A uma criança que dança no vento - William B. Yeats

Dança aí junto ao mar;
Que te importa
O rugido da água, o rugido do vento?
Sacode a tua cabeleira
Molhada de gotas de sal;
Tu que és tão jovem ignoras
O triunfo do néscio, não sabes
Que o amor mal se ganha e logo se perde,
Nem viste morrer o melhor operário
E todos os feixes por atar.
Por que hás-de temer
O terrível clamor dos ventos?


As mãos de meu pai - Mário Quintana


As tuas mãos têm grossas veias como cordas azuis
sobre um fundo de manchas já cor de terra
- como são belas as tuas mãos
pelo quanto lidaram, acariciaram
ou fremiram da nobre cólera dos justos...
Porque há nas tuas mãos, meu velho pai, essa beleza que se
chama simplesmente vida.

E, ao entardecer, quando elas repousam
nos braços da tua cadeira predileta,
uma luz parece vir de dentro delas...
Virá dessa chama que pouco a pouco, longamente, vieste
alimentando na terrível solidão do mundo,
como quem junta uns gravetos
e tenta acendê-los contra o vento?

Ah! Como os fizeste arder, fulgir, com o milagre das tuas mãos!
E é, ainda, a vida que transfigura as tuas mãos nodosas...
essa chama de vida - que transcende a própria vida
e que os Anjos, um dia, chamarão de alma.

Traduzir-se - Ferreira Gullar


Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?


O Cais - Mário Quintana

Naquele nevoeiro
Profundo profundo...
Amigo ou amiga,
Quem é que me espera?

Quem é que me espera,
Que ainda me ama,
Parado na beira
Do cais do outro mundo?

Amigo ou amiga
Que olhe tão fundo
Tão fundo em meus olhos
E nada me diga...

Que rosto esquecido...
Ou radiante face
Puro sorriso
De algum novo amor?!


dedicatória - Vera Lúcia de Oliveira

aos pingos
que tramam contra a maré
aos pingos que batem
nos vidros
e se trincam sem ruído
aos pingos como
leves
sulcos
com só no bojo
o instante do vinco

Mulher ao cair da tarde - Adélia Prado

Ó Deus, não me castigue se falo
minha vida foi tão bonita!
Somos humanos,
nossos verbos têm tempos,
não são como o Vosso, eterno.


Homero Frei


Entre uma voz que sonha e outra que sabe
O poema é apenas parte do silêncio
Que entra nos homens para que eles gritem
Que sai do poeta para que ele nasça
Ao fim do ramo das palavras mortas -
Terra, semente, sol e rosa!

Legenda - David Mourão-Ferreira


Nada garante que tu existas
Não acredito que tu existas

Só necessito que tu existas


O vento move-se - Wallace Stevens


Assim se move o vento:
como os pensamentos de um velho humano
que ainda pensa com fúria
e avidez.
Assim se move o vento:
como um humano sem ilusões
que ainda 
sente coisas irracionais dentro dele.
Assim se move o vento :
como humanos que orgulhosos se aproximam,
como humanos que em fúria se aproximam.
Assim se move o vento:
pesado e pesado, como um humano
que não se importa.


Quando chovia - Mauro Veras


Assim que as nuvens da alma
formavam seu nimbo precipitado em lágrimas,
parecia que a tarde caía
sem alarde, no céu dos dias

Não sei bem quantas chuvas fizeram morada
no passado, nem nas tristezas
que se acumularam em cúmulos não raros
cinzentos, prestes a desabar

O cinza azulado das promessas voláteis
e o bailado performático das gotas
num balé de passos rápidos e ágeis
tornavam a tristeza remota

e a alegria em fontes
trazia os dias mais frescos
trazia os dias
os dias

Enquanto a chuva lavava as faces,
vinda dos olhos do tempo,
meus olhos postavam as esperanças
advindas do desenlace dos tormentos
na linha do horizonte

Não lembro bem quais tristezas
tampouco lembro de mágoas
sequer da alegria intrínseca
ao espetáculo das águas

mas lembro bem que houve um tempo
em que tudo se resolvia num fim de tarde,
quando lágrimas caíam
sem alarde, no céu dos dias.



