Fuga - Pedro Homem de Mello


O músico procura
Fixar em cada verso
O cântico disperso
Na luz, na água e no vento.

Porém, luz, vento e água
Variam riso e mágoa,
De momento a momento.


E em vão a área dos dedos
Se eleva! Não traduz
Os súbitos segredos
Escondidos no vento,
Nas águas e na luz...


A chuva lenta - Gabriela Mistral


Esta água medrosa e triste,
como criança que padece,
antes de tocar a terra,
         desfalece.

 Quietos a árvore e o vento,
e no silêncio estupendo,
este fino pranto amargo,
         vertendo!

 Todo o céu é um coração
aberto em agro tormento.
Não chove: é um sangrar longo
         e lento.

Dentro das casas, os homens
não sentem esta amargura,
este envio de água triste
         da altura;

este longo e fatigante
descer de água vencida,
por sobre a terra que jaz
         transida.

 Em baixando a água inerte,
calada como eu suponho
que sejam os vultos leves
         de um sonho.

Chove... e como chacal lento
a noite espreita na serra.
Que irá surgir na sombra
         da Terra?

 Dormireis, quando lá foram
sofrendo, esta água inerte
e letal, irmã da Morte
         se verte?



Fogo - Olga Savary


Dar-me toda este verão
urdideiros de rio, é ser
serpente de prata. Verão,
foi feita mais uma vítima
Sou um ser marcado, natureza.
A tarde crava em meu magma
o selo de sua secreta pata.


Uma flauta toca - Tu Fu


Múrmura brisa
me traz o som
da flauta clara
lá na montanha enluarada.

Onde haverá
flauta tocada
no coração
que me retorne
ao lar?

De brisa o som
enche-me as salas
tal como o luar
cobre as montanhas
e os vales.

Noite como esta
as hordas bárbaras
no Norte entraram.
E a melodia
me acompanhava
na longa via
em que fugia
até o Sul.

Quando o salgueiro
os ramos pende
na noite fria
nus.

No triste inverno,
como esperar
pelo milagre
de lhe nascerem
folhas?


As muralhas da noite - João Maimona


A mão ia para as costas da madrugada.
As mulheres estendiam as janelas da alegria
nos ouvidos onde não se apagavam as alegrias.

Entre os dentes do mar acendiam-se braços.

Os dias namoravam sob a barca do espelho.
Havia uma chuva de barcos enquanto o dia tossia.
E da chuva de barcos chegavam colchões,
camas, cadeiras, manadas de estradas perdidas
onde cantavam soldados de capacetes
por pintar no coração da meia-noite.

Eram os barcos que guardavam as muralhas
da noite que a mão ouvia nas costas
da madrugada entre os dentes do mar.


Pablo Neruda

Foi nessa idade 
que a poesia me veio buscar
 Não sei de onde veio
 Do inverno, de um rio
 Não sei como nem quando
 Não, não eram vozes
 Não eram palavras
 Nem silêncio
 Mas da rua fui convocado
 Dos galhos da noite
 Abruptamente entre outros
 Entre fogos violentos
 Voltando sozinho
 Lá estava eu sem rosto
 E fui tocado.


Noturno - Antero de Quental


Espírito que passas, quando o vento
Adormece no mar e surge a Lua,
Filho esquivo da noite que flutua,
Tu só entendes bem o meu tormento...

Como um canto longínquo - triste e lento-
Que voga e sutilmente se insinua,
Sobre o meu coração que tumultua,
Tu vestes pouco a pouco o esquecimento...

A ti confio o sonho em que me leva
Um instinto de luz, rompendo a treva,
Buscando. entre visões, o eterno Bem.

E tu entendes o meu mal sem nome,
A febre de Ideal, que me consome,
Tu só, Gênio da Noite, e mais ninguém!