Canto de Muro - Fernando Py

Num canto de muro
o garoto chorava
num canto de muro
a Terra findava
num canto de muro
a noite pousava
crepúsculo sujo
de rua asfaltada.

Num canto de muro
nem Deus se encontrava
num canto de muro
blasfêmia gravada
num canto de muro
o diabo urinava
no chão sem futuro
da terra ensombrada.

Num canto de muro
o sol desmaiava
e a noite tranquila
o solo ocupava
— a posse, tão fria
(terreno tão duro)
teu ângulo diedro,
parede, rachado.

Num canto de muro
esquina forçada
o mundo vivia
e o mundo acabava.
Num canto de muro
a sombra vazia
prepara o futuro
da nova cidade.

O evento terno - Cyro de Mattos



Sentido não haveria
Do aroma sem o canto.
A aderência perfeita
Toca o mistério,
A natureza se impõe
Na luz deste céu sonoro.
Na nervura da pétala,
Tremor translúcido,
O pássaro tece e acontece.




Solidão - Emílio Moura


Que fazer comigo,
com tanto sonho, tanto,
se há lágrima e espanto
na noite sem ti?

Que fazer comigo
com tanta esperança,
se a noite tão mansa
não te traz a mim?

Que fazer comigo
se a estrela mais linda
desta noite ainda
não brilhou no céu?

Que fazer com tanta
vida, neste instante,
se estás tão distante
que anoiteceu?


Esses inquietos ventos - Mário Quintana


Esses inquietos ventos andarilhos
Passam e dizem: “Vamos caminhar.
Nós conhecemos misteriosos trilhos,
Bosques antigos onde é bom cismar...

E há tantas virgens a sonhar idílios!
E tu não vieste, sob a paz lunar
Beijar os seus entrefechados cílios
E as dolorosas bocas a ofegar...”

Os ventos vêm e batem-me a janela:
“A tua vida: Que fizeste dela?”
E chaga a morte: “Anda! Vem dormir...

Faz tanto frio...e é tão macia a cama...”
Mas toda a longa noite ainda hei de ouvir
A inquieta voz dos ventos que me chama!...



Versos soltos no mar - Vinícius de Moraes



1

O ritmo, mar, o ritmo, o verso, o verso!

2

Dá ao meu verso, mar, a ligeireza,
a graça de teu ritmo renovado.

3

Eu sou, mar, tu bem sabes, teu discípulo.
Que nunca digas, mar, que não foste meu mestre

4

Cantam em mim, ó mestre mar, metendo-se
pelos largos canais que há nos meus ossos,
das tuas que são como ondas mestras,
que a ti voltam de novo num unido,
só e mesclado mar de minha boca
Gil Vicente, Machado, [ ... ]
Baudelaire, Juan Ramon, Rubén Darío,
Pedro Espinosa, Góngora... e as fontes
que em minha aldeia cantam pelas praças.


5
Sento-me, mar, a ouvir-te
Te sentarias tu, mar, para escutar-me?

6

Tens a vaidade, o desmedido orgulho
de saber que meus versos são sempre em teu louvor.

7

Vais largando, praia, terra que te susteve.

8

Nada em teu coração, nada em teu ventre.

9

Equivocado, o mar solta uma andorinha.

10

Rompe o mar tamarindos pela espuma.

11

Guano marinheiro: "venta" de humilde mar "varado".
"Venta" de pobres ventos,
de modestos crepúsculos,
de albas arruinadas.

12

Preamar silencioso de meus mortos.
Ellos, quizás, los que os están limando,
Eles, talvez, os que vos vão limando
ruivas rochas distantes.


13
Se te escutasses, mar, se tua linguagem
pudesse, mar, ser outra,
que palavras dirias?

14

De qualquer modo, mar, soas o mesmo
e continuas parecendo com teu velho retrato.

15

Mar; às vezes, sentado não se sabe em que assento.

16

Vê-se que, mesmo querendo,
mar forçudo, não podes.

