia poesia - Paulo Leminski

fazia poesia
 e a maioria saía
 tal a poesia que fazia
 fazia poesia
 e a poesia que fazia
 não é essa
 que nos faz alma vazia
 fazia poesia
 e a poesia que fazia
 tinha tamanho família
 fazia poesia
 e cada tábua que caía
 doía no coração
 fazia poesia
 e fez alto em nossa folia
 fazia tanta poesia
 que ainda vai ter
 poesia um dia


Talvez - Pablo Neruda


Talvez não ser,
é ser sem que tu sejas,
sem que vás cortando
o meio dia com uma
flor azul,
sem que caminhes mais tarde
pela névoa e pelos tijolos,
sem essa luz que levas na mão
que, talvez, outros não verão dourada,
que talvez ninguém
soube que crescia
como a origem vermelha da rosa,
sem que sejas, enfim,
sem que viesses brusca, incitante
conhecer a minha vida,
rajada de roseira,
trigo do vento,

E desde então, sou porque tu és
E desde então és
sou e somos...
E por amor
Serei... Serás...Seremos...


Um tolo na lua - Dylan Thomas

Minhas lágrimas são como o calmo fluxo
De pétalas de alguma rosa mágica;
E todo o meu pesar flui pelo espaço deixado
Entre céus esquecidos e nevascas.

Creio que, se tivesse tocado o solo,
O faria desmoronar;
Isso é tão triste e bonito,
Tão irresoluto quanto um sonho.



Enseada - Elizabeth F. de Oliveira

Fulgura em teus olhos
uma luz sufocada,
ânsia prévia de ser mar,
antes de ser enseada;
testemunha ocular
dessa saudade represada
na solidão do teu olhar.





A um poema - Fiama Hassa P. Brandão

A meio deste inverno começaram
a cair folhas demais. Um excessivo
tom amarelado nas imagens.
Quando falei em imagem
ia falar de solo. Evitei o
imediato, a palavra mais cromática.

O desfolhar habitual das memórias é
agora mais geral e também mais súbito.
Mas falaria de árvores, de plátanos,
com relativa evidência. Maior
ou menor distância, ou chamar-lhe-ei
rigor evocativo, em nada diminui

sequer no poema a emoção abrupta.
Tão perturbada com a intensa mancha
colorida. Umas passadas hesitantes.
entre formas vulgares e tão diferentes.
A descrição distante. Sobretudo esta
alheada distância em relação a um poema.



Os cavalos do tempo - Tasso da Silveira


Os cavalos do tempo são de vento.
Têm músculos de vento,
nervos de vento, patas de vento, crinas de vento.

Perenemente em surda galopada,
passam brancos e puros
por estradas de sonho e esquecimento.

Os cavalos do tempo vão correndo.
Vêm correndo de origens insondáveis,
e a um abismo absoluto vão rumando.

Passam puros e brancos, livres, límpidos,
no indescontínuo imemorial esforço.
Ah! são o eterno atravessando o efêmero:
levam sombras divinas sobre o dorso...




Tom Jobim e Sting

Pronúncia - Fabrício Carpinejar

 A palavra é falível
 posta em outra boca:
 o horizonte deitou

 o fuzil dos pássaros.
 Volta, pai, que a fundura
 não está nos passos,

 a tapera dispersa
 a caça e o paradeiro
 das pegadas.

 A queda atalha a subida,
 o homem permanece
 uma pronúncia inacabada.

 Tantas vezes caí
 em teu lugar,
 que descobri o inferno

 ao repetir a salvação.
 Tantas vezes caíste
 em meu lugar,

 que descobriste a salvação
 ao repetir o inferno.




Depus a máscara - Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)


Depus a máscara e vi-me ao espelho.
Era a criança de há quantos anos.
Não tinha mudado nada...
É essa a vantagem de saber tirar a máscara.
É-se sempre a criança,
O passado que foi
A criança.
Depus a máscara, e tornei a pô-la.
Assim é melhor,
Assim sem a máscara.
E volto à personalidade como a um términus de linha.



Alice Ruiz

Algumas flores
teimam em viver
apesar do peso
apesar da morte
apesar de algumas
que teimam em morrer
apesar de tudo



O Lago - Mihai Eminescu

 Dos bosques o lago azul,
 teto de douradas flores,
 embala o sonho de um barco
 em alvíssimos tremores.

 À sua margem passeio,
 e esperando-a, espreito;
 vê-la surgir de entre as flores
 e terna vir ao meu peito.

- Saltemos ao barco, então,
 e que as ondas nos alentem,
 e deixemos que seus remos
 sejam ramos indolentes.

 Naveguemos docemente
 Sob o clarão do luar;
 suspire o vento nos juncos,
 ponha-se a água a cantar... -

Mas ela não vem...Sozinho,
 debalde sofro de amores,
 à margem do lago azul,
 teto de douradas flores.




