A João Cabral de Melo Neto
O chinês deitado
no campo. O campo é azul,
roxo também. O campo,
o mundo e todas as coisas
têm ar de um chinês
deitado e que dorme.
Como saber se está sonhando?
O sono é perfeito. Formigas
crescem, estrelas latejam,
Peixes são fluidos.
E árvores dizem qualquer coisa
que não entendes. Há um chinês
dormindo no campo. Há um campo
cheio de sono e antigas confidências.
Debruça-te no ouvido, ouve o murmúrio
do sono em marcha. Ouve a terra, as nuvens.
O campo está dormindo e forma um chinês
de suave rosto inclinado
no vão do tempo.
Deve chamar-se tristeza - Fernando Pessoa
Deve chamar-se tristeza
Isto que não sei que seja
Que me inquieta sem surpresa
Saudade que não deseja.
Sim, tristeza - mas aquela
Que nasce de conhecer
Que ao longe está uma estrela
E ao perto está não a Ter.
Seja o que for, é o que tenho.
Tudo mais é tudo só.
E eu deixo ir o pó que apanho
De entre as mãos ricas de pó.
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Fernando Pessoa
A vã pergunta - Vinícius de Moraes
Esta jovem pensativa, de olhos cor de mel
e de longas pestanas penumbrosas
Que está sentada junto àquele jovem triste
de largos ombros e rosto magro
É ela a amada dele e é ele o amado dela
e é a vida a sombra trágica dos seus gestos?
Este trem veloz cheio de homens indiferentes
e mulheres cansadas e crianças dormindo
Que atravessa esta paisagem desolada
de árvores esparsas em montes descarnados
É ele o movimento e é ela a fuga
e são eles o destino fugitivo das coisas?
Que dizem os lábios murmurantes dele
aos olhos desesperados dela?
Que pronunciam os lábios desesperados dela
aos olhos lacrimejantes dele?
Que pedem os olhos lacrimejantes dele
à paisagem fugindo?
Não são eles apenas uma só mocidade para o tempo
e um só tempo para a eternidade?
Não são seus sonhos um só impulso para o amor
e os seus suspiros um só anseio para a pureza?
Por que este transtorno de faces
e esta consumição de olhares como para nunca mais?
Não é um casto beijo isso que boia aos lábios dele
como um excedimento da sua alma?
Não é uma carícia isso que freme nas mãos dela
como um arroubo da sua inocência ?
Por que os sinos plangendo do fundo das consolações
como as vozes de aviso dos faróis perdidos?
É bem o amor essa insatisfação das esperanças?
e de longas pestanas penumbrosas
Que está sentada junto àquele jovem triste
de largos ombros e rosto magro
É ela a amada dele e é ele o amado dela
e é a vida a sombra trágica dos seus gestos?
Este trem veloz cheio de homens indiferentes
e mulheres cansadas e crianças dormindo
Que atravessa esta paisagem desolada
de árvores esparsas em montes descarnados
É ele o movimento e é ela a fuga
e são eles o destino fugitivo das coisas?
Que dizem os lábios murmurantes dele
aos olhos desesperados dela?
Que pronunciam os lábios desesperados dela
aos olhos lacrimejantes dele?
Que pedem os olhos lacrimejantes dele
à paisagem fugindo?
Não são eles apenas uma só mocidade para o tempo
e um só tempo para a eternidade?
Não são seus sonhos um só impulso para o amor
e os seus suspiros um só anseio para a pureza?
Por que este transtorno de faces
e esta consumição de olhares como para nunca mais?
Não é um casto beijo isso que boia aos lábios dele
como um excedimento da sua alma?
Não é uma carícia isso que freme nas mãos dela
como um arroubo da sua inocência ?
Por que os sinos plangendo do fundo das consolações
como as vozes de aviso dos faróis perdidos?
É bem o amor essa insatisfação das esperanças?
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Vinícius de Moraes
Ruço - Manuel Bandeira
Muda e sem trégua
Galopa a névoa, galopa a névoa.
Minha janela desmantelada
Dá para o vale do desalento.
Sombrio vale! Não vejo nada
Senão a névoa que toca o vento.
Lá vão os dias de minha infância
- Imagens rotas que se desmancham:
O vento do largo na praia,
o meu vestidinho de saia,
Aquele corvo, o vôo torvo,
O meu destino, aquele corvo!
