Aqui e agora - Gilberto Mendonça Teles



Procuro o aqui e o agora,
o agoraqui, o que já foi
e continua: a cor de outrora
no couro curtido de um boi.

Procuro o que está sendo,
o que se acende, o que se apaga,
o acontecido acontecendo,
sombra de peixe fora d'água.

Procuro o que figura
no que perdi te procurando,
o que se gastou na usura
do que me vem de vez em quando.

Procuro o que projeto
além de mim, no que me sobra:
talvez a sombra de um inseto
na plantação da minha obra.

Procuro o procurar-te,
o que sempre fiz e não sei.
Talvez o aqui e o agora, a parte
do que ficou fora da lei.


As Horas pela Alameda - Fernando Pessoa


As horas pela alameda
Arrastam vestes de seda,

Vestes de seda sonhada
Pela alameda alongada

Sob o azular do luar...
E ouve-se no ar a expirar -

A expirar mas nunca expira -
Uma flauta que delira,

Que é mais a ideia de ouvi-la
Que ouvi-la quase tranquila

Pelo ar a ondear e a ir...
Silêncio a tremeluzir...


Nana Caymmi - Flor da Noite

meninas - Vera Lúcia de Oliveira

as meninas que da alma pulam
brincam de esticar
o tempo

com suas saias rodadas
dançam a canção mais pura
que aprenderam
correndo
entre as junturas dos ossos.

A Rua dos Cataventos - Mário Quintana


O dia abriu seu pára-sol bordado
De nuvens e de verde ramaria.
E estava até um fumo, que subia,
Mi-nu-ci-o-sa-men-te desenhado.

Depois surgiu, no céu azul arqueado,
A Lua - a Lua! - em pleno meio-dia.
Na rua, um menininho que seguia
Parou, ficou a olhá-la admirado...

Pus meus sapatos na janela alta,
Sobre o rebordo... Céu é que lhes falta
Pra suportarem a existência rude!

E eles sonham, imóveis, deslumbrados,
Que são dois velhos barcos, encalhados
Sobre a margem tranquila de um açude...

Vento - Roseana Murray

assim me chama o vento
me despenteia os cabelos
nas teias do precipício
a vida começa hoje
começa sempre
desde o nada até a medula
todos os dias
colar os ossos
e ouvir o ruído
subterrâneo de um rio
a vida começa hoje
sempre por um fio
a alma é um pêndulo
leva as horas
de encontro
às pedras.


Da voz das coisas - Fiama Hassa P. Brandão

Só a rajada de vento
dá o som lírico
às pás do moinho.

Somente as coisas tocadas
pelo amor das outras
têm voz.


Se eu soubesse brincar - Pedro Nava



Si eu tivesse seis anos se soubesse brincar
pedia ao Menino Jesus que viesse me dar
seus brinquedos coloridos

E ele dava mesmo dava tudo
dava brinquedos variados de todas as cores
brinquedos sortidos
dava bolas lustrosas pra mim soltar de noite
e mandar todas pro céu com minha reza

Dava bolas dava quitanda dava balas
e havia de ficar melado,
todo doce de minha baba.

E dava homenzinhos, arvinhas, bichinhos, casinhas
e em minhas mãos ingênuas
eu tirava o mundo novinho,
cheiroso de cola e verniz,
das caixas nurembergue
pra recomeçar deslumbrando
a brincadeira da vida

O Menino Jesus dava tudo se eu fosse menino
si soubesse brincar pra brincar com ele.



As lições - Ana Hatherly


 
Ensinaram-me a falar
aprendi a escrever.
Ensinaram-me a escrever
aprendi a falar.
Ensinaram-me a ler
aprendi a ver.
Ensinaram-me a ouvir
aprendi a calar.
Ensinaram-me a pedir
aprendi a dar.
Ensinaram-me a comprar
aprendi a ter.
Ensinaram-me a beber
aprendi a rir.
Ensinaram-me a fugir
aprendi a ficar.
Ensinaram-me a aprender
aprendi a ignorar.
Ensinaram-me a amar
aprendi a criar.
Ensinaram-me a viver
aprendi a morrer.
Ensinaram-me a estar só
aprendi a estar.
Ensinaram-me a ser livre
aprendi a ser.