A um poeta - Olavo Bilac

Longe do estéril turbilhão da rua,
Beneditino escreve! No aconchego
Do claustro, na paciência e no sossego,
Trabalha e teima, e lima, e sofre, e sua!

Mas que na forma se disfarce o emprego
Do esforço: e trama viva se construa
De tal modo, que a imagem fique nua
Rica mas sóbria, como um templo grego

Não se mostre na fábrica o suplício
Do mestre. E natural, o efeito agrade
Sem lembrar os andaimes do edifício:

Porque a Beleza, gêmea da Verdade
Arte pura, inimiga do artifício,
É a força e a graça na simplicidade.

Pirotecnia - Miguel Torga

Faço poemas de papel e tinta.
Sou fogueteiro destes artifícios.
Versos...
Girândolas de sonhos e cilícios
Alinhadas no chão
Das laudas de brancura onde me iludo.
Quando a noite é demais,
E o sol de nenhum mundo dá sinais,
Ardem dentro de mim, com lágrimas e tudo.

Explicação - Cecília Meireles



O pensamento é triste; o amor, insuficiente;
e eu quero sempre mais do que vem nos milagres.
Deixo que a terra me sustente:
guardo o resto para mais tarde.

Deus não fala comigo - e eu sei que me conhece.
A antigos ventos dei as lágrimas que tinha.
A estrela sobe, a estrela desce...
- espero a minha própria vinda.

(Navego pela memória
sem margens.
Alguém conta a minha história
e alguém mata os personagens.)

Rebecca - Michel Melamed

Há um barco no mar
e só
há um barco no mar
porque há
mar
Senão
seria apenas um barco no ar

Há um barco no ar
Porque se não houvesse ar
seria só um barco
só um homem num barco
só um homem sufocando num barco

Liberdade - Miguel Torga

Liberdade — Liberdade, que estais no céu...
Rezava o padre-nosso que sabia,
A pedir-te, humildemente,
O pio de cada dia.
Mas a tua bondade omnipotente
Nem me ouvia.

— Liberdade, que estais na terra...
E a minha voz crescia
De emoção.
Mas um silêncio triste sepultava
A fé que ressumava
Da oração.

Até que um dia, corajosamente,
Olhei noutro sentido, e pude, deslumbrado,
Saborear, enfim,
O pão da minha fome.
— Liberdade, que estais em mim,
Santificado seja o vosso nome.

É brando o dia, brando o vento - Fernando Pessoa

É brando o dia, brando o vento
É brando o sol e brando o céu.
Assim fosse meu pensamento!
Assim fosse eu, assim fosse eu!

Mas entre mim e as brandas glórias
Deste céu limpo e este ar sem mim
Intervêm sonhos e memórias...
Ser eu assim ser eu assim!

Ah, o mundo é quanto nós trazemos.
Existe tudo porque existo.
Há porque vemos.
E tudo é isto, tudo é isto!

Blowin' In The Wind - Katie Melua

Nádia Dantas



bailado no ar
entre o mar e as nuvens
o vento é canção

Não fora o mar! - Fernanda de Castro



Não fora o mar,
e eu seria feliz na minha rua,
neste primeiro andar da minha casa
a ver, de dia, o sol, de noite a lua,
calada, quieta, sem um golpe de asa.

Não fora o mar,
e seriam contados os meus passos,
tantos para viver, para morrer,
tantos os movimentos dos meus braços,
pequena angústia, pequeno prazer.

Não fora o mar,
e os seus sonhos seriam sem violência
como irisadas bolas de sabão,
efémero cristal, branca aparência,
e o resto — pingos de água em minha mão.

Não fora o mar,
e este cruel desejo de aventura
seria vaga música ao sol pôr
nem sequer brasa viva, queimadura,
pouco mais que o perfume duma flor.

Não fora o mar
e o longo apelo, o canto da sereia,
apenas ilusão, miragem,
breve canção, passo breve na areia,
desejo balbuciante de viagem.

Não fora o mar
e, resignada, em vez de olhar os astros
tudo o que é alto, inacessível, fundo,
cimos, castelos, torres, nuvens, mastros,
iria de olhos baixos pelo mundo.

Não fora o mar
e o meu canto seria flor e mel,
asa de borboleta, rouxinol,
e não rude halali, garra cruel,
Águia Real que desafia o sol.

Não fora o mar
e este potro selvagem, sem arção,
crinas ao vento, com arreio,
meu altivo, indomável coração,

Não fora o mar
e comeria à mão,
não fora o mar
e aceitaria o freio.

São plácidas todas as horas que nós perdemos - Ricardo Reis (Fernando Pessoa)



Mestre, são plácidas
Todas as horas
Que nós perdemos,
Se no perdê-las,
Qual numa jarra,
Nós pomos flores.

Não há tristezas
Nem alegrias
Na nossa vida.
Assim saibamos,
Sábios incautos,
Não a viver,

Mas decorrê-la,
Tranquilos, plácidos,
Lendo as crianças
Por nossas mestras,
E os olhos cheios
De natureza...

À beira-rio,
À beira-estrada,
Conforme calha,
Sempre no mesmo
Leve descanso
De estar vivendo.

