Eu busco o rastro de alguém - Sophia de Mello B. Andresen
Eu busco o rastro de
alguém
Que o mar reflecte e
contém.
Calma que eterniza as
suas horas,
Ou tumulto que vibra
Nas marés desesperadas
e sonoras.
Eu busco o rastro de
alguém
Que ao meu encontro
vem
No sonho de cada
linha.
Alguém
Que no silêncio dos
pinhais caminha,
Rio correndo, chama
Em tudo acesa.
Alguém que me devasta
e inflama
Me destrói e me inunda
de certeza.
Alguém que me devora,
Ou infinitamente longe
me implora
Que venha.
Alguém que se desenha
No perfil dos montes
E sobe do fundo da
terra com as fontes.
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Sophia de Mello B. Andresen
Graça - Adélia Prado
O mundo é um jardim. Uma luz banha o mundo.
A limpeza do ar, os verdes depois das chuvas,
os campos vestindo a relva como o carneiro a sua lã.
A dor sem fel: uma borboleta viva espetada.
Acodem as gratas lembranças:
moças descalças, vestidos esvoaçantes,
tudo seivoso como a juventude,
insidioso prazer sem objeto.
Insisto no vício antigo — para me proteger do inesperado gozo.
E a mulher feia? E o homem crasso?
Em vão. Estão todos nimbados como eu.
A lata vazia, o estrume, o leproso no seu cavalo
estão resplandecentes. Nas nuvens
tem um rei, um reino,
um bobo com berloques, um príncipe. Eu passeio nelas,
é sólido. O que não vejo, existindo mais que a carne.
Esta tarde inesquecível Deus me deu. Limpou meus olhos e vi:
como o céu, o mundo verdadeiro é pastoril.
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Adélia Prado
Se cada dia cai - Pablo Neruda

Se cada dia cai, dentro de cada noite,
há um poço
onde a claridade está presa.
Há que sentar-se na beira
do poço da sombra
e pescar luz caída
com paciência.
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Não saibas: imagina - Miguel Torga

Deixa falar o mestre , e devaneia...
A velhice é que sabe, e apenas sabe
Que o mar não cabe
Na poça que a inocência abre na areia.
Sonha!
Inventa um alfabeto
De ilusões...
Um á-bê-cê secreto
Que soletres à margem das lições...

Voa pela janela
De encontro a qualquer sol que te sorria!
Asas? Não são precisas:
Vais ao colo das brisas,
Aias da fantasia...
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Neste leito de ausência - Ferreira Gullar
Neste leito de ausência em que me esqueço
desperta o longo rio solitário:
se ele cresce de mim, se dele cresço,
mal sabe o coração desnecessário.
O rio corre e vai sem ter começo
nem foz, e o curso, que é constante, é vário.
Vai nas águas levando, involuntário,
luas onde me acordo e me adormeço.
Sobre o leito de sal, sou luz e gesso:
duplo espelho — o precário no precário.
Flore um lado de mim? No outro, ao contrário,
de silêncio em silêncio me apodreço.
Entre o que é rosa e lodo necessário,
passa um rio sem foz e sem começo.
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