17

Aqui jaz o mar. Nem ele mesmo
soube jamais o número de ondas
que desfez o seu sonho.

18

Aqui jaz o mar. Gostaria
de ter sido marinheiro, desde menino.

19

Aqui jaz o mar. Ninguém teve,
como ele, um caixão
pregado com estrelas.

20

Aqui jaz o mar. A morte
sentada ereta, na praia, a contemplá-lo.

21

Aqui jaz o mar. Devesse
jazer também o céu sobre seu túmulo.

22

O mar morreu. Não tinha
para o amor mais força que a de um menino.

23

Quem seria, mar, capaz de escrever-te o epitáfio?


24
Quero, mar, que em meu dia,
que resta, hoje mesmo
morras tu também.

25

Cada manhã e o mar fecha os dentes.

26

Hoje, mar, amanheceste com mais meninos que ondas.

27

Sim, mar, eu sei, tu és para mim a outra margem.

28

Mas me disseste, mar, mar
mar do colégio, mar dos telhados
que outras praias tuas, tão distantes,
ia eu chorar, sedado, mar, por ti,
mar do colégio, mar dos telhados.

29

Decerto te botei, mar guri, em minha frente
e ali foste crescendo em ondulagem
até que te fizeste mulher
e homem ao mesmo tempo.

30

Menino, eu queria patinar em tuas ondas,
mar do Sul, impossível ao coração de gelo.

31

Menino mar, não sabes?
ele te pintava sempre a aquarela.

32

Sábado o mar solta um cavalo branco...
e deixaste dormindo.

33

És de súbito, igual a uma criada
velha, gruñona e doce, que tinha minha mãe

34

A areia, quente
Geladas as ondas.
Os que morreram
Maruja, vão te chamar.

35

Ferozes leões.
Furiosos cavalos.
Mas se são de espuma
Quem pode domá-los?

36

Inclinei-me para ver o mar. E vi apenas
uma mulher chorando
contra o quarto minguante de uma lua crescente.

37

Mar, andei à tua procura
esse imortal sorriso...
porém não o encontrei.

38

Rico, até mesmo sem ver, de suspiros mortos.

39

Saíste de ti mesmo, levando contigo a praia...
mas te horrorizaste de ti mesmo, e voltaste.



40

Que estás pensando, mar dos veranistas?

41

Tu gostarias, mar, de andar de bicicleta,
dar um grande passeio pelas namblas
alugar uma barraca verde
e "cumbar-te" na praia
como um mar qualquer
descansando do banho?


Velha chácara - Manuel Bandeira



A casa era por aqui...
Onde? Procuro-a e não acho.
Ouço uma voz que esqueci:
É a voz deste mesmo riacho.

Ah quanto tempo passou!
(Foram mais de cinqüenta anos.)
Tantos que a morte levou!
(E a vida... nos desenganos...)

A usura fez tábua rasa
Da velha chácara triste:
Não existe mais a casa...

- Mas o menino ainda existe.


Amanhecer - José Saramago


Navego no cristal da madrugada,
Na dureza do frio reflectido,
Onde a voz ensurdece, laminada,
Sob o peso da noite e do gemido.

Abre o cristal em nuvem desmaiada,
Foge a sombra, o silêncio e o sentido
Da nocturna memória sufocada
Pelo murmúrio do dia amanhecido.


Ryuichi Sakamoto - Forbidden Colours

Essas Coisas - Carlos Drummond de Andrade


"Você não está mais na idade
de sofrer por essas coisas."

Há então a idade de sofrer
e a de não sofrer mais
por essas, essas coisas?

As coisas só deviam acontecer
para fazer sofrer
na idade própria de sofrer?

Ou não se devia sofrer
pelas coisas que causam sofrimento
pois vieram fora de hora, e a hora é calma?

E se não estou mais na idade de sofrer
é porque estou morto, e morto
é a idade de não sentir as coisas, essas coisas?