O que eu cuidava do mundo mau!
Os ladrões com cara de pau!
As histórias que se faziam sonhar;
E os livros: Simplício olha para o ar,
João Felpudo, Viagem à roda do mundo
Numa casquinha de noz.
A nossa infância, ó minha irmã, tão longe de nós!
Galopa a névoa, galopa a névoa.
Minha janela desmantelada
Dá para o vale do desalento.
Sombrio vale! Não vejo nada
Senão a névoa que toca o vento.
Lá vão os dias de minha infância
- Imagens rotas que se desmancham:
O vento do largo na praia,
o meu vestidinho de saia,
Aquele corvo, o vôo torvo,
O meu destino, aquele corvo!
O que eu cuidava do mundo mau!
Os ladrões com cara de pau!
As histórias que se faziam sonhar;
E os livros: Simplício olha para o ar,
João Felpudo, Viagem à roda do mundo
Numa casquinha de noz.
A nossa infância, ó minha irmã, tão longe de nós!
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Manuel Bandeira
Pela flor amarela viajaremos - Cecília Meireles
Pela flor amarela viajaremos:
afastaremos as nuvens espessas
e as florestas de espinhos.
Pela flor amarela, vamos e voltamos,
por escadas escuras, corredores estreitos,
falando a desconhecidos.
Onde está, dizei-nos, a flor amarela?
Era minha? era vossa? era do seu próprio instante,
era sua, cativa por algum caçador floral?
Pela flor amarela atravessaremos a pedra,
o vidro, o metal, as palavras.
Atravessaremos o coração, como quem se mata.
Atravessaremos um novo mar desconhecido,
correremos Áfricas e Ásias, pólo e trópico,
e jogaremos nossa vida entre as estrelas.
A flor amarela está guardada em si mesma,
seu perfume, sob mil pétalas tranqüilas,
seu pólen resguardado contra o vão descobrimento.
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Cecília Meireles
A avenida das lágrimas - Olavo Bilac
A um Poeta morto
Quando a primeira vez a harmonia secreta
De uma lira acordou, gemendo, a terra inteira,
- Dentro do coração do primeiro poeta
Desabrochou a flor da lágrima primeira.
E o poeta sentiu os olhos rasos de água;
Subiu-lhe à boca, ansioso, o primeiro queixume:
Tinha nascido a flor da Paixão e da Mágoa,
Que possui, como a rosa, espinhos e perfume.
E na terra, por onde o sonhador passava,
Ia a roxa corola espalhando as sementes:
De modo que, a brilhar, pelo solo ficava
Uma vegetação de lágrimas ardentes.
Foi assim que se fez a Via Dolorosa,
A avenida ensombrada e triste da Saudade,
Onde se arrasta, à noite, a procissão chorosa
Dos órgãos do carinho e da felicidade.
Recalcando no peito os gritos e os soluços,
Tu conheceste bem essa longa avenida,
- Tu que, chorando em vão, te esfalfaste, de bruços,
Para, infeliz, galgar o Calvário da Vida.
Teu pé também deixou um sinal neste solo;
Também por este solo arrastaste o teu manto...
E, ó Musa, a harpa infeliz que sustinhas ao colo,
Passou para outras mãos, molhou-se de outro pranto.
Mas tua alma ficou, livre da desventura,
Docemente sonhando, às delícias da lua:
Entre as flores, agora, uma outra flor fulgura,
Guardando na corola uma lembrança tua...
O aroma dessa flor, que o teu martírio encerra,
Se imortalizará, pelas almas disperso:
- Porque purificou a torpeza da terra
Quem deixou sobre a terra uma lágrima e um verso.
Quando a primeira vez a harmonia secreta
De uma lira acordou, gemendo, a terra inteira,
- Dentro do coração do primeiro poeta
Desabrochou a flor da lágrima primeira.
E o poeta sentiu os olhos rasos de água;
Subiu-lhe à boca, ansioso, o primeiro queixume:
Tinha nascido a flor da Paixão e da Mágoa,
Que possui, como a rosa, espinhos e perfume.
E na terra, por onde o sonhador passava,
Ia a roxa corola espalhando as sementes:
De modo que, a brilhar, pelo solo ficava
Uma vegetação de lágrimas ardentes.