O tempo passa,
Não nos diz nada.
Envelhecemos.
Saibamos, quase
Maliciosos,
Sentir-nos ir.

Não vale a pena
Fazer um gesto.
Não se resiste
Ao deus atroz
Que os próprios filhos
Devora sempre.

Colhamos flores.
Molhemos leves
As nossas mãos
Nos rios calmos,
Para aprendermos
Calma também.

Girassóis sempre
Fitando o sol,
Da vida iremos
Tranquilos, tendo
Nem o remorso
De ter vivido.

O tempo e o vento - Mário Quintana

Para Érico Veríssimo

Havia uma escada que parava de repente no ar
Havia uma porta que dava para não se sabe o quê
Havia um relógio onde a morte tricotava o tempo

Mas havia um arroio correndo entre os dedos buliçosos dos pés
E pássaros pousados na pauta dos fios de telégrafo

E o vento!

O vento vinha desde o principio do mundo
Estava brincando com seus cabelos...

A viagem - João Cabral de Melo Neto

Quem é alguém que caminha
toda a manhã com tristeza
dentro de minhas roupas, perdido
além do sonho e da rua?

Das roupas que vão crescendo
como se levassem nos bolsos
doces geografias, pensamentos
de além do sonho e da rua?

Alguém a cada momento
vem morrer no longe horizonte
de meu quarto, onde esse alguém
é vento, barco, continente.

Alguém me diz toda a noite
coisas em voz que não ouço.
Falemos na viagem, eu lembro.
Alguém me fala na viagem.

Retrato de uma criança com a flor na mão - Cecília Meireles

Quem lhe ensinara o sorriso
e a graça de assim ficar
com as luzes do paraíso
sustentadas no olhar?

Naquele instante divino,
com a tênue flor na mão.
recebeu seu destino
palma e galardão.

Não se repete na vida
a hora clara existida
livre de tempo e dor.

Era tão linda! E estou triste.
Deus, por que permitiste
sobrevivesse à flor?

Gal Costa - Antonico

Menos a mim - Ferreira Gullar

Conheço a aurora com seu desatino
Conheço o amanhecer com o seu tesouro
Conheço as andorinhas sem destino
Conheço rios sem desaguadouros
Conheço o medo do princípio ao fim
Conheço tudo, conheço tudo
Menos a mim.

Conheço o ódio e seus argumentos
Conheço o mar e suas ventanias
Conheço a esperança e seus tormentos
Conheço o inferno e suas alegrias
Conheço a perda do princípio ao fim
Conheço tudo, conheço tudo
Menos a mim.

Mas depois que chegaste de algum céu
Com teu corpo de sonho e margarida
Pra afinal revelar-me quem sou eu
Posso afirmar enfim
Que não conheço nada desta vida
Que não conheço nada, nada, nada
Nem mesmo a mim.

O segredo dos pássaros – Vieira Calado


O coração conhece o segredo dos pássaros,
a ânsia de horizontes para além do horizonte.

O segredo dos pássaros é uma centelha
de luz rebuscando a simplicidade duma vida

imagens móveis que alargam o nosso chão,
apenas em memórias difusas de exiguidade
e fantasmas de veludo passando mãos inertes
sobre o nosso rosto.

Ou labaredas azuis duma tarde quente
e o fio dum arco-íris
em suas cores de transparência e frio.

O coração conhece o segredo dos pássaros
e o seu degredo.


E eu apenas recomeço os trabalhos
da simplicidade da minha vida
e reconheço a sua exiguidade
guiada por horizontes de bruma.

http://vieiracalado-poesia.blogspot.com


HAIKAI - Millôr Fernandes



A alegria
É toda feita
De melancolia

Minha canção - Rabindranath Tagore

Minha canção te envolverá com sua música,
como os abraços sublimes do amor.
Tocará o teu rosto como um beijo de graças.
Quando estiveres só, se sentará a teu lado e te falará ao ouvido.
Minha canção será como asas para os teus sonhos
e elevará teu coração até o infinito.
Quando a noite escurecer o teu caminho,
minha canção brilhará sobre ti como a estrela fiel.
Se fixará nos teus lindos olhos
e guiará teu olhar até a alma das coisas.
Quando minha voz se calar para sempre,
minha canção te seguirá em teus pensamentos.

Rei - José Gomes Ferreira

Nasci rei de um reinado sem rei,
Num castelo sem cor e sem ponte,
Meus comandos nos quadros da lei
Mergulharam na cálida fonte.
Meus soldados de escudo no braço,
Nunca espada tiveram na mão,
Os tambores batidos no espaço
Percutiram lembranças em vão.
A princesa do rei tão silente
No castelo vivia sem dor,
Mas o reino do rei diferente
Tinha a cor do castelo sem cor.
Nasci rei de um reinado sem rei,
Sem comando, sem povo e sem lei.

Canção quase triste - Cecília Meireles

Brilhou a rosa
no espinhoso galho.
Quem a viu? Ninguém.

Nuvens muito altas
lágrimas de orvalho
deram-lhe: – de além.

Seca os teus olhos,
no amargo trabalho,
que a noite já vem.

Vê-te a ti mesmo,
sê teu agasalho,
pobre Pero Sem.