Os olhos das crianças - Sidónio Muralha


Atrás dos muros altos com garrafas partidas
bem atrás das grades de silêncio imposto
as crianças de olhos de espanto e de medo transidas
as crianças vendidas alugadas perseguidas
olham os poetas com lágrimas no rosto.


Olham os poetas as crianças das vielas
mas não pedem cançonetas mas não pedem baladas
o que elas pedem é que gritemos por elas
as crianças sem livros sem ternura sem janelas
as crianças dos versos que são como pedradas.

Noite de Abril - Sophia de Mello B. Andresen


Hoje, noite de Abril sem lua,
A minha rua
É outra rua.

Talvez por ser mais que nenhuma escura
E bailar o vento leste,
A noite de hoje veste
As coisas conhecidas de aventura.

Uma rua nova destruiu a rua do costume.
Como se sempre nela houvesse este perfume
De Vento leste e Primavera,
A sombra dos muros espera
Alguém que ela conhece.
E às vezes o silêncio estremece
Como se fosse a hora de passar alguém
Que só hoje não vem.


NO ALTO MAR - Sophia de Mello Breyner Andresen


No alto mar
A luz escorre
Lisa sobre a água.
Planície infinita
Que ninguém habita.

O Sol brilha enorme
Sem que ninguém forme
Gestos na sua luz.

Livre e verde a água ondula
Graça que não modula
O sonho de ninguém.

São claros e vastos os espaços
Onde baloiça o vento
E ninguém nunca de delícia ou de tormento
Abre neles os seus braços.


Poemas de Abril - Sidónio Muralha

O barco era belo
rasgaram-lhe as velas,
intrusos cuspiram
no seu tombadilho
e o homem sem barco
seguiu pela estrada
com ondas redondas
rolando nos pés.

Gastou os sapatos
de tanto horizonte,
quis beijar a vida
ninguém o deixou,
quis comer, quis beber,
disseram que não,
sentiu-se doente
mas não tinha cama.

Soprou temporais
no sangue, nas veias,
e todo o seu corpo
foi fúria e foi quilha,
cercaram-no logo
com altos rochedos
e o homem sem barco
teve que evitá-los.

Na estrada sem nada
dos tristes humanos
com pernas-farrapos
o homem lá vai,
sem eira nem beira
de bolsos vazios
com os olhos ocos
marejados de mar.



Sentimento do mundo - Carlos Drummond de Andrade


Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo,
mas estou cheio de escravos,
minhas lembranças escorrem
e o corpo transige
na confluência do amor.
Quando me levantar, o céu
estará morto e saqueado,
eu mesmo estarei morto,
morto meu desejo, morto
o pântano sem acordes.
Os camaradas não disseram
que havia uma guerra
e era necessário
trazer fogo e alimento.
Sinto-me disperso,
anterior a fronteiras,
humildemente vos peço
que me perdoeis.
Quando os corpos passarem,
eu ficarei sozinho
desafiando a recordação
do sineiro, da viúva e do microscopista
que habitavam a barraca
e não foram encontrados
ao amanhecer
esse amanhecer
mais que a noite.


Charles Bukowski

Há um pássaro azul
no meu coração que quer sair
mas eu sou demasiado duro para ele,
e digo, fica aí dentro,
não vou deixar ninguém ver-te.
Há um pássaro azul
no meu coração que quer sair
mas eu sou demasiado esperto,
só o deixo sair à noite
por vezes quando todos estão a dormir.
digo-lhe, eu sei que estás aí,
por isso não estejas triste.
Depois, coloco-o de volta,
mas ele canta um pouco lá dentro,
não o deixei morrer de todo
e dormimos juntos assim
com o nosso pacto secreto
e é bom o suficiente
para fazer um homem chorar,
mas eu não choro,
e tu?


Sinfonia para pressa e presságio - Paulo Leminski

Escrevia no espaço.
Hoje, grafo no tempo,
na pele, na palma, na pétala,
luz do momento.
Sôo na dúvida que separa
o silêncio de quem grita
do escândalo que cala,
no tempo, distância, praça,
que a pausa, asa, leva
para ir do percalço ao espasmo.

Eis a voz, eis o deus, eis a fala,
eis que a luz se acendeu na casa
e não cabe mais na sala.

