Soneto 30 - William Shakespeare
Quando, em silêncio, penso,
docemente,
Sobre fatos idos e vividos,
Sinto falta do muito que
busquei,
E desperdiço um tempo
precioso com antigos lamentos:
Então meus olhos naufragam
sem mais saber chorar,
Por queridos amigos envoltos
pela noite do esquecimento,
E novamente choro o amor há
tanto abandonado,
Gemendo por algo que não mais
vejo:
Assim, posso sofrer as velhas
dores,
E lamentar, de pesar em
pesar,
Uma triste história de
antigas mágoas,
Que pranteio como se não as
tivesse pranteado antes.
Mas quando penso em ti,
querida amiga,
Todas as perdas cessam, e a
tristeza finda.
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William Shakespeare
Há vezes em que nem é a morte que se teme - Eduardo White
Há vezes em que nem é a morte que se teme,
o seu sossego de cinza,
a sua solidão escura,
mas como se morre.
Quando morrer
quero fazê-lo sem rumor algum,
sem ninguém que me chore
ou a quem doa.
E queria a morte uma ave,
nocturna ave
sigilosamente partindo
para outro tempo.
Para morrer, fá-lo-ia
em total silêncio,
severo
e lúcido.
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Eduardo White
De Rerum Natura - Marco Lucchesi
além das nuvens
claras e sombrias
vivem os deuses
raros nas alturas...
livres de enganos
dores nostalgias
de morte vil
que aos poucos nos invade;
da chuva de átomos
em que se evade
indefinidamente
a natureza
em sua eterna
mas avara empresa
de reunir
os átomos-enxame,
seguindo a força
rude do cliname,
para formar
compostos provisórios,
que se desfazem
noutros repertórios:
estrelas, águas,
nuvens, tempestades,
cristais, abelhas,
glórias ou cidades
e flores, pedras,
corpos, consciência
– figuram
como pálida aparência...
e acima desse
mundo sempre em guerra
acima
da miragem dessa terra
repousam
esquecidos nos meatos
mais livres
os celestes, mais beatos
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Marco Lucchesi
Selo
Recebi
da amiga poetisa Lourdinha,
o
selo “Prêmio Dardos Bloggers” .
Obrigada
pela indicação.
Agradeço pelo carinho.
Beijos
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Emily Dickinson
Escondo-me na minha flor,
Para que, murchando em teu vaso,
tu, insciente, me procures -
Quase uma solidão.
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Cabra-Cega - Pedro Homem de Mello
À volta de incerto fogo
Brincaram as minhas mãos.
... E foi a vida o seu jogo!
Julguei possuir estrelas
Só por vê-las.
Ai! Como estrelas andaram
Misteriosas e distantes
As almas que me encantaram
Por instantes!
Em ritmo discreto, brando,
Fui brincando, fui brincando
Com o amor, com a vaidade...
— E a que sentimentos vãos
Fiquei devendo talvez
A minha felicidade!
A minha felicidade!
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No corpo - Ferreira Gullar
De que vale tentar reconstruir com palavras
o que o verão levou
entre nuvens e risos
junto com o jornal velho pelos ares?
O sonho na boca, o incêndio na cama.
o apelo na noite
agora são apenas esta
contração (este clarão)
de maxilar dentro do rosto.
A poesia é o presente.
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Embalo - Cecília Meireles
Adormeço em ti minha vida,
- flor de sombra e de solidão -
da terra aos céus oferecida
para alguma constelação.
Não pergunto mais o motivo,
não pergunto mais a razão
de viver no mundo em que vivo,
pelas coisas que morrerão.
Adormeço em ti minha vida,
imóvel, na noite, e sem voz.
A lua, em meu peito perdida,
vê que tudo em mim somos nós.
Nós! - E no entanto eu sei que estão
brotando pela noite lisa
as lágrimas de uma canção
pelo que não se realiza...
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Pietá - Miguel Torga
Vejo-te ainda, Mãe, de olhar
parado,
Da pedra e da tristeza, no
teu canto,
Comigo ao colo, morto e nu,
gelado,
Embrulhado nas dobras do teu
manto.
Sobre o golpe sem fundo do
meu lado
Ia caindo o rio do teu
pranto;
E o meu corpo pasmava,
amortalhado,
De um rio amargo que adoçava
tanto.
Depois, a noite de uma outra
vida
Veio descendo lenta,
apetecida
Pela terra-polar de que me
fiz;
Mas o teu pranto, pela noite
além,
Seiva do mundo, ia caindo,
Mãe,
Na sepultura fria da raiz.