Foi assim que se fez a Via Dolorosa,
A avenida ensombrada e triste da Saudade,
Onde se arrasta, à noite, a procissão chorosa
Dos órgãos do carinho e da felicidade.
Recalcando no peito os gritos e os soluços,
Tu conheceste bem essa longa avenida,
- Tu que, chorando em vão, te esfalfaste, de bruços,
Para, infeliz, galgar o Calvário da Vida.
Teu pé também deixou um sinal neste solo;
Também por este solo arrastaste o teu manto...
E, ó Musa, a harpa infeliz que sustinhas ao colo,
Passou para outras mãos, molhou-se de outro pranto.
Mas tua alma ficou, livre da desventura,
Docemente sonhando, às delícias da lua:
Entre as flores, agora, uma outra flor fulgura,
Guardando na corola uma lembrança tua...
O aroma dessa flor, que o teu martírio encerra,
Se imortalizará, pelas almas disperso:
- Porque purificou a torpeza da terra
Quem deixou sobre a terra uma lágrima e um verso.
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Jardim - Roseana Murray
Infinito é o jardim
das delicadezas,
semeado desde
o primeiro dia do mundo.
Há que alimentá-lo,
hora por hora,
com palavras e gestos
e pedaços de alma.
Há que ser incansável
jardineiro:
para este jardim
cada sorriso é um sol.
das delicadezas,
semeado desde
o primeiro dia do mundo.
Há que alimentá-lo,
hora por hora,
com palavras e gestos
e pedaços de alma.
Há que ser incansável
jardineiro:
para este jardim
cada sorriso é um sol.
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Poda da amendoeira - Gabriela Mistral
A amendoeira eu podo e o céu vejo
com as minhas mãos enfim purificadas,
como se apalpam as faces amadas
com o semblante enlevado do desejo.
Como crio na estrofe mais sincera
em que o meu sangue vivo há de correr,
preparo o coração pra receber
o sangue imenso que há na Primavera.
Dá o meu peito à árvore o seu latido
e escuta o tronco, na seiva escondido,
meu coração como um cinzel profundo.
Os que me amavam julgam-me perdida
e é só o meu peito, aí sustido
na amendoeira, a minha entrega ao mundo.
com as minhas mãos enfim purificadas,
como se apalpam as faces amadas
com o semblante enlevado do desejo.
Como crio na estrofe mais sincera
em que o meu sangue vivo há de correr,
preparo o coração pra receber
o sangue imenso que há na Primavera.
Dá o meu peito à árvore o seu latido
e escuta o tronco, na seiva escondido,
meu coração como um cinzel profundo.
Os que me amavam julgam-me perdida
e é só o meu peito, aí sustido
na amendoeira, a minha entrega ao mundo.
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Gabriela Mistral
Crepuscular - Fernando Py
O vento frio
de beira-mar
me envolve qual
diáfano abraço
e no arrepio
sinto meu corpo
todo encolher-se
aos grãos de sal
de úmido gosto
e já se esvai
de mim o dentro
e os lábios sinto
secos ao ar
e me estremeço
à aura marinha
e me reduzo
à só matéria
e denso desço
à noite em mim
enrodilhado
na areia inerte
e já me aqueço
volvido ao centro
branco do Nada.
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Fernando Py
Ao Sol - Dora Ferreira da Silva
Naufragas na noite
em pompas de luz e imensidade
todo germe palpita na semente
e da nova manhã ressurges
clara divindade
nua a carnação sob o manto escarlate.
em pompas de luz e imensidade
todo germe palpita na semente
e da nova manhã ressurges
clara divindade
nua a carnação sob o manto escarlate.
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Dora Ferreira da Silva
As chuvas - H. Dobal
Nas mãos do vento as chuvas amorosas
vinham cair nos campos de dezembro,
e de repente a vida rebentava
na força muda que as sementes guardam.
Nas ramas verdes rebentava a luz
e a doçura do tempo transformava
a terra e o gado na pastagem tenra,
na alegria dos rios renovados.
Cheiro de mato e de currais suspensos
no ar que os dedos do inverno vão tecendo
mais uma vez nos campos de dezembro.
E nos trovões a tarde acalentada,
cantigas de viver que a chuva traz
numa clara certeza repetida.
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H. Dobal
Os sinais - Lêdo Ivo
Saibam quantos vivem
neste mundo imenso:
Deus nao cheira a incenso.