Asas - Fernanda de Castro

Eu tenho asas!
Piso o chão como pisa toda a gente
mas tenho asas
de impalpável tecido transparente,
feitas de pó de estrelas e de flores.
Asas que ninguém vê, que ninguém sente,
asas de todas as cores.
Pequenas asas brancas que me afastam
das coisas triviais
e as tornam leves, fluídas, irreais
- pólen, nuvem, luar, constelações,
irisados cristais.
Asa branca minha alma a palpitar,
bater de asas o doce ciciar
de pálpebras e cílios.
Ó minhas asas brancas de cetim!
Revoadas de pássaros meus sonhos,
Meus desejos sem fim!


Bom Dia, Vida! - Ilka Brunhilde Laurito


Bom dia, vida!

A luz da manhã despiu
seu cobertor de neblina.

Bom dia, vida!

O meu corpo amanheceu
com uma alegria menina!

Bom dia! Bom dia!
Abro a janela ao convite
de um coral de passarinhos.
Um sol cor de riso
me veste da cabeça aos pés.

Respiro o aroma da terra,
cheiro de orvalho e café.
Bom dia, bom dia!

Dia bom de colher flores
e um ramalhete de amores...
Bom dia, vida!
Bom dia!


Quando Anoitece - Graça Pires

Quando anoitece
 contorno no meu rosto
 o perfil do dia que passou
 e tudo o que não sou
 me contradiz.

 Quando anoitece
 atravesso um labirinto
 caiado de paixão,
 pretexto circular
 da minha fé.

 Quando anoitece
 faço emergir do abismo
 um instinto quase secreto
 e fujo da noite,
 em vertiginosa simetria com o vento,
 como se fosse um equívoco
 esperar a madrugada
 com a mesma lentidão
 de um acto íntimo.

 Contra um muro branco
 esta lonjura gémea do vento.

 Uma casa ou um regaço
 alternando a desordem
 de corpos molhados
 numa dicotomia simulada
 quando o prazer
 é o reflexo nítido
 de um coágulo de azul
 queimado sobre madrepérolas.

 São corais que no fundo da água
 não quebram as vagas silvestres.

 Nasci agora
 enquanto uma andorinha
 baloiçava no espelho
 atravessado de pólen.

 Sou, sílaba por sílaba,
 o luto ou a negação
 de desumanos deuses.

 Quando anoitece...




Sentimento do tempo - Paulo Mendes Campos

Os sapatos envelheceram depois de usados
Mas fui por mim mesmo aos mesmos descampados
E as borboletas pousavam nos dedos de meus pés.

As coisas estavam mortas, muito mortas,
Mas a vida tem outras portas, muitas portas.

Na terra, três ossos repousavam
Mas há imagens que não podia explicar: me ultrapassavam.

As lágrimas correndo podiam incomodar
Mas ninguém sabe dizer por que deve passar
Como um afogado entre as correntes do mar.

Ninguém sabe dizer por que o eco embrulha a voz
Quando somos crianças e ele corre atrás de nós.

Fizeram muitas vezes minha fotografia
Mas meus pais não souberam impedir
Que o sorriso se mudasse em zombaria
Sempre foi assim: vejo um quarto escuro
Onde só existe a cal de um muro.

Costumo ver nos guindastes do porto
O esqueleto funesto de outro mundo morto
Mas não sei ver coisas mais simples como a água.

Fugi e encontrei a cruz do assassinado
Mas quando voltei, como se não houvesse voltado,
Comecei a ler um livro e nunca mais tive descanso.

Meus pássaros caíam sem sentidos.
No olhar do gato passavam muitas horas
Mas não entendia o tempo àquele tempo como agora.

Não sabia que o tempo cava na face
Um caminho escuro, onde a formiga passe
Lutando com a folha.

O tempo é meu disfarce.



Regar o Jardim - Bertolt Brecht

Regar o jardim, para animar o verde!
Dar água às plantas sedentas!
Dê mais que o bastante.
E não esqueça os arbustos, também
Os sem frutos, os exaustos
E avaros!
E não negligencie
As ervas entre as flores, que também
Têm sede. Não molhe apenas
A relva fresca ou somente a ressecada:
Refresque também o solo nu.


Árvore - Mia Couto

cego
de ser raiz

imóvel
de me ascender caule

múltiplo
de ser folha

aprendo
a ser árvore
enquanto
iludo a morte
na folha tombada do tempo




Prefácio - Mário Faustino

Quem fez esta manhã, quem penetrou
à noite os labirintos do tesouro,
quem fez esta manhã predestinou
seus temas a paráfrases do touro,
a traduções do cisne: fê-la para
abandonar-se a mitos essenciais,
desflorada por ímpetos de rara
metamorfose alada, onde jamais
se exaure o deus que muda, que transvive.
quem fez esta manhã fê-la por ser
um raio a fecundá-la, não por lívida
ausência sem pecado e fê-la ter
em si princípio e fim: ter entre aurora
e meio-dia um homem e sua hora.


