Domingo - Fabrício Carpinejar

As garças capinavam
as águas.

A saliva das aves
movia o motor
do riacho.

Epístola para os meus medos - Fiama Hassa P. Brandão


Sois: os sons roucos, a espera vã, uma perdida imagem.
O coração suspende o seu hálito e os lábios tremem
sinto-vos, vindes ao rés da terra, como ventos baixos,
poisais no peitoril. Sois muito antigos e jovens,
da infância em que por vós chorava encostada a um rosto.
Que saudade eu tenho, ó escuridão no poço,
ó rastejar de víboras nos caniços, ó vespa
que, como eu, degustaste o figo úbere.
Depois, mundo maior foi a presença e a ausência,
a alegria e as dores de outros que não eu.
E um dia, no alto da catedral de Gaudí,
chorei de horror da Queda, como os caídos anjos.

Bill Douglas - "Deep Peace" - Jewel Lake - Irish blessing

A vida vivida - Vinícius de Moraes


Quem sou eu senão um grande sonho obscuro
em face do Sonho
Senão uma grande angústia obscura
em face da Angústia
Quem sou eu senão a imponderável árvore
dentro da noite imóvel
E cujas presas remontam ao mais triste fundo da terra?
De que venho senão da eterna caminhada de uma sombra
Que se destrói à presença das fortes claridades
Mas em cujo rastro indelével repousa a face do mistério
E cuja forma é prodigiosa treva informe?


Que destino é o meu senão o de assistir ao meu Destino
Rio que sou em busca do mar que me apavora
Alma que sou clamando o desfalecimento
Carne que sou no âmago inútil da prece?
O que é a mulher em mim senão o Túmulo
O branco marco da minha rota peregrina
Aquela em cujos abraços vou caminhando para a morte
Mas em cujos braços somente tenho vida?

O que é o meu Amor, ai de mim! senão a luz impossível
Senão a estrela parada num oceano de melancolia
O que me diz ele senão que é vã toda a palavra
Que não repousa no seio trágico do abismo?
O que é o meu Amor? senão o meu desejo iluminado
O meu infinito desejo de ser o que sou acima de mim mesmo
O meu eterno partir da minha vontade enorme de ficar
Peregrino, peregrino de um instante,
Peregrino de todos os instantes.
A quem respondo senão a ecos, a soluços, a lamentos
De vozes que morrem no fundo do meu prazer ou do meu tédio
Qual é o meu ideal senão fazer do céu poderoso
a Língua
Da nuvem a Palavra imortal cheia de segredo
E do fundo do inferno delirantemente proclamá-los
Em Poesia que se derrame como sol ou como chuva?


O que é o meu ideal senão o Supremo Impossível
Aquele que é, só ele, o meu cuidado e o meu anelo
O que é ele em mim senão o meu desejo de encontrá-lo
E o encontrando, o meu medo de não o reconhecer?
O que sou eu senão ele, o Deus em sofrimento
o temor imperceptível na voz portentosa do vento
O bater invisível de um coração no descampado ...
que sou eu senão Eu Mesmo em face de mim?

Falaram-me os homens em humanidade - Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)


Falaram-me os homens em humanidade,
Mas eu nunca vi homens nem vi humanidade.
Vi vários homens assombrosamente diferentes entre si.
Cada um separado do outro por um espaço sem homens.

Nas águas... Antonio Carlos Secchin



Nas águas se calava a terra,
e as pedras se arrastavam às eras
desatadas pelo arco exato dos rios.

Sobre as águas passaram
o perfil das aves ciganas,
o nome noturno dos mastros.

Viagem no espelho - Roseana Murray


Espelho, espelho meu
Diga a verdade
Quem sou eu?
Se às vezes me estilhaço
Se às vezes viro mil
Se quero mudar o mundo
Se quero mudar o rosto
Se tenho sempre na boca
Um gosto de água e de céu.
Se às vezes sou tão só
Quando me viro do avesso.
Se às vezes anoiteço
Em plena luz do sol
Ou então amanheço
Com vontade de voar.
Espelho, espelho meu
Diga a verdade, quem sou eu?

Mar em Redor - Cecília Meireles


Meus ouvidos estão como as conchas sonoras:
música perdida no meu pensamento,
na espuma da vida, na areia das horas...

Esqueceste a sombra do vento.
Por isso, ficaste e partiste,
e há finos deltas de felicidade
abrindo os braços num oceano triste.

Soltei meus anéis nos além da saudade.
Entre algas e peixes vou flutuando a noite inteira.
Almas de todos os afogados
chamam para diversos lados
esta singular companheira.

Cantiga de embalar – António de Sousa Freitas


Embala-me, embala-me,
E canta-me cantigas,
Cantigas antigas de embalar meninos.
- Que a tua voz seja um cântico
Onde a minha alma descanse
E alcance os seus destinos.

