A Poesia - Miguel Reale

A poesia é pena sem castigo
ou remorso sem sombra de pecado,
um amor solidário a toda gente
que dói desde a medula de teus ossos.

Poesia é um cantinho solitário
ou espuma de existência transbordante,
uma pluma que beija o cotidiano
ou uma chaga de luz não sei de onde.

Poesia é o caminho para o exílio
com saudade da terra de partida
quanto mais perto a terra prometida,

mas é também o derradeiro auxílio
que nos torna melhores de repente
ao percebermos que ela é a semente.

O acendedor de lampiões - Jorge de Lima

Lá vem o acendedor de lampiões da rua!
Este mesmo que vem infatigavelmente,
Parodiar o sol e associar-se à lua
Quando a sombra da noite enegrece o poente!

Um, dois, três lampiões, acende e continua
Outros mais a acender imperturbavelmente,
À medida que a noite aos poucos se acentua
E a palidez da lua apenas se pressente.

Triste ironia atroz que o senso humano irrita: —
Ele que doira a noite e ilumina a cidade,
Talvez não tenha luz na choupana em que habita.

Tanta gente também nos outros insinua
Crenças, religiões, amor, felicidade,
Como este acendedor de lampiões da rua.

Nostalgia - Li Bai

Sou um pessegueiro
florescendo no fundo de um poço.
Olho para quê, sorrio para quem?
És a Lua reluzindo no céu.
Breve foi o tempo debruçada sobre mim,
logo o afastamento, para sempre.
A espada de mais fina lâmina
não pode cortar em duas as águas de um rio.
Meu pensamento, como a água,
corre e te segue sempre.

Caetano Veloso & Jaques Morelenbaum - Pecado

Pensar no tempo - Walt Whitman

Pensar no tempo...pensar retrospectivamente,
Pensar no hoje...e nas eras e eras que estão por vir.

Teve a impressão que não seguiria em frente?
Já teve medo daqueles escaravelhos terrestres?
Teve medo do futuro não ser nada pra você?

Será que o hoje é o nada? Será nada o passado sem origem?
Se o futuro não é nada, eles podem ser nada também.

Pensar que o sol se ergueu no leste...
que homens e mulheres eram ágeis e reais e vivos...
que cada coisa era real e estava viva;
Pensar que você e eu não vemos
sentimos pensamos nem fazemos nossa parte,
Pensar que agora e aqui estamos fazendo nossa parte.

Nem um dia se passa...nem um minuto ou segundo sem um parto;
Nem um dia se passa...nem um minuto ou segundo sem um morto.

Quando as noites de tédio terminarem, junto com os dias de tédio,
Quando a irritação de tanto ficar na cama terminar,
Quando o médico, depois de muito vacilar,
dar o olhar silencioso e terrível como resposta,
Quando as crianças vieram correndo e chorando,
e os irmãos e irmãs levados para outro lugar,
Quando os remédios ficarem esquecidos na prateleira,
e o cheiro de cânfora invadir os quartos,
Quando a mão fiel dos vivos não desertar as do que estão morrendo,
Quando os lábios contorcidos pressionarem de leve
a testa do morimbundo,
Quando a respiração parar e o pulso do coração parar,
Então os membros do cadáver estirado na cama,
e os vivos olhando para eles,
São tão palpáveis como os vivos são palpáveis.
Os vivos olham pro cadáver com sua visão,
Mas sem visão morrem uma vida diferente
e olham curiosamente sobre o cadáver.

Balada da Chuva - J.G.de Araujo Jorge



A tarde se embaça: - um pingo, outro pingo
respinga um respingo de encontro à vidraça;
um pingo, outro pingo, e a chuva aumentando
e eu nada distingo,- respinga um respingo
tinindo, cantando de encontro à vidraça

A noite esta baça e a chuva enervante
batendo, batendo, constante, cantante
de encontro à vidraça

A terra se alaga o céu se nevoa,
e a chuva é uma vaga fininha, descendo,
parece garoa!
parece fumaça!
- e as águas subindo e as poças subindo
e a chuva descendo e a chuva não passa!

O dia surgindo, manhã turva e baça.
A chuva fininha miudinha, miudinha,
parece farinha lá fora caindo,
através da vidraça.

