HAIKAI - Yeda Prates Bernis

Angelus. Dedos da brisa
nas teclas das folhas
adormecem os pássaros.

Rodopio - Mário de Sá Carneiro

Volteiam dentro de mim,
Em rodopio, em novelos,
Milagres, uivos, castelos,
Forcas de luz, pesadelos,
Altas torres de marfim.

Ascendem hélices, rastros...
Mais longe coam-me sóis;
Há promontórios, faróis,
Upam-se estátuas de heróis,
Ondeiam lanças e mastros.

Zebram-se armadas de cor,
Singram cortejos de luz,
Ruem-se braços de cruz,
E um espelho reproduz,
Em treva, todo o esplendor...

Cristais retinem de medo,
Precipitam-se estilhaços,
Chovem garras, manchas, laços...
Planos, quebras e espaços
Vertiginam em segredo.

Luas de oiro se embebedam,
Rainhas desfolham lírios:
Contorcionam-se círios,
Enclavinham-se delírios.
Listas de som enveredam...

Virgulam-se aspas em vozes,
Letras de fogo e punhais;
Há missas e bacanais,
Execuções capitais,
Regressos, apoteoses.

Silvam madeixas ondeantes,
Pungem lábios esmagados,
Há corpos emaranhados,
Seios mordidos, golfados,
Sexos mortos de ansiantes...

(Há incenso de esponsais,
Há mãos brancas e sagradas,
Há velhas cartas rasgadas,
Há pobres coisas guardadas -
Um lenço, fitas, dedais...)

Há elmos, troféus, mortalhas.
Emanações fugidias,
Referências, nostalgias,
Ruínas de melodias,
Vertigens, erros e falhas.

Há vislumbres de não-ser,
Rangem, de vago, neblinas;
Fulcram-se poços e minas,
Meandros, pauis, ravinas
Que não ouso percorrer...

Há vácuos, há bolhas de ar,
Perfumes de longes ilhas,
Amarras, lemes e quilhas -
Tantas, tantas maravilhas
Que se não podem sonhar!...

As fontes - Sophia de Mello B. Andresen

Um dia quebrarei todas as pontes
Que ligam o meu ser, vivo e total,
À agitação do mundo do irreal,
E calma subirei até às fontes

Irei até às fontes onde mora
A plenitude, o límpido esplendor
Que me foi prometido em cada hora,
E na face incompleta do amor

Irei beber a luz e o amanhecer,
Irei beber a voz dessa promessa
Que às vezes como um voo me atravessa,
E nela cumprirei todo o meu ser.

Lágrima - Mário Quintana

Denso, mas transparente
como uma lágrima...
Quem me dera
Um poema assim!
Mas...
Este rascar da pena! Esse
ringir das articulações...Não ouves?!
Ai do poema
que assim escreve a mão infiel
enquanto - em silêncio - a pobre alma
pacientemente espera.

À bengala - José Paulo Paes

contigo me faço
pastor do rebanho
de meus próprios passos.

Pré história - Murilo Mendes

Mamãe vestida de rendas
Tocava piano no caos.
Uma noite abriu as asas
Cansada de tanto som,
Equilibrou-se no azul,
De tonta não mais olhou
Para mim, para ninguém!
Cai no álbum de retratos.

Simplicidade - Adalgisa Nery

Vida no vento,
Vida na rosa,
Vida no fogo,
Vida na pedra,
Vida na água,
Vida na luz,
Vida no pranto,
Vida no húmus,
Vida na vida do amigo,
Vida no silêncio,
Vida na angústia,
Vida no mistério da criança,
Vida na vida
Cantando, cantando sempre
Na infinita vida da morte.

Antonio Nóbrega - Melodia Sentimental

Martha Medeiros

espelho, espelho meu
existe no mundo alguém
que reflita mais do que eu?

Panorama além - Cecília Meireles

Não sei que tempo faz, nem se é noite ou se é dia.
Não sinto onde é que estou, nem se estou. Não sei de nada.
Nem de ódio, nem amor. Tédio? Melancolia.
-Existência parada. Existência acabada.

Nem se pode saber do que outrora existia.
A cegueira no olhar. Toda a noite calada
no ouvido. Presa a voz. Gesto vão. Boca fria.
A alma, um deserto branco: -o luar triste na geada...

Silêncio. Eternidade. Infinito. Segredo.
Onde, as almas irmãs? Onde, Deus? Que degredo!
Ninguém.... O ermo atrás do ermo: - é a paisagem daqui.

Tudo opaco... E sem luz... E sem treva... O ar absorto...
Tudo em paz... Tudo só... Tudo irreal... Tudo morto...
Por que foi que eu morri? Quando foi que eu morri?

A Poesia - Miguel Reale

A poesia é pena sem castigo
ou remorso sem sombra de pecado,
um amor solidário a toda gente
que dói desde a medula de teus ossos.

Poesia é um cantinho solitário
ou espuma de existência transbordante,
uma pluma que beija o cotidiano
ou uma chaga de luz não sei de onde.

Poesia é o caminho para o exílio
com saudade da terra de partida
quanto mais perto a terra prometida,

mas é também o derradeiro auxílio
que nos torna melhores de repente
ao percebermos que ela é a semente.