Paisagem da alma - Rubem Alves

 
A alma é uma paisagem.
As paisagens da alma não
podem ser comunicadas.
Quanto mais fundo entramos
nas paisagens da alma,
mais silenciosos ficamos.

 

Guimarães Rosa


A moça atrás da vidraça
espia o moço passar.
O moço nem viu a moça,
ele é de outro lugar.

O que a moça quer ouvir
o moço sabe contar:
ah, se ele a visse agora,
bem que havia de parar.

Atrás da vidraça, a moça
deixa o peito suspirar.
O moço passou depressa,
ou a vida devagar?




Libera Me - Carlos Queirós

Livrai-me, Senhor,
De tudo o que for
Vazio de amor.

Que nunca me espere
Quem bem me não quer
(Homem ou mulher).

Livrai-me também
De quem me detém
E graça não tem,

E mais de quem não
Possui nem um grão
De imaginação.

Emily Dickinson

Como se o Mar rompesse
Mostrando um outro Mar ―
E fosse ― um outro ― nesse
Mar ainda pré-formar ―

Mares do Mar ― que invade
As Praias singulares
De outros futuros Mares ―
Nestes ― a Eternidade ―


A rosa do mundo - William B. Yeats


Quem sonhou que a beleza passa como um sonho?
Por estes lábios vermelhos, com todo o seu magoado orgulho,
Tão magoados que nem o prodígio os pode alcançar,
Tróia desvaneceu-se em alta chama fúnebre,
E morreram os filhos de Usna.

Nós passamos e passa o trabalho do mundo:
Entre humanas almas que se agitam e quebram
Como as pálidas águas e seu fluxo invernal,
Sob as estrelas que passam, sob a espuma do céu,
Vive este solitário rosto.

Inclinai-vos, arcanjos, em vossa incerta morada:
Antes de vós, ou de qualquer palpitante coração,
Fatigado e gentil alguém esperava junto ao seu trono;
Ele fez do mundo um caminho de erva
Para os seus errantes pés.



Albano Martins


Quando uma abelha
se enamora,
nasce uma flor.

Orfeu rebelde - Miguel Torga



Orfeu rebelde, canto como sou;
Canto como um possesso
que na casca do tempo, a canivete,
gravasse a fúria de cada momento
Canto, a ver se o meu canto compromete
A eternidade do meu sofrimento

Outros, felizes, sejam rouxinóis
Eu ergo a voz assim, num desafio,
Que o céu e a terra, pedras conjugadas
Do moinho cruel que me tritura,
Saibam que há gritos como há nortadas,
Violências famintas de ternura.

Bicho instintivo que adivinha a morte
No corpo dum poeta que a recusa,
Canto como quem usa
Os versos em legítima defesa
Canto, sem perguntar à Musa
Se o canto é de terror ou de beleza.


Nas praias - Rabindranath Tagore



Nas praias de todos os mundos se reúnem as crianças.
O infinito céu se tranquiliza sobre suas cabeças;
A água impaciente faz remoinhos.
Nas praias de todos os mundos,
As crianças se reúnem, cantando e bailando.

Fazem castelos de areia e jogam com as conchinhas.
Seus barcos são folhas secas
E os lançam na vasta profundidade marinha,
Sem deixar de sorrir.
As crianças jogam em todas as praias de todos os mundos.

Não sabem nadar e não sabem jogar a rede.
Enquanto o pescador de pérolas se submerge
E o mercanceiro navega em seus navios,
As crianças retiram pedrinhas e as devolvem ao mar.
Não buscam tesouros ocultos e não sabem jogar a rede.

O mar se alvoroça em uma gargalhada
E brilha pálida, a praia em festa.
Ondas assassinas cantam às crianças
Baladas sem sentido,
Igual que uma mãe que balança um berço.
O mar joga com as crianças e
Oferece o pálido sorriso da areia.

Nas praias de todos os mundos se reúnem as crianças.
Deambula pelos céus, sem caminhos, a tempestade
E os barcos naufragam no mar sem rotas.
Anda solta a morte...
E as crianças jogam.
Nas praias de todos os mundos
Se reúnem em uma imensa festa,
Todas as crianças.