HAIKAI - Estrela Ruiz Leminski



A pipa corta o céu.
Desenha nas nuvens
O sonho de criança.

O dia seguinte ao amor - Mário Quintana



Quando a luz estender as roupas nos telhados
E for todo o horizonte um frêmito de palmas
E junto ao leito fundo de nossas duas almas,
Chamarem nossos corpos nus, entrelaçados,

Seremos, na manhã, duas máscaras calmas e felizes,
De grandes olhos claros e rasgados...
Depois, volvendo ao sol as nossas quatro palmas,
Encheremos o céu de voos encantados!...

E as rosas da cidade inda serão mais rosas.
Serão todas felizes sem saber por quê...
Até os cegos, os entrevadinhos… E

Vestidos contra o azul de tons vibrantes e violentos,
Nós improvisaremos danças espantosas,
Sobre os telhados altos, entre o fumo e os cata-ventos!

Sarah McLachlan - Angel

Dá-me a tua mão - Clarice Lispector


Dá-me a tua mão:
Vou agora te contar
como entrei no inexpressivo
que sempre foi a minha busca cega e secreta.
De como entrei
naquilo que existe entre o número um e o número dois,
de como vi a linha de mistério e fogo,
e que é linha sub-reptícia.

Entre duas notas de música existe uma nota,
entre dois fatos existe um fato,
entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam
existe um intervalo de espaço,
existe um sentir que é entre o sentir
- nos interstícios da matéria primordial
está a linha de mistério e fogo
que é a respiração do mundo,
e a respiração contínua do mundo
é aquilo que ouvimos
e chamamos de silêncio.

Ana Cristina César



Tenho uma folha branca
....e limpa à minha espera:
mudo convite.
tenho uma cama branca
....e limpa à minha espera:
mudo convite.
tenho uma vida branca
....e limpa à minha espera.

Canção do ver (1) - Manoel de Barros



Por viver muitos anos dentro do mato
moda ave
O menino pegou um olhar de pássaro –
Contraiu visão fontana.
Por forma que ele enxergava as coisas
por igual
como os pássaros enxergam.
As coisas todas inominadas.
Água não era ainda a palavra água.
Pedra não era ainda a palavra pedra.
E tal.
As palavras eram livres de gramáticas e
podiam ficar em qualquer posição.
Por forma que o menino podia inaugurar.
Podia dar às pedras costumes de flor.
Podia dar ao canto formato de sol.
E, se quisesse caber em uma abelha,
era só abrir a palavra abelha
e entrar dentro dela.
Como se fosse a infância da língua.

Simply Red - Holding Back The Years

HAIKAI - A. Peralva



Nas árvores despidas,
folhas se espalham
pelos caminhos da vida...

Navegação - Cecília Meireles



Éramos feitos de um leite casto,
repleto de suspiros.

Feitos de canções docemente entoadas
sob vagas iluminações.

De brinquedos poéticos,sob estrelas,
em varandas e laranjais.

Tínhamos olhos cheios de flores e pássaros,
a boca de preces, a testa de beijos.

Pisávamos no mundo com leveza de anjo,
e iríamos, certamente, para além do horizonte.

Escolhíamos as palavras de dizer,com grande enlevo,
porque falar já era ser.

Amávamos na viagem a estrela que ia na proa
tanto como a espuma que nos fugia.

Com tantos ontens e amanhãs, não combatíamos pelo hoje.
Ele ia sendo por si, harmonioso, entre uns e outros.

E éramos tudo, divinamente, com gracioso esquecimento.
E nem tomávamos, porque éramos de dar.

Assim morremos, dos contrastes que matam os homens.



Prece - Rabindranath Tagore



Que a minha prece seja,
não para ser protegido dos perigos,
mas para não ter medo de enfrentá-los.

Que a minha prece seja,
não para acalmar a dor,
mas para que o coração a conquiste.

Permita que na batalha da vida
não procure aliados,
mas as minhas próprias forças.

Permita que não implore no meu medo,
ansioso por ser salvo,
mas que aguarde a paciência para
conquistar a minha liberdade.

HAIKAI - Rodrigo de Almeida Siqueira



Rio seco
silêncio sob a ponte
apenas o vento.

Círculo - Lya Luft



Na vida na morte
esta chama, esta fonte,
esta noite invadida:
seus panos na cama
seus passos na casa
sua voz ao meu lado,
meu bem no seu mundo
varando meu peito:
me povoa, me coroa
de beijos e mágoas
me prende em sua rede,
me define, me redime
me inventa e desinventa
me habita e transfigura,
no ritmo das águas
deste rio sem fundo
que chama na fonte
da morte, na vida.

Ana Moura- Os Búzios

Poema 6 - Inez Andrade Paes


chegaria sem ti
se a estrada não fosse tão longa
e ao longe não visse senão
o horizonte a tremer

meu andar confunde-se com a poeira
entre passadas duras a cambar
de desespero por te encontrar

chegaria sem ti
se a estrada não fosse tão longe
com pedras de bicos entre meus ossos
e o capim raso e seco sem chuva a amaciar

gostava de chegar até ti
se a estrada não fosse tão comprida
como o fio de arame que desenrola
sem curvas visíveis e outras a apertar

chegaria até ti
se a estrada não prendesse meu cabelo
nos ramos do embondeiro e me quisesse lá

chegaria por ti
assim a estrada abrisse
para começar a andar

chego até ti
mas não te vejo
para recomeçar

ASAS - Glória de Sant'Anna

 dentro da ramaria
um passarito
por mim chama

(não sei como se chama)

dentro da ramaria
se derrama
num intenso trinado

e por mim chama
para voar

não sabe o probrezito
cantando na ramaria

que as minhas asas
já foram arrancadas
por densos temporais
de mares de palavras
e de lágrimas

não sabe o pobrezito

e me chama
e se derrama
no intenso trinado
e canta canta

e se desfaz
para a noite que avança


Chopin - Nocturne for piano and violin

Oração ao sol de amanhã - Elisa Lucinda



Preciso sonhar um sonho novo,
Preciso saber perder um velho sonho,
Preciso gerar um novo sonho
E crer nas sempre novas possibilidades
Que o que há de vir me oferece.
Preciso encontrar o que mereço em outro endereço,
E que seja logo, que seja breve.
Preciso daquela esperança de um dia após o outro
Que a travessia do tempo me concede.
Ó futuro, não me deserde!

Helena kolody



A cada oscilar do pêndulo
algo se apaga
ou para nós termina.

De segundo em segundo,
algo germina
ou para nós floresce.

Serena - Henriqueta Lisboa



Essa ternura grave
que me ensina a sofrer
em silêncio, na suavi-
dade do entardecer,
menos que pluma de ave
pesa sobre meu ser.
E só assim, na levi-
tação da hora alta e fria,
porque a noite me leve,
sorvo, pura, a alegria,
que outrora, por mais breve,
de emoção me feria.

Encorajamento - Sidónio Muralha



... E a poesia lá vai - tão amada e detestada -
livre, como se marchasse nua contra o vento,
vai levar aos que se cansam da longa caminhada
a água pura e fresca do encorajamento.

E ela lá vai... Lá vai, e luta, quer queiram ou não,
contra a lassidão e a doença do sono,
e a quem tiver sede oferece a canção
do futuro sem grades e dos homens sem dono.