O acendedor de lampiões - Jorge de Lima

Lá vem o acendedor de lampiões da rua!
Este mesmo que vem infatigavelmente,
Parodiar o sol e associar-se à lua
Quando a sombra da noite enegrece o poente!

Um, dois, três lampiões, acende e continua
Outros mais a acender imperturbavelmente,
À medida que a noite aos poucos se acentua
E a palidez da lua apenas se pressente.

Triste ironia atroz que o senso humano irrita: —
Ele que doira a noite e ilumina a cidade,
Talvez não tenha luz na choupana em que habita.

Tanta gente também nos outros insinua
Crenças, religiões, amor, felicidade,
Como este acendedor de lampiões da rua.

Nostalgia - Li Bai

Sou um pessegueiro
florescendo no fundo de um poço.
Olho para quê, sorrio para quem?
És a Lua reluzindo no céu.
Breve foi o tempo debruçada sobre mim,
logo o afastamento, para sempre.
A espada de mais fina lâmina
não pode cortar em duas as águas de um rio.
Meu pensamento, como a água,
corre e te segue sempre.

Caetano Veloso & Jaques Morelenbaum - Pecado

Pensar no tempo - Walt Whitman

Pensar no tempo...pensar retrospectivamente,
Pensar no hoje...e nas eras e eras que estão por vir.

Teve a impressão que não seguiria em frente?
Já teve medo daqueles escaravelhos terrestres?
Teve medo do futuro não ser nada pra você?

Será que o hoje é o nada? Será nada o passado sem origem?
Se o futuro não é nada, eles podem ser nada também.

Pensar que o sol se ergueu no leste...
que homens e mulheres eram ágeis e reais e vivos...
que cada coisa era real e estava viva;
Pensar que você e eu não vemos
sentimos pensamos nem fazemos nossa parte,
Pensar que agora e aqui estamos fazendo nossa parte.

Nem um dia se passa...nem um minuto ou segundo sem um parto;
Nem um dia se passa...nem um minuto ou segundo sem um morto.

Quando as noites de tédio terminarem, junto com os dias de tédio,
Quando a irritação de tanto ficar na cama terminar,
Quando o médico, depois de muito vacilar,
dar o olhar silencioso e terrível como resposta,
Quando as crianças vieram correndo e chorando,
e os irmãos e irmãs levados para outro lugar,
Quando os remédios ficarem esquecidos na prateleira,
e o cheiro de cânfora invadir os quartos,
Quando a mão fiel dos vivos não desertar as do que estão morrendo,
Quando os lábios contorcidos pressionarem de leve
a testa do morimbundo,
Quando a respiração parar e o pulso do coração parar,
Então os membros do cadáver estirado na cama,
e os vivos olhando para eles,
São tão palpáveis como os vivos são palpáveis.
Os vivos olham pro cadáver com sua visão,
Mas sem visão morrem uma vida diferente
e olham curiosamente sobre o cadáver.

Balada da Chuva - J.G.de Araujo Jorge



A tarde se embaça: - um pingo, outro pingo
respinga um respingo de encontro à vidraça;
um pingo, outro pingo, e a chuva aumentando
e eu nada distingo,- respinga um respingo
tinindo, cantando de encontro à vidraça

A noite esta baça e a chuva enervante
batendo, batendo, constante, cantante
de encontro à vidraça

A terra se alaga o céu se nevoa,
e a chuva é uma vaga fininha, descendo,
parece garoa!
parece fumaça!
- e as águas subindo e as poças subindo
e a chuva descendo e a chuva não passa!

O dia surgindo, manhã turva e baça.
A chuva fininha miudinha, miudinha,
parece farinha lá fora caindo,
através da vidraça.

A tarde está escura, a noite está baça,
e as brumas de um tédio
de um tédio sem cura
talvez sem remédio
minha alma esfumaça:

- um dia, outro dia e os dias passando
em lenta agonia segunda a domingo;
um pingo, outro pingo,respinga um respingo,
batendo, cantando, mil dedos tocando
de encontro à vidraça...
-que chuva! que chuva!
e a chuva não passa!

Constante, cantante caindo distante
nas folhas molhadas,
nas poças paradas despidas e nuas,
e murmurejante rolando nas ruas;
-um pingo, outro pingo
na lata cantando goteira se abrindo
pingando, pingando
batendo, batendo
tinindo, tinindo

parece um tinido, de taça com taça,
e a chuva chovendo
e a chuva não passa!

O vento nas folhas de leve perpassa,
e as gotas nos fios rolando, escorrendo
lá fora estou vendo através da vidraça,
- que dias sem alma!
- que noites um graça!
e a chuva, que calma!
chovendo, chovendo
não passa! não passa!

A terra está envolta nas brumas de um véu,
de um véu de viúva que o dia escurece,
e a noite enfumaça.

- E' a chuva que chove, e do alto se solta
descendo, descendo, rolando, escorrendo
nos olhos do céu...
Nos olhos do céu e no olhar da vidraça!

-que chuva! que chuva! parece um dilúvio,
quem sabe? - parece que a chuva não passa!

O silêncio - Dora Ferreira da Silva

O silêncio tem uma porta
que se abre
para um silêncio maior:
antecâmara do último,
que anuncia outro depois.