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Transmutação do pó - Eric Ponty

 Pode o pobre nobre pó recriar
 o vazio dissimulado nas entranhas do significado
 na aurora primaveril do novotempo.

 O pó morre envelhecendo só,
 no nó das esparralhadas histórias
 e o poeta ardiloso
 quer recriar a musíngua num febril gesto.

 O antanho e o amanhecer falecem na espera
 um minuto de perspectiva apenas mais um minuto
 entre vozes que soaram bem claro opacas foram
 em inexprimir o de uma só condição
 sintaxe articulada em malicias da contradição
 um detalhe de uma renascença
 um detalhe de aliteração
 não se deve exprimir e silenciar no antanho
 um amanhecer claro, porém escuro
 uma história oculta dentro de outra história
 ecoando
 no amarelecimento da memória.

 Nas áreas esquecidas da memória, o pó é um Dó,
 arquivado nas lembranças dos versos inversos da dor,
 articulada conjugação do primeiro último verso
 implantado nos isolados seres em dor e divagação
 radioativas imagens cavalgadas de silêncio pleno
 no eloqüente murmuro anunciado em tropel,
 desencanto envolto no pó.

 E o pó se fez homem se fez poeta
 envolvido pelo silêncio de imagens
 de tanto percorrer para fora deste universo
 fundido antes de ser e antes de estar
 solidão é longínqua
 e o espectador
 não percebe a eloqüência da complexidade
 transferida num rápido olhar do objeto
 na facilidade tão fácil a perda de profundidade
 de um instante abjeto e fugas de subjetividade
 do gesto de se fazer compreensível.

 Do alto da pedra em mar alto
 observar luzindo embarcação náutica
 noite traz seus preceitos, seus medos,
 neste negro caminho de águas claras
 onipotência e fragilidade sussurrando versos vãos
 último toque da linguarte
 último toque do pode ser
 último toque de proporcionar uma visão
 último toque do penúltimo toque do tocador
 e a vida foi vida em fibra
 jaz um mar.

 Elaborada palavra desfigurando-se em nada
 um enlace foi formado de um grito em suspiro
 endiabrada cantata só de vento lento
 virgens imagens no arpoador foram pronunciadas
 sopro de uma trombeta marinha
 e o fundo funda-se no próprio fundo
 irregular omivisão do tempo cru em movimento
 e o homem se fez pó se fez poeta se fez Dó
 era um início de um outro princípio
 eis as gêneses consumidas em marinhas águas
 um inevitável encontro louco
 metamorfosear-se em pó para ser novo
 e ressurgir cantando e ressurgir do fundo
 deste oco que é o sopro da sobrevida de um cantador.

 Nobre pó rima em Dó de uma sinfonia finda
 ninfas do desejo em asas falhas sobrevoam
 a recriar novas línguas,e a recriar ainda
 último verso da criação
 e o pó se fez presente que se fez ausente
 transfigurar-se do desenlace febril
 tudo não passara de um sonho senil
 diante de um penhasco
 agora ressuscitado dos pesadelos
 adquire lento
 perspectiva da observação.

 O primeiro verbo do início foi um sopro
 delírio interior de um Deus-Tudo
 de barro,
 este artefato de lodo fez o homem,
 e com um novo sopro de novo o desfez seu ato
 que do pó fênix redimiu todas as formas
 num novo ato só.




Um comentário:

  1. O pó, o sopro, tudo pertence à Deus.
    Um grande e belo poema.
    bjs.

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