A tarde está escura, a noite está baça,
e as brumas de um tédio
de um tédio sem cura
talvez sem remédio
minha alma esfumaça:

- um dia, outro dia e os dias passando
em lenta agonia segunda a domingo;
um pingo, outro pingo,respinga um respingo,
batendo, cantando, mil dedos tocando
de encontro à vidraça...
-que chuva! que chuva!
e a chuva não passa!

Constante, cantante caindo distante
nas folhas molhadas,
nas poças paradas despidas e nuas,
e murmurejante rolando nas ruas;
-um pingo, outro pingo
na lata cantando goteira se abrindo
pingando, pingando
batendo, batendo
tinindo, tinindo

parece um tinido, de taça com taça,
e a chuva chovendo
e a chuva não passa!

O vento nas folhas de leve perpassa,
e as gotas nos fios rolando, escorrendo
lá fora estou vendo através da vidraça,
- que dias sem alma!
- que noites um graça!
e a chuva, que calma!
chovendo, chovendo
não passa! não passa!

A terra está envolta nas brumas de um véu,
de um véu de viúva que o dia escurece,
e a noite enfumaça.

- E' a chuva que chove, e do alto se solta
descendo, descendo, rolando, escorrendo
nos olhos do céu...
Nos olhos do céu e no olhar da vidraça!

-que chuva! que chuva! parece um dilúvio,
quem sabe? - parece que a chuva não passa!

O silêncio - Dora Ferreira da Silva

O silêncio tem uma porta
que se abre
para um silêncio maior:
antecâmara do último,
que anuncia outro depois.

Wim Mertens - We are the thieves

Martha Medeiros

foram tantas noites de insônia
roubando os poucos anos que tinha
perdi a conta dos prantos
contei carneiros e os dias
e os dias nunca passavam
ou passavam e eu não via
ficava um aperto no peito
nem tudo entendia como era
mas que era bonito eu sabia

Caleidoscópio - Helena Kolody



A cada giro de espelhos,
muda o vitral da vivência.
Não permanece a figura.
Nem um desenho regressa.

O albatroz - Charles Baudelaire

Às vezes, por prazer, os homens de equipagem
Pegam um albatroz, enorme ave marinha,
Que segue, companheiro indolente de viagem,
O navio que sobre os abismos caminha.

Mal o põem no convés por sobre as pranchas rasas,
Esse senhor do azul, sem jeito e envergonhado,
Deixa doridamente as grandes e alvas asas
Como remos cair e arrastar-se a seu lado.

Que sem graça é o viajor alado sem seu nimbo!
Ave tão bela, como está cômica e feia!
Um o irrita chegando ao seu bico em cachimbo,
Outro põe-se a imitar o enfermo que coxeia!

O poeta é semelhante ao príncipe da altura
Que busca a tempestade e ri da flecha no ar;
Exilado no chão, em meio à corja impura,
As asas de gigante impedem-no de andar.

Loreena McKennitt - Come By The Hills



Venha pelos montes, para onde a fantasia é livre
E permaneça onde os picos tocam o céu e as rochas encontram o mar
Onde os rios correm livres e a água é dourada no sol
E as preocupações de amanhã devem esperar até esse dia acabar

Venha pelso montes para onde a vida é uma música
E canta enquanto os pássaros enchem o ar com a sua alegria durante todo o dia
Onde as árvores balançam no compassso e até o vento cantam na melodia
E as preocupações de amanhã devem esperar até esse dia acabar

Venha pelos montes para a terra onde as lendas continuam vivas
Onde as histórias do velho agitam o coração e talvez ainda voltem novamente
Onde o passado foi perdido e o futuro ainda será ganhado
E as preocupações de amanhã devem esperar até esse dia acabar

Venha pelos montes, para onde a fantasia é livre
E permaneça onde os picos tocam o céu e as rochas encontram o mar
Onde os rios correm livres e a água é dourada no sol
E as preocupações de amanhã devem esperar até esse dia acabar

Formigas - Manoel de Barros

Não precisei de ler São Paulo, Santo Agostinho,
São Jerônimo, nem Tomás de Aquino,
nem São Francisco de Assis -
Para chegar a Deus.
Formigas me mostraram Ele.

