Menos a mim - Ferreira Gullar
Conheço a aurora com seu desatinoConheço o amanhecer com o seu tesouro
Conheço as andorinhas sem destino
Conheço rios sem desaguadouros
Conheço o medo do princípio ao fim
Conheço tudo, conheço tudo
Menos a mim.
Conheço o ódio e seus argumentos
Conheço o mar e suas ventanias
Conheço a esperança e seus tormentos
Conheço o inferno e suas alegrias
Conheço a perda do princípio ao fim
Conheço tudo, conheço tudo
Menos a mim.
Mas depois que chegaste de algum céu
Com teu corpo de sonho e margarida
Pra afinal revelar-me quem sou eu
Posso afirmar enfim
Que não conheço nada desta vida
Que não conheço nada, nada, nada
Nem mesmo a mim.
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Ferreira Gullar
O segredo dos pássaros – Vieira Calado

O coração conhece o segredo dos pássaros,
a ânsia de horizontes para além do horizonte.
O segredo dos pássaros é uma centelha
de luz rebuscando a simplicidade duma vida
imagens móveis que alargam o nosso chão,
apenas em memórias difusas de exiguidade
e fantasmas de veludo passando mãos inertes
sobre o nosso rosto.
Ou labaredas azuis duma tarde quente
e o fio dum arco-íris
em suas cores de transparência e frio.
O coração conhece o segredo dos pássaros
e o seu degredo.

E eu apenas recomeço os trabalhos
da simplicidade da minha vida
e reconheço a sua exiguidade
guiada por horizontes de bruma.
http://vieiracalado-poesia.blogspot.com
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Vieira Calado
HAIKAI - Millôr Fernandes

A alegria
É toda feita
De melancolia
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Minha canção - Rabindranath Tagore
Minha canção te envolverá com sua música,como os abraços sublimes do amor.
Tocará o teu rosto como um beijo de graças.
Quando estiveres só, se sentará a teu lado e te falará ao ouvido.
Minha canção será como asas para os teus sonhos
e elevará teu coração até o infinito.
Quando a noite escurecer o teu caminho,
minha canção brilhará sobre ti como a estrela fiel.
Se fixará nos teus lindos olhos
e guiará teu olhar até a alma das coisas.
Quando minha voz se calar para sempre,
minha canção te seguirá em teus pensamentos.
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Rei - José Gomes Ferreira
Nasci rei de um reinado sem rei,Num castelo sem cor e sem ponte,
Meus comandos nos quadros da lei
Mergulharam na cálida fonte.
Meus soldados de escudo no braço,
Nunca espada tiveram na mão,
Os tambores batidos no espaço
Percutiram lembranças em vão.
A princesa do rei tão silente
No castelo vivia sem dor,
Mas o reino do rei diferente
Tinha a cor do castelo sem cor.
Nasci rei de um reinado sem rei,
Sem comando, sem povo e sem lei.
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José Gomes Ferreira
Canção quase triste - Cecília Meireles
Brilhou a rosano espinhoso galho.
Quem a viu? Ninguém.
Nuvens muito altas
lágrimas de orvalho
deram-lhe: – de além.
Seca os teus olhos,
no amargo trabalho,
que a noite já vem.
Vê-te a ti mesmo,
sê teu agasalho,
pobre Pero Sem.
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Cecília Meireles
Rodopio - Mário de Sá Carneiro
Volteiam dentro de mim, Em rodopio, em novelos,
Milagres, uivos, castelos,
Forcas de luz, pesadelos,
Altas torres de marfim.
Ascendem hélices, rastros...
Mais longe coam-me sóis;
Há promontórios, faróis,
Upam-se estátuas de heróis,
Ondeiam lanças e mastros.
Zebram-se armadas de cor,
Singram cortejos de luz,
Ruem-se braços de cruz,
E um espelho reproduz,
Em treva, todo o esplendor...
Cristais retinem de medo,
Precipitam-se estilhaços,
Chovem garras, manchas, laços...
Planos, quebras e espaços
Vertiginam em segredo.
Luas de oiro se embebedam,
Rainhas desfolham lírios:
Contorcionam-se círios,
Enclavinham-se delírios.
Listas de som enveredam...
Virgulam-se aspas em vozes,
Letras de fogo e punhais;
Há missas e bacanais,
Execuções capitais,
Regressos, apoteoses.
Silvam madeixas ondeantes,
Pungem lábios esmagados,
Há corpos emaranhados,
Seios mordidos, golfados,
Sexos mortos de ansiantes...
(Há incenso de esponsais,
Há mãos brancas e sagradas,
Há velhas cartas rasgadas,
Há pobres coisas guardadas -
Um lenço, fitas, dedais...)
Há elmos, troféus, mortalhas.
Emanações fugidias,
Referências, nostalgias,
Ruínas de melodias,
Vertigens, erros e falhas.
Há vislumbres de não-ser,
Rangem, de vago, neblinas;
Fulcram-se poços e minas,
Meandros, pauis, ravinas
Que não ouso percorrer...
Há vácuos, há bolhas de ar,
Perfumes de longes ilhas,
Amarras, lemes e quilhas -
Tantas, tantas maravilhas
Que se não podem sonhar!...
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As fontes - Sophia de Mello B. Andresen
Um dia quebrarei todas as pontesQue ligam o meu ser, vivo e total,
À agitação do mundo do irreal,
E calma subirei até às fontes
Irei até às fontes onde mora
A plenitude, o límpido esplendor
Que me foi prometido em cada hora,
E na face incompleta do amor
Irei beber a luz e o amanhecer,
Irei beber a voz dessa promessa
Que às vezes como um voo me atravessa,
E nela cumprirei todo o meu ser.
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Lágrima - Mário Quintana
Denso, mas transparentecomo uma lágrima...
Quem me dera
Um poema assim!
Mas...
Este rascar da pena! Esse
ringir das articulações...Não ouves?!
Ai do poema
que assim escreve a mão infiel
enquanto - em silêncio - a pobre alma
pacientemente espera.
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Pré história - Murilo Mendes
Mamãe vestida de rendasTocava piano no caos.
Uma noite abriu as asas
Cansada de tanto som,
Equilibrou-se no azul,
De tonta não mais olhou
Para mim, para ninguém!
Cai no álbum de retratos.
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Simplicidade - Adalgisa Nery
Vida no vento,Vida na rosa,
Vida no fogo,
Vida na pedra,
Vida na água,
Vida na luz,
Vida no pranto,
Vida no húmus,
Vida na vida do amigo,
Vida no silêncio,
Vida na angústia,
Vida no mistério da criança,
Vida na vida
Cantando, cantando sempre
Na infinita vida da morte.
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Panorama além - Cecília Meireles
Não sei que tempo faz, nem se é noite ou se é dia.Não sinto onde é que estou, nem se estou. Não sei de nada.
Nem de ódio, nem amor. Tédio? Melancolia.
-Existência parada. Existência acabada.
Nem se pode saber do que outrora existia.
A cegueira no olhar. Toda a noite calada
no ouvido. Presa a voz. Gesto vão. Boca fria.
A alma, um deserto branco: -o luar triste na geada...
Silêncio. Eternidade. Infinito. Segredo.
Onde, as almas irmãs? Onde, Deus? Que degredo!
Ninguém.... O ermo atrás do ermo: - é a paisagem daqui.
Tudo opaco... E sem luz... E sem treva... O ar absorto...
Tudo em paz... Tudo só... Tudo irreal... Tudo morto...
Por que foi que eu morri? Quando foi que eu morri?
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