Amo as horas nocturnas - Rainer Maria Rilke

Amo as horas nocturnas do meu ser
em que se me aprofundam os sentidos;
nelas fui eu achar, como em cartas velhíssimas,
já vivida a vida dos meus dias
e como lenda longínqua e superada.

Delas eu aprendi que tenho espaço
para uma segunda vida, vasta e sem tempo.
E por vezes me sinto como a árvore
que, madura e rumorosa, sobre uma campa
realiza o sonho que o menino que foi
(em volta do qual se apertam suas raízes quentes)
perdeu em tristezas e canções.

Suzanne Vega - Caramel - Sessions At West 54th

No sul - Friedrich Nietzsche

Eis-me suspenso a um galho torto
E balançando aqui meu cansaço.
Sou convidado de um passarinho
E aqui repouso, onde está seu ninho.
Mas onde estou? Ai, longe, no espaço.

O mar, tão branco, dormindo absorto,
E ali, purpúrea, vai uma vela.
Penhascos, idílios, torres e cais,
Balir de ovelhas e figueirais.
Sul da inocência, me acolhe nela!

Só a passo e passo - é como estar morto,
O pé ante pé faz o alemão pesar.
Mandei o vento levar-me ao alto,
Aprendi com pássaros leveza e salto -
Ao sul voei, por sobre o mar.
[...]

Cantilena Para Um Tocador de Flauta Cego - Marguerite Yourcenar

Flauta da noite que se cerra,
Presença líquida de um pranto,
Todos os silêncios da terra
São as pérolas do teu canto.

Espalha teu pólen na alfombra
Do catre que por fim te açoite
Mel de uma boca de sombra
Como um beijo na boca da noite

E pois que as escalas que cansas
Nos dizem que o dia acabou,
Faz-nos crer que os céus dançam
Porque um cego cantou.

Moinho - Cassiano Ricardo

A esperança mói
A esperança dói.
A esperança mói,
a esperança
dói porque mói;
A esperança mói;
a esperança
dói porque dói.
A esperança mói
mói mói
dói.

Coisa miserável - Carlos Drummond de Andrade


Coisa miserável,
suspiro de angústia
enchendo o espaço,
vontade de chorar,
coisa miserável,
miserável.

Senhor, piedade de mim,
olhos misericordiosos
pousando nos meus,
braços divinos
cingindo meu peito,
coisa miserável
no pó sem consolo
consolai-me.

Mas de nada vale
gemer ou chorar,
de nada vale
erguer mãos e olhos
para um céu tão longe,
para um deus tão longe
ou, quem sabe? para um céu vazio.

É melhor sorrir
(sorrir gravemente)
e ficar calado
e ficar fechado
entre duas paredes,
sem a mais leve cólera
ou humilhação.

Requiem de Mozart - Lacrimosa - Karl Böhm - Filarmónica de Viena

Haiti - Nádia Dantas


O tremor. A poeira. Os escombros.
O gemido. O grito. A escuridão.
A ruína. O espanto. A desolação
O desamparo. A insegurança. A dor.
A fragilidade. A agonia. A morte.
A noite...
O silêncio...
A morte...
O silêncio.

Depois - Helena Kolody


Será sempre agora.
Viajarei pelas galáxias
universo afora.

Colhe o dia, porque és ele - Ricardo Reis/ Fernando Pessoa

Uns, com os olhos postos no passado,
Vêem o que não vêem: outros, fitos
Os mesmos olhos no futuro, vêem
O que não pode ver-se.

Por que tão longe ir pôr o que está perto —
A segurança nossa? Este é o dia,
Esta é a hora, este o momento, isto
É quem somos, e é tudo.

Perene flui a interminável hora
Que nos confessa nulos. No mesmo hausto
Em que vivemos, morreremos. Colhe
O dia, porque és ele.

Paisagem - Eunice Arruda

O sol se
põe

Girassóis olham o chão

O cavalo do mar - Lúcio Cardoso

Cavalga, cavalo,
o verde grande do mar.
Que seja roxa a espuma,
que seja pardo o luar
cavalga
cavalo
o verde tenso do mar.

É doido, escuro,
este pasto que luz
ao duro
sol do luar
- cavalga, cavalo,
cavalga infante e vassalo,
monstro azul
semilunar.

Alimária do existido,
em verde folha
parido -
reluz, ao teu cavalgar -

cavalo pardo e parado
animal imaginado

- o mar.

Minha terra - Caio Porfírio Carneiro

Minha terra
querida com laço de fita
eu rimaria sem pressa.
A minha terra é áspera
é tempo que se prolonga
desde avoengos tropéis
que o sopro do vento não mata
em espaço tão corrido
ao embalo desta rede.
Meu pé borrando a parede
e o ranger dos armadores
pra cá pra lá
pra lá pra cá
marca o tempo presente
tic-tac ao correr do tempo
que firma o mourão na terra
e com ela perpetua
currais porteiras campos
espelhos de águas tranqüilas
paredes buscando os céus
pé direito oito metros
janelas portas rangentes
alpendre aberto aos caminhos
retratos que fitam austeros
esperam muito de mim
e me eternizam aqui
na argila deste chão.

Jeito de mato - Paula Fernandes e Almir Sater

HAIKAI - Claudio Daniel


esse canto
é azul, azul, azul
quase branco

Imagem - Cecília Meireles


Tão brando é o movimento
das estrelas, da lua,
das nuvens e do vento,
que se desenha a tua
face no firmamento.

Desenha-se tão pura
como nunca a tiveste,
nem nenhuma criatura.
Pois é sombra celeste
da terrena aventura.

Como um cristal se aquieta
minha vida no sono,
venturosa e completa.
E teu rosto aprisiono
em grave luz secreta.

Teu silêncio em meu peito
de tal maneira existe,
reconhecido e aceito,
que chego a ficar triste
de vê-lo tão perfeito.

E não pergunto nada.
Espero que amanheça,
e a cor da madrugada
pouse na tua cabeça
uma rosa encarnada.

Fuga em azul menor - Cassiano Ricardo


O meu rosto de terra
ficará aqui mesmo
no mar ou no horizonte.
Ficará defronte
à casa onde morei.
Mas o meu rosto azul,
O meu rosto de viagem,
esse, irá pra onde irei.

Todo o mundo físico
que gorjeia lá fora
não me procure agora.
Embarquei numa nuvem
por um vão de janela
dos meus cinco sentidos.

E que adianta a alegria
dizer que estou presente
com o meu rosto de terra
se não estou em casa?

Inútil insistência.
Cortei em mim a cauda
das formas e das cores.
(A abstração é uma forma
de se inventar a ausência)
e estou longe de mim
nesta viagem abstrata
sem horizonte e fim.

Um dia voltarei
qual pássaro marítimo,
numa tarde bem mansa
à hora do sol posto.
Então, loura criança,
Ouvirás o meu ritmo
e me perguntarás:
quem és tu, pobre ser?
Mas, eu vim de tão longe
e tão azul de rosto
que não me podes ver.

A graça de quem mora
no país da ausência
certo consiste nisto:
ficar azul de rosto
pra não poder ser visto.

Nádia Dantas

lágrimas e chuva
mergulham na noite
silêncio e dor