A Chuva - Arnaldo Antunes



A chuva molhou os transeuntes. A chuva encharcou as
praças. A chuva enferrujou as máquinas. A chuva enfureceu
as marés. A chuva e seu cheiro de terra. A chuva com sua
cabeleira. A chuva esburacou as pedras. A chuva alagou a
favela. A chuva de canivetes. A chuva enxugou a sede. A
chuva anoiteceu de tarde. A chuva e seu brilho prateado. A
chuva de retas paralelas sobre a terra curva. A chuva
destroçou os guarda-chuvas. A chuva durou muitos dias. A
chuva apagou o incêndio. A chuva caiu. A chuva
derramou-se. A chuva murmurou meu nome. A chuva ligou
pára-brisa. A chuva acendeu os faróis. A chuva tocou a
sirene. A chuva com a sua crina. A chuva encheu a piscina.
A chuva com as gotas grossas. A chuva de pingos pretos.
A chuva açoitando as plantas. A chuva senhora da lama. A
chuva sem pena. A chuva apenas. A chuva empenou os
móveis. A chuva amarelou os livros. A chuva corroeu as
cercas. A chuva e seu baque seco. A chuva e seu ruído de
vidro. A chuva inchou o brejo. A chuva pingou pelo teto. A
chuva multiplicando insetos. A chuva sobre os varais. A
chuva derrubando raios. A chuva acabou a luz. A chuva
molhou os cigarros. A chuva mijou no telhado. A chuva
regou o gramado. A chuva arrepiou os poros. A chuva fez
muitas poças. A chuva secou ao sol.

Roseana Murray



Como se fosse fácil,
eu me divido em duas
e enquanto a metade fica
bordando invisíveis luares,
a outra, que também sou eu,
anda solta pelos mares.

E enquanto a metade fica
trançando o azul das tardes,
a outra, que também sou eu,
anda louca pelos ares.

Canção da janela aberta - Mário Quintana

Passa nuvem, passa estrela,
Passa a lua na janela...

Sem mais cuidados na terra,
Preguei meus olhos no Céu.

E o meu quarto, pela noite
Imensa e triste, navega...

Deito-me ao fundo do barco,
Sob os silêncios do Céu.

Adeus, Cidade Maldita,
Que lá se vai o teu Poeta.

Adeus para sempre, Amigos...
Vou sepultar-me no Céu!

Eis o pastor pequenino - Cecília Meireles

Eis o pastor pequenino,
muito menor que o rebanho,
a mirar,tímido e atento,
o crepúsculo no campo,
a abraçar-se ao cordeirinho
como irmão do seu tamanho.

Seus olhos são, no silêncio,
mais que de pastor - de santo.

O horizonte azul e verde
vai sendo roxo e amaranto,
e as nuvens todas se acabam,
e uma estrela vai chegando
- para levar o menino
que vai levando o rebanho.

marinha XXXII - Gabriel Bicalho


sem reta
nem rota
paira
sobre a
praia
meu sonho
gaivota

O vento - Dora Ferreira da Silva

Na palma do vento
pouso a fronte. Nele confio.
A quem confiaria senão a ele
este rude labor?

Abandono-me à tormenta
(lumes mastros
gaivotas do mar próximo).

Enreda-me a noite.
Mas dele são os dedos leves
que me fecham os olhos. E é manhã.

Dados biográficos / Carlos Drummond de Andrade

Mas que dizer do poeta
Numa prova escolar?
Que ele é meio pateta
E não sabe rimar?
Que veio de Itabira,
Terra longe e ferrosa?
E que seu verso vira,
De vez em quando, prosa?
Que é magro, calvo, sério
(na aparência) e calado,
com algo de minério
não de todo britado?
Que encontrou no caminho
Uma pedra e, estacando,
Muito riso escarninho
O foi logo cercando?
Que apesar dos pesares
Conserva o bom-humor
Caça nuvens nos ares,
Crê no bem e no amor?

Mas que dizer do poeta
Numa prova escolar
Em linguagem discreta
Que lhe saiba agradar?