Poema da devastação - Carlos Nejar

Há uma devastação
nas coisas e nos seres,
como se algum vulcão
abrisse as sobrancelhas
e ali, sobre esse chão,
pousassem as inteiras
angústias, solidões,
passados desesperos
e toda a condição
de homem sem soleira,
ventura tão curta,
punição extrema.

Há uma devastação
nas águas e nos seres;
os peixes, com seus viços,
revolvem-se no umbigo
deste vulcão de escamas.

Há uma devastação
nas plantas e nos seres;
o homem recurvado
com a pálpebra nos joelhos.
As lavas soprarão,
enquanto nós vivermos.



Solidão - Cecília Meireles

Imensas noites de inverno,
com frias montanhas mudas,
e o mar negro, mais eterno,
mais terrível, mais profundo.

Este rugido das águas
é uma tristeza sem forma:
sobe rochas, desce fráguas,
vem para o mundo, e retorna...

E a névoa desmancha os astros,
e o vento gira as areias:
nem pelo chão ficam rastros
nem, pelo silêncio, estrelas.

A noite fecha seus lábios
- terra e céu - guardado nome.
E os seus longos sonhos sábios
geram a vida dos homens.

Geram os olhos incertos,
por onde descem os rios
que andam nos campos abertos
da claridade do dia.


O último poema - Manuel Bandeira

Assim eu quereria o meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.


Transmutação do pó - Eric Ponty

 Pode o pobre nobre pó recriar
 o vazio dissimulado nas entranhas do significado
 na aurora primaveril do novotempo.

 O pó morre envelhecendo só,
 no nó das esparralhadas histórias
 e o poeta ardiloso
 quer recriar a musíngua num febril gesto.

 O antanho e o amanhecer falecem na espera
 um minuto de perspectiva apenas mais um minuto
 entre vozes que soaram bem claro opacas foram
 em inexprimir o de uma só condição
 sintaxe articulada em malicias da contradição
 um detalhe de uma renascença
 um detalhe de aliteração
 não se deve exprimir e silenciar no antanho
 um amanhecer claro, porém escuro
 uma história oculta dentro de outra história
 ecoando
 no amarelecimento da memória.

 Nas áreas esquecidas da memória, o pó é um Dó,
 arquivado nas lembranças dos versos inversos da dor,
 articulada conjugação do primeiro último verso
 implantado nos isolados seres em dor e divagação
 radioativas imagens cavalgadas de silêncio pleno
 no eloqüente murmuro anunciado em tropel,
 desencanto envolto no pó.

 E o pó se fez homem se fez poeta
 envolvido pelo silêncio de imagens
 de tanto percorrer para fora deste universo
 fundido antes de ser e antes de estar
 solidão é longínqua
 e o espectador
 não percebe a eloqüência da complexidade
 transferida num rápido olhar do objeto
 na facilidade tão fácil a perda de profundidade
 de um instante abjeto e fugas de subjetividade
 do gesto de se fazer compreensível.

 Do alto da pedra em mar alto
 observar luzindo embarcação náutica
 noite traz seus preceitos, seus medos,
 neste negro caminho de águas claras
 onipotência e fragilidade sussurrando versos vãos
 último toque da linguarte
 último toque do pode ser
 último toque de proporcionar uma visão
 último toque do penúltimo toque do tocador
 e a vida foi vida em fibra
 jaz um mar.

 Elaborada palavra desfigurando-se em nada
 um enlace foi formado de um grito em suspiro
 endiabrada cantata só de vento lento
 virgens imagens no arpoador foram pronunciadas
 sopro de uma trombeta marinha
 e o fundo funda-se no próprio fundo
 irregular omivisão do tempo cru em movimento
 e o homem se fez pó se fez poeta se fez Dó
 era um início de um outro princípio
 eis as gêneses consumidas em marinhas águas
 um inevitável encontro louco
 metamorfosear-se em pó para ser novo
 e ressurgir cantando e ressurgir do fundo
 deste oco que é o sopro da sobrevida de um cantador.

 Nobre pó rima em Dó de uma sinfonia finda
 ninfas do desejo em asas falhas sobrevoam
 a recriar novas línguas,e a recriar ainda
 último verso da criação
 e o pó se fez presente que se fez ausente
 transfigurar-se do desenlace febril
 tudo não passara de um sonho senil
 diante de um penhasco
 agora ressuscitado dos pesadelos
 adquire lento
 perspectiva da observação.

 O primeiro verbo do início foi um sopro
 delírio interior de um Deus-Tudo
 de barro,
 este artefato de lodo fez o homem,
 e com um novo sopro de novo o desfez seu ato
 que do pó fênix redimiu todas as formas
 num novo ato só.




Certa Manhã - Lêdo Ivo

A vaca muge
no estábulo.

O coelho salta
na fábula.

O céu encurva:
parábola.

E os pára-sóis
amarelos

enchem a manhã
de girassóis.