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Miguel Torga
Desejo - Cassiano Ricardo
As coisas que não conseguem
morrer
Só por isso são chamadas
eternas.
As estrelas, dolorosas
lanternas
Que não sabem o que é deixar
de ser.
Ó força incognoscível que
governas
O meu querer, como o meu
não-querer.
Quisera estar entre as
simples luzernas
Que morrem no primeiro
entardecer.
Ser deus — e não as coisas
mais ditosas
Quanto mais breves, como são
as rosas
É não sonhar, é nada mais
obter.
Ó alegria dourada de o não
ser
Entre as coisas que são, e as
nebulosas,
Que não conseguiu dormir nem
morrer.
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Cassiano Ricardo
Ternura - Vinícius de Moraes
Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentado
Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer que o grande afeto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras dos véus da alma...
É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta, muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite
encontrem sem fatalidade o olhar extático da aurora.
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O sol - Georg Trakl
Todos os dias o sol amarelo
aparece sobre a colina.
Bela é a floresta, o animal
escuro,
O homem, caçador ou pastor.
Avermelhado, o peixe sobe no
regato verde.
Sob o céu redondo
O pescador segue, silencioso,
na canoa azul.
Lenta a uva amadurece, o
grão,
Quando calmo o dia se
inclina,
O mal e o bem estão
preparados.
Quando anoitece,
O peregrino ergue suavemente
as pálpebras pesadas;
do desfiladeiro sombrio o sol
desponta.
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O universo - Alberto Caeiro/Fernando Pessoa

O universo não é uma idéia minha.
A minha idéia do Universo é que é uma idéia minha.
A noite não anoitece pelos meus olhos,
A minha idéia da noite é que anoitece por meus olhos.
Fora de eu pensar e de haver quaisquer pensamentos
A noite anoitece concretamente
E o fulgor das estrelas existe como se tivesse peso.
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Como nuvens pelo céu - Fernando Pessoa
Como nuvens pelo céu
Passam por mim.
Nenhum dos sonhos é meu
Embora eu os sonhe assim.
São coisas no alto que são
Enquanto a vista as conhece,
Depois são sombras que vão
Pelo campo que arrefece.
Símbolos? Sonhos? Quem torna
Meu coração ao que foi?
Que dor de mim me transforma?
Que coisa inútil me dói?
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Resíduo - Carlos Drummond de Andrade
De tudo ficou um pouco
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa
ficou um pouco.
Ficou um pouco de luz
captada no chapéu.
Nos olhos do rufião
de ternura ficou um pouco
(muito pouco).
Pouco ficou deste pó
de que teu branco sapato
se cobriu. Ficaram poucas
roupas, poucos véus rotos
pouco, pouco, muito pouco.
Mas de tudo fica um pouco.
Da ponte bombardeada,
de duas folhas de grama,
do maço
― vazio ― de cigarros, ficou um pouco.
Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.
Ficou um pouco de tudo
no pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa,
retrato.
Se de tudo fica um pouco,
mas por que não ficaria
um pouco de mim? no trem
que leva ao norte, no barco,
nos anúncios de jornal,
um pouco de mim em Londres,
um pouco de mim algures?
na consoante?
no poço?
Um pouco fica oscilando
na embocadura dos rios
e os peixes não o evitam,
um pouco: não está nos
livros.
De tudo fica um pouco.
Não muito: de uma torneira
pinga esta gota absurda,
meio sal e meio álcool,
salta esta perna de rã,
este vidro de relógio
partido em mil esperanças,
este pescoço de cisne,
este segredo infantil...
De tudo ficou um pouco:
de mim; de ti; de Abelardo.
Cabelo na minha manga,
de tudo ficou um pouco;
vento nas orelhas minhas,
simplório arroto, gemido
de víscera inconformada,
e minúsculos artefatos:
campânula, alvéolo, cápsula
de revólver... de aspirina.
De tudo ficou um pouco.
E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da
memória.
Mas de tudo, terrível, fica
um pouco,
e sob as ondas ritmadas
e sob as nuvens e os ventos
e sob as pontes e sob os
túneis
e sob as labaredas e sob o
sarcasmo
e sob a gosma e sob o vômito
e sob o soluço, o cárcere, o
esquecido
e sob os espetáculos e sob a
morte escarlate
e sob as bibliotecas, os
asilos, as igrejas triunfantes
e sob tu mesmo e sob teus pés
já duros
e sob os gonzos da família e
da classe,
fica sempre um pouco de tudo.
Às vezes um botão. Às vezes
um rato.
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