É no estrume fresco
e na alga viscosa
que devemos ver
os sinais divinos
com os olhos de quando
éramos meninos.
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Lêdo Ivo
As nuvens e os sonhos - Mário Quintana
Ah! Essas esculturas de gaze do vento,
Sempre errantes entre o céu e a terra,
Como nos sonhos dos homens.
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Mário Quintana
Alumbramento - Manuel Bandeira
Eu vi os céus! Eu vi os céus!
Oh, essa angélica brancura
Sem tristes pejos e sem véus!
Nem uma nuvem de amargura
Vem a alma desassossegar.
E sinto-a bela... e sinto-a pura...
Eu vi nevar! Eu vi nevar!
Oh, cristalizações da bruma
A amortalhar, a cintilar!
Eu vi o mar! Lírios de espuma
Vinham desabrochar à flor
Da água que o vento desapruma...
Eu vi a estrela do pastor...
Vi a licorne alvinitente!...
Vi... vi o rastro do Senhor!...
E vi a Via Láctea ardente...
Vi comunhões... capelas... véus...
Súbito... alucinadamente...
Vi carros triunfais... troféus...
Pérolas grandes como a lua...
Eu vi os céus! Eu vi os céus!
- Eu vi-a nua... toda nua!
Oh, essa angélica brancura
Sem tristes pejos e sem véus!
Nem uma nuvem de amargura
Vem a alma desassossegar.
E sinto-a bela... e sinto-a pura...
Eu vi nevar! Eu vi nevar!
Oh, cristalizações da bruma
A amortalhar, a cintilar!
Eu vi o mar! Lírios de espuma
Vinham desabrochar à flor
Da água que o vento desapruma...
Eu vi a estrela do pastor...
Vi a licorne alvinitente!...
Vi... vi o rastro do Senhor!...
E vi a Via Láctea ardente...
Vi comunhões... capelas... véus...
Súbito... alucinadamente...
Vi carros triunfais... troféus...
Pérolas grandes como a lua...
Eu vi os céus! Eu vi os céus!
- Eu vi-a nua... toda nua!
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Noite - Cecília Meireles
Úmido gosto de terra,
cheiro de pedra lavada,
– tempo inseguro do tempo! –
sobra do flanco da serra,
nua e fria, sem mais nada.
Brilho de areias pisadas,
sabor de folhas mordidas,
– lábio da voz sem ventura! –
suspiro das madrugadas
sem coisas acontecidas.
A noite abria a frescura
dos campos todos molhados,
– sozinho, com o seu perfume! –
preparando a flor mais pura
com ares de todos os lados.
Bem que a vida estava quieta.
Mas passava o pensamento...
– de onde vinha aquela música?
E era uma nuvem repleta
entre as estrelas e o vento.
cheiro de pedra lavada,
– tempo inseguro do tempo! –
sobra do flanco da serra,
nua e fria, sem mais nada.
Brilho de areias pisadas,
sabor de folhas mordidas,
– lábio da voz sem ventura! –
suspiro das madrugadas
sem coisas acontecidas.
A noite abria a frescura
dos campos todos molhados,
– sozinho, com o seu perfume! –
preparando a flor mais pura
com ares de todos os lados.
Bem que a vida estava quieta.
Mas passava o pensamento...
– de onde vinha aquela música?
E era uma nuvem repleta
entre as estrelas e o vento.
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Sei um ninho - Miguel Torga
E o ninho tem um ovo.
E o ovo, redondinho,
Tem lá dentro um passarinho
Novo.
Mas escusam de me atentar:
Nem o tiro, nem o ensino.
Quero ser um bom menino
E guardar
Este segredo comigo.
E ter depois um amigo
Que faça o pino
A voar...
E o ovo, redondinho,
Tem lá dentro um passarinho
Novo.
Mas escusam de me atentar:
Nem o tiro, nem o ensino.
Quero ser um bom menino
E guardar
Este segredo comigo.
E ter depois um amigo
Que faça o pino
A voar...
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A pipa e o vento - Cleonice Rainho
Aprumo a máquina,
dou linha à pipa
e ela sobe alto
pela força do vento.
O vento é feliz
porque leva a pipa,
a pipa é feliz
porque tem o vento.
Se tudo correr bem,
pipa e vento,
num lindo momento,
vão chegar ao céu.
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