Canção de amor - Rainer Maria Rilke


Como hei-de segurar a minha alma
para que não toque na tua? Como hei-de
elevá-la acima de ti, até outras coisas?
Ah, como gostaria de levá-la
até um sítio perdido na escuridão
até um lugar estranho e silencioso
que não se agita, quando o teu coração treme.
Pois o que nos toca, a ti e a mim,
isso nos une, como um arco de violino
que de duas cordas solta uma só nota.
A que instrumento estamos atados?
E que violinista nos tem em suas mãos?
Oh, doce canção.


Ele é o mundo extremo de beleza... - Vinícius de Moraes


Ele é o mundo extremo de beleza e de todas as ideias passadas e futuras
É a sabedoria de todas as coisas na sua essência de música e de poesia
É a vida em desencantamento de todas as imagens do tempo na carne
Ele diz à mata tumefacta: Eu sou tu mesmo, larva do amor infinito
E se morrer é para que eu viva a tua morte e a minha vida!
E com mãos de piedade tece teias gigantescas sobre os cosmos debruçados
Onde tombam palpitantes corações cheios de sofrimento e de angústia.

Ele possui - possui como nunca possuiu o espírito no sangue dos homens
Sabe - sabe como nunca soube a alma no seio da tragédia
E perdura - como nunca perdurou a morte no fundo do ser inocente
Ele diz à noite: Tu existes, mas que seria de ti se eu não te visse
Que realidade és senão a claridade dos meus olhos que tudo criam?
E a noite que não o vê desce os mais escuros véus sobre o cadáver dos rios
Com negras lágrimas ardentes de impotência e miséria.

Quando o peregrino encontra na noite negra a branca imagem do seu êxtase
Misteriosamente à sua volta a natureza se putrefaz
Seus olhos que penetravam mornos os cânticos estelares de Aldebarã
Veem descer em fios de luz planetas como aranhas rígidas
Que pousam sobre a epiderme corrompida das matas e das águas
E na vida que começa em origem e entendimento no seu íntimo
A paisagem da morte dolorosa.
E sobre cada extensão de folhas e de frutos
Os sonhos fogem como crisálidas translúcidas para os espaços frios da alma
E se respondem em ecos de lembrança e de intuições serenas
E como a águia, o peregrino-deus devora as entranhas da terra
E com ela alimenta as iluminações de um céu não mais inexistente
E com ela fecunda as fruições de uma seiva decomposta em lava
Que se arrasta para as escarpas mortuárias de cruéis abismos vividos.



Esse despojamento - Henriqueta Lisboa

Esse despojamento
 esse amargo esplendor.
 Beleza em sombra
 sacrifício incruento.

 A mão sem jóias
 descarnada
 na pureza das veias.
 A voz por um fio
 desnuda
 na palavra sem gesto.

 O escuro em torno
 e a lucidez
 violenta lucidez terrível
 batida de encontro ao rosto
 como uma ofensa física.

 Na imensidade sem pouso,
 olhos duros
 de pássaro.


Consciência Cósmica - Guimarães Rosa


Já não preciso de rir.
Os dedos longos do medo
largaram minha fronte.
E as vagas do sofrimento me arrastaram
para o centro do remoinho da grande força,
que agora flui, feroz, dentro e fora de mim...

Já não tenho medo de escalar os cimos
onde o ar limpo e fino pesa para fora,
e nem deixar escorrer a força de dos meus músculos,
e deitar-me na lama, o pensamento opiado...

Deixo que o inevitável dance ao meu redor,
a dança das espadas de todos os momentos.
e deveria rir , se me retesse o riso,
das tormentas que poupam as furnas da minha alma,
dos desastres que erraram o alvo do meu corpo... 


Sim, já sei... Fernando Pessoa


Sim, já sei...
Há uma lei
Que manda que no sentir
Haja um seguir
Uma certa estrada
Que leva a nada.

Bem sei. É aquela
Que dizem bela
E definida
Os que na vida
Não querem nada
De qualquer estrada,

Vou no caminho
Que é meu vizinho
Porque não sou
Quem aqui estou.