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O escafandro - Cassiano Ricardo


I
No fundo do oceano
estava a lágrima
que devia ser
chorada por mim. À espera
de quem viesse usá-la,
um dia, ou dos olhos
(que, hoje, são os meus)

que a chorassem, devida-
mente. Como se chora,
uma só vez, na vida.

A lágrima ali ficou,
intacta, no salso
labirinto, onde ninguém
chora, porque ali o pranto
é falso. Onde os polvos,
os tristes cefalópodes,
não choram. Onde
as sereias, nascidas
pra não chorar, não choram.

Onde os próprios marujos
não choram. Onde os peixes
não choram, e ninguém
iria, então, chorá-la,
tão supérflua é uma gota
de mágoa ao fundo d´água.

E a lágrima passou
entre alvos caramujos,
entre navios mortos,
entre detritos sujos,
entre esponjas por cujos
orifícios entrou
e saiu, muitas vezes,
quieta, obscura, sozinha.
para, afinal, ser minha.

II

Lá fora,
a multidão, a onda
cega, o cavalo líquido
e Glauco
em que, sem nenhum
esforço, Deus navega,
originalmente.
Ali dentro, a lágrima.
Quieta, obscura, sozinha
na unanimidade
espessa da água azul - marinha.



Um comentário:

  1. Que lindo
    ,Ali dentro, a lágrima.
    Quieta, obscura, sozinha
    na unanimidade
    espessa da água azul - marinha
    bjs.

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