Poetas e insetos - Dora Ferreira da Silva

Gravamos nas folhas (como insetos)
signos arbitrários
futuros dicionários
para aprendizes de símbolos.

O céu é transparente como
as lentes dos óculos
e a terra se adorna
como as belas mulheres.

Subimos a escada platônica
descemos a escada plutônica
escrevendo entre dois amores
a modo de insetos nas folhas
para gerar sem fim
outras flores
outras fomes.


Memória - Cecília Meireles


Minha família anda longe
contravos de circunstâncias:
uns converteram-se em flores,
outros em pedra, água, líquen,
alguns, de tanta distância,
nem têm vestígios que indiquem
uma certa orientação.

Minha família anda longe,
- Na Terra, na Lua, em Marte -
uns dançando pelos ares,
outros perdidos no chão.

Tão longe, a minha família!
Tão dividida em pedaços!
Um pedaço em cada parte...
Pelas esquinas do tempo,
brincam meus irmãos antigos:
uns anjos, outros palhaços...
Seus vultos de labareda
rompem-se como retratos
feitos em papel de seda.
vejo lábios, vejo braços,
- por um momento, persigo-os;
de repente os mais exatos,
perdem a sua exatidão.
Se falo, nada responde.
Depois, tudo vira vento,
e nem o meu pensamento
pode compreender por onde
passaram nem onde estão.

Minha família anda longe.
Mas eu sei reconhecê-la:
um cílio dentro do Oceano...
um pulso sobre uma estrela,
uma ruga num caminho
caída como pulseira,
um joelho em cima da espuma,
um movimento sozinho
aparecido na poeira...
Mas tudo vai sem nenhuma
noção de destino humano,
de humana recordação.

Minha família anda longe.
reflete-se em minha vida,
mas não acontece nada:
por mais que eu esteja lembrada,
ela se faz de esquecida:
não há comunicação!
Uns são nuvem, outros lesma...
Vejo as asas, sinto os passos
de meus anjos e palhaços,
numa ambígua trajetória
de que sou o espelho e a história.
Murmúrio para mim mesma:
"É tudo imaginação!"

Mas sei que tudo é memória...


Bruma - Carl Sandburg


A bruma vem
Com passos de gato
Senta-se e olha
Para o porto e a cidade
E no silêncio das patas
Se move e se vai.

Confissão - Nuno Júdice



De um e outro lado do que sou,
da luz e da obscuridade,
do ouro e do pó,
ouço pedirem-me que escolha;
e deixe para trás a inquietação,
a dor,
um peso de não sei que ansiedade.

Mas levo comigo tudo
o que recuso. Sinto
colar-se-me às costas
um resto de noite;
e não sei voltar-me
para a frente, onde
amanhece.


Há uma rosa caída - Maria Ângela Alvim


Há uma rosa caída
Morta
Há uma rosa caída
Bela
Há uma rosa caída
Rosa


LUAR - Guimarães Rosa


De brejo em brejo,
os sapos avisam:
--A lua surgiu!...

No alto da noite as estrelinhas piscam,
puxando fios,
e dançam nos fios
cachos de poetas.

A lua madura
Rola,desprendida,
por entre os musgos
das nuvens brancas...
Quem a colheu,
quem a arrancou
do caule longo
da via-láctea?...

Desliza solta...

Se lhe estenderes
tuas mãos brancas,
ela cairá...


INSENSATEZ - Vinícius de Moraes

Ah, insensatez que você fez
Coração mais sem cuidado.
Fez chorar de dor o seu amor
Um amor tão delicado.
Ah, por que você foi tão fraco assim
Assim tão desalmado
Ah, meu coração, quem nunca amou
Não merece ser amado.
Vai, meu coração, ouve a razão
Usa só sinceridade
Quem semeia vento, diz a razão
Colhe sempre tempestade...
Vai, meu coração, pede perdão
Perdão apaixonado.
Vai, porque quem não pede perdão
Não é nunca perdoado.