A eternidade - Arthur Rimbaud


Ela foi encontrada!
Quem? A eternidade.
É o mar misturado
Ao sol.

Minha alma imortal,
Cumpre a tua jura
Seja o sol estival
Ou a noite pura.

Pois tu me liberas
Das humanas quimeras,
Dos anseios vãos!
Tu voas então...

— Jamais a esperança.
Sem movimento.
Ciência e paciência,
O suplício é lento.

Que venha a manhã,
Com brasas de satã,
O dever
É vosso ardor.

Ela foi encontrada!
Quem? A eternidade.
É o mar misturado
Ao sol.


Poemas de Dezembro - Carlos Drummond de Andrade


Procuro uma alegria
uma mala vazia
do final de ano
e eis que tenho na mão
- flor do cotidiano -
é vôo de um pássaro
é uma canção.

Uma vez mais se constrói
a aérea casa da esperança
nela reluzem alfaias
de sonho e de amor: aliança.


Fazer da areia, terra e água uma canção
Depois, moldar de vento a flauta
que há de espalhar esta canção
Por fim tecer de amor lábios e dedos
que a flauta animarão
E a flauta, sem nada mais que puro som
envolverá o sonho da canção
por todo o sempre, neste mundo.

Quem me acode à cabeça e ao coração
neste fim de ano, entre alegria e dor?
Que sonho, que mistério, que oração?
Amor.



O relógio - Charles Baudelaire


Relógio! Divindade sinistra, horrível, impassível,
Cujo dedo nos ameaça e nos diz: Recorda!
As vibrantes dores no teu coração cheio de terror
Cessarão brevemente como num alvo;

O Prazer vaporoso fugirá para o horizonte
Tal como uma sílfide para o fundo do corredor;
Cada instante te devora um pedaço da delícia
Acordada a cada homem para toda a sua estância.

Três mil seiscentas vezes por hora, o Segundo
Murmura: Recorda! Rápido, com a sua voz
De insecto, agora diz: Eu sou antanho,
E eu bombeei a tua vida com a minha tromba imunda!

Remember! Recorda! Pródigo! Esto memor!
(A minha garganta de metal fala todas as línguas.)
Os minutos, morte brincalhona, são gangas
Que não se podem deixar sem extrair o ouro!

Recorda! Que o tempo é um jogador ávido
Que ganha sem batota! A todo o custo! É a lei.
O dia declina; a noite aumenta: Recorda!
O abismo tem sempre sede; a clepsidra se esvazia.

Logo soará a hora em que o Divino Azar,
Onde a augusta Virtude, a tua esposa ainda virgem,
Onde o Arrependimento (oh, o último refúgio!)
Onde tudo te dirá: Morre, velho fraco! É muito tarde!


Cantiga de Malazarte - Murilo Mendes


Eu sou o olhar que penetra nas camadas do mundo,
ando debaixo da pele e sacudo os sonhos.
Não desprezo nada que tenha visto,
todas as coisas se gravam pra sempre na minha cachola.
Toco nas flores, nas almas, nos sons, nos movimentos,
destelho as casas penduradas na terra,
tiro os cheiros dos corpos das meninas sonhando.
Desloco as consciências,
a rua estala com os meus passos,
e ando nos quatro cantos da vida.
Consolo o herói vagabundo, glorifico o soldado vencido,
não posso amar ninguém porque sou o amor,
tenho me surpreendido a cumprimentar os gatos
e a pedir desculpas ao mendigo.
Sou o espírito que assiste à Criação
e que bole em todas as almas que encontra.
Múltiplo, desarticulado, longe como o diabo.
Nada me fixa nos caminhos do mundo.


Herança - Cecília Meireles


Eu vim de infinitos caminhos,
e os meus sonhos choveram lúcido pranto
pelo chão.

Quando é que frutifica, nos caminhos infinitos,
essa vida, que era tão viva, tão fecunda,
porque vinha de um coração?

E os que vierem depois, pelos caminhos infinitos,
do pranto que caiu dos meus olhos passados,
que experiência, ou consolo, ou prêmio alcançarão?