Que tenha sonhos brancos e suaves,
Aves roçando leve o meu sonhar
Embalando breve, junto a ti, sonhando.
- Ó noite velha, sem estrelas e sem lua,
Nua e tua sinto bem minha alma
Na calma de um lugar agónico e brando.

E canta, canta, meu amor, encanta
Com essa tua voz sonhada e benta,
E lenta, lenta, meu amor, tão lenta.
- Deixa correr a vida! Que importa a vida,
Se no ponto da partida
No teu canto o meu anseio se atormenta!?

Os velhos - Paulo Hecker Filho

Os velhos persistem no vazio.
Mas os velhos se perdoam.
Quem não perdoa é quem olha
e vê a vida acabar assim.

Clarice Lispector


Debussy usa as espumas do mar morrendo na areia,
refluindo e fluindo.
Bach é matemático.
Mozart é o divino impessoal.
Chopin conta a sua vida mais íntima.
Schoenberg, através de seu eu,
atinge o clássico eu de todo o mundo.
Beethoven é a emulsão humana em tempestade
procurando o divino e só o alcançando na morte.
Quanto a mim, que não peço música,
só chego ao limiar da palavra nova.
Sem coragem de expô-la.
Meu vocabulário é triste e às vezes
wagneriano-polifônico-paranóico.
Escrevo muito simples e muito nu. Por isso fere.
Sou uma paisagem cinzenta e azul.
Elevo-me na fonte seca e na luz fria.

Vive sem horas - Ricardo Reis (Fernando Pessoa)


Vive sem horas. Quanto mede pesa,
E quanto pensas mede.
Num fluido incerto nexo, como o rio
Cujas ondas são ele,
Assim teus dias vê, e se te vires
Passar, como a outrem, cala.

Martin Villiger

E o caminho? - Humberto Ak'abal


Atrás de nós ficava longe o amanhecer
e adiante a tarde já se havia ido,
a noite era uma montanha com estrelas.

Assim que havíamos alcançado o outro lado
quando às nossas costas
o vento gritou de medo
e o caminho desapareceu.

Um boi vê os homens - Carlos Drummond de Andrade


Tão delicados (mais que um arbusto) e correm
e correm de um para o outro lado,
sempre esquecidos de alguma coisa.

Certamente falta-lhes não sei que atributo essencial,
posto se apresentem nobres e graves, por vezes.
Ah, espantosamente graves, até sinistros.

Coitados, dir-se-ia que não escutam
nem o canto do ar nem os segredos do feno,
como também parecem não enxergar

o que é visível e comum a cada um de nós, no espaço.

E ficam tristes e no rasto da tristeza chegam à crueldade.
Toda a expressão deles mora nos olhos –
e perde-se a um simples baixar de cílios, a uma sombra.

Nada nos pêlos, nos extremos de inconcebível fragilidade,
e como neles há pouca montanha, e que secura
e que reentrâncias e que impossibilidade
de se organizarem em formas calmas, permanentes e necessárias.

Têm, talvez, certa graça melancólica (um minuto)
e com isto se fazem perdoar a agitação incômoda
e o translúcido vazio interior que os torna tão pobres
e carecidos de emitir sons absurdos e agônicos:

desejo, amor, ciúme(que sabemos nós),

sons que se despedaçam e tombam no campo
como pedras aflitas e queimam a erva e a água,
e difícil, depois disto, é ruminarmos nossa verdade.

Quero apenas - Olga Savary


Além de mim, quero apenas
essa tranquilidade
de campos de flores
e este gesto impreciso
recompondo a infância.


A mangueira e o sabiá - Álvaro Moreyra


O sabiá pousou em cima da mangueira e cantou,
cantou uma semana inteira.
Depois foi-se embora, nunca mais voltou.
A mangueira ficou triste, mas toda cheia de mangas.
Mangas tão doces, tão bonitas, a mangueira nunca deu.
Deu agora de saudades, porque a mangueira sofreu...

Quanta mulher-sabiá!
Quanto homem-mangueira!...

Temas eternos - Murilo Mendes


Há sempre um amor procurando seu nome
Na solidão do livro dos tempos.

Há sempre uma veste nupcial
Pendendo da guilhotina da noite.

Há sempre restos do Minotauro
A escurecer os campos tranquilos.

Há sempre um olhar espiando o horizonte,
Um olhar que não foi visto.





Um passarinho canta - Tasso da Silveira

Um passarinho canta
para o canto perder-se.

Para o canto fundir-se
no éter puro e sereno,
no silêncio das coisas,
no mistério dos seres.

Um passarinho canta
apenas porque é vida:
a vida é apenas canto,
canto efêmero.
 
 

Canção sem rumo - Emílio Moura


A vida subiu, desceu,
foi longe demais a vida.
Como uma estrela caída,
a minha vida desceu
rolando na tua vida.

Como uma estrela caída,

caída, de onde? Do céu?
a tua vida desceu
rolando na minha vida,
como uma estrela caída.