Da Noite - Hilda Hilst


II
Que canto há de cantar o que perdura?
A sombra, o sonho, o labirinto, o caos
A vertigem de ser, a asa, o grito.
Que mitos, meu amor, entre os lençóis:
O que tu pensas gozo é tão finito
E o que pensas amor é muito mais.
Como cobrir-te de pássaros e plumas
E ao mesmo tempo te dizer adeus
Porque imperfeito és carne e perecível

E o que eu desejo é luz e imaterial.

Que canto há de cantar o indefinível?
O toque sem tocar, o olhar sem ver
A alma, amor, entrelaçada dos indescritíveis.
Como te amar, sem nunca merecer?


Meus olhos - Pablo Neruda


Quisera que meus olhos fossem duros e frios
e que ferissem fundo dentro do coração
e que nada expressassem dos meus sonhos vazios,
fosse esperança ou ilusão.
Indecifráveis sempre a todos os profanos
do fundo e suave azul da tranquila safira,
incapazes de ver os pesares humanos
ou a alegria do viver.
No entanto estes meus olhos são cândidos e tristes,
não como eu os desejo nem como devem ser.
É que estes olhos meus é o coração que os veste
e seu desgosto fá-los ver.


Rumos errados - Cora Coralina

A caminhada ...
 Amassando a terra.
 Carreando pedras.
 Construindo com as mãos
 sangrando
 a minha vida.

 Deserta a longa estrada.
 Mortas as mãos viris
 que se estendiam às minhas.
 Dentro da mata bruta
 leiteando imensos vegetais,
 cavalgando o negro corcel da febre,
 desmontado para sempre.

 Passa a falange dos mortos ...
 Silêncio! Os namorados dormem.
 Os poetas cobriram as liras.
 Flutuam véus roxos
 no espaço.


Deixa-me seguir para o mar - Mário Quintana


Tenta esquecer-me...
Ser lembrado é como evocar
Um fantasma... Deixa-me ser o que sou,
O que sempre fui, um rio que vai fluindo...
Em vão, em minhas margens cantarão as horas,
Me recamarei de estrelas como um manto real,
Me bordarei de nuvens e de asas,
Às vezes virão a mim as crianças banhar-se...
Um espelho não guarda as coisas refletidas!
E o meu destino é seguir... é seguir para o Mar,
As imagens perdendo no caminho...
Deixa-me fluir, passar, cantar...
Toda a tristeza dos rios
É não poder parar!


Noite - Cecília Meireles


Tão perto!
Tão longe!
Por onde
é o deserto?
Às vezes,
responde,
de perto,
de longe.
Mas depois
se enconde.
Somos um
ou dois?
Às vezes,
nenhum.
E em seguida,
tantos!
A vida
transborda
por todos
os cantos.
Acorda
com modos
de puro
esplendor.
Procuro
meu rumo:
horizonte
escuro:
um muro
em redor.
Em treva
me sumo.
Para onde
me leva?

Pergunto a Deus se estou viva,
se estou sonhando ou acordada.
Lábio de Deus! – Sensitiva
tocada.


Cai chuva. É noite. - Fernando Pessoa


Cai chuva. É noite. Uma pequena brisa
        Substitui o calor.
P'ra ser feliz tanta coisa é precisa.
        Este luzir é melhor.

O que é a vida? O espaço é alguém para mim.
        Sonhando sou eu só.
A luzir, em quem não tem fim
        E, sem querer, tem dó.

Extensa, leve, inútil passageira,
        Ao roçar por mim traz
Uma ilusão de sonho, em cuja esteira
        A minha vida jaz.

Barco indelével pelo espaço da alma,
        Luz da candeia além
Da eterna ausência da ansiada calma,
        Final do inútil bem.

Que se quer, e, se veio, se desconhece
        Que, se for, seria
O tédio de o haver... E a chuva cresce
        Na noite agora fria.