Sonetilho do falso Fernando Pessoa - Carlos Drummond de Andrade


Onde nasci, morri.
Onde morri, existo.
E das peles que visto
muitas há que não vi.
Sem mim como sem ti
posso durar. Desisto
de tudo quanto é misto
e que odiei ou senti.
Nem Fausto nem Mefisto,
à deusa que se ri
deste nosso oaristo,
eis-me a dizer: assisto
além, nenhum, aqui,
mas não sou eu, nem isto.


Fernando Pessoa - Documentário

É o vento - Ivan Junqueira



É o vento que vem uivando
pelas frinchas do infinito
é o vento que vem gemendo
na espinha do plenilúnio
é o vento que vem rolando
como um cascalho de treva

É o vento que vem quebrando
as vidraças do silêncio
é o vento que vem abrindo
as cicatrizes da véspera
é o vento que vem pulsando
nas veias murchas do tempo

É o vento que vem mordendo
a carne tenra das nuvens
é o vento que vem regendo
a sinfonia das águas
é o vento que vem varrendo
a nostalgia dos túmulos

É o vento que vem trazendo
teu sorriso embalsamado
é o vento que vem despindo
a salsugem de teus seios
é o vento que vem moldando
tua gótica nudez

É o vento que vem brincando
de roda com minha infância
é o vento que vem tangendo
meus pensamentos sem rumo
é o vento que vem traçando
o mapa de minha face

É o vento que vem roendo
o pergaminho das horas
que monótonas gotejam
sobre as escarpas herméticas
do abismo turvo insondável
que me separa de mim


Piedra y Camino - Atahualpa Yupanqui

Da colina venho descendo
caminho e pedra
trago enredada na alma, vida,
uma tristeza.

Me acusas de não te querer,
não digas isso
talvez não compreendas nunca, vida,
porque me afasto.

É meu destino
pedra e caminho
de um sonho distante e belo, vida,
sou peregrino.

Por mais que eu busque a sorte
vivo penando
e quando devo ficar, vida,
eu vou andando.

às vezes sou como o rio
chego cantando
e sem que ninguém saiba, vida,
vou embora chorando.

É meu destino
pedra e caminho
de um sonho distante e belo, vida,
sou peregrino.


Livraria - Glória de Sant'Anna



vozes me chamam
passo a soleira
entro pelo meio
das prateleiras
onde as lombadas
fecham secretas
folhas marcadas
pelos recados
esperando olhos
de mentes rápidas
que se detenham
nas letras firmes
pulando leves
pelas palavras

(e de repente sinto-me envolta
no calor doce das florestas
desarvoradas por ventos de aço
de rumos vários de som diverso)


Marinha XI - Gabriel Bicalho


quebra-mar
quebra mar
quero amar
sem bramar
abrandar
sem bradar
quebrantar
sem quedar

Charlotte Church & Enya - The Water is Wide

Para umas noites que andam fazendo - Paulo Leminski,

deixe eu abrir a porta
quero ver se a noite vai bem

quem sabe a lua lua
ou nos sonhos crianças
sombras murmuram amém

deixa ver quem some antes
a nuvem estrela ou ninguém

Currículo - Mario Benedetti

A história é muito simples
você nasce
contempla atribulado
o vermelho azul do céu
o pássaro que emigra
o primitivo besouro
que seu sapato esmagará
valente

você sofre
reclama por comida
e por costume
por obrigação
chora limpo de culpas
extenuado
até que o sono o desmorone

você ama
se transfigura e ama
por uma eternidade tão provisória
que até o orgulho se torna terno
e o coração profético
se converte em escombros

você aprende
e usa o aprendido
para tornar-se lentamente sábio
para saber que no fim o mundo é isto
em seu melhor momento uma nostalgia
em seu pior momento um desamparo
e sempre sempre
uma confusão

então
você morre.


Clarice Lispector


E grito: eu sinto, eu sofro, 
eu me alegro, eu me comovo.
Só o meu enigma me interessa.
Mais que tudo, 
me busco no meu grande vazio.


Folhagem - Rosália Milsztajn



    

Descanso os olhos
 sobre as folhas miúdas que tremem
 Piscam minhas pálpebras
 O vento me envolve
 Existo
 inacreditavelmente
 entre o abrir e fechar
 Página folheada
 de um livro
 vivo.

Chico Buarque e Nana Caymmi - Até Pensei

Outono - Rainer Maria Rilke

As folhas caem como se do alto
caíssem, murchas, dos jardins do céu;
caem com gestos de quem renuncia.

E a terra, só, na noite de cobalto,
cai de entre os astros na amplidão vazia.

Caimos todos nós. Cai esta mão.
Olha em redor: cair é a lei geral.

E a terna mão de Alguém colhe, afinal,
todas as coisas que caindo vão.


Como nascem as manhãs - Flora Figueiredo



O fundo dos olhos da noite
guarda silêncios.
Esconde na retina
a menina que corre descalça em campo aberto.
Pálpebras cerradas, a noite emudece.
A menina com medo
faz um furo no escuro com a ponta do dedo.
Cai um pingo de luz.
Amanhece.


Reticências - Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)



Arrumar a vida, pôr prateleiras na vontade e na ação.
Quero fazer isto agora, como sempre quis, com o mesmo resultado;
Mas que bom ter o propósito claro, firme só na clareza, de fazer qualquer coisa!

Vou fazer as malas para o Definitivo,
Organizar Álvaro de Campos,
E amanhã ficar na mesma coisa que antes de ontem — um antes de ontem que é sempre...
Sorrio do conhecimento antecipado da coisa-nenhuma que serei.
Sorrio ao menos; sempre é alguma coisa o sorrir...
Produtos românticos, nós todos...
E se não fôssemos produtos românticos, se calhar não seríamos nada.
Assim se faz a literatura...
Santos Deuses, assim até se faz a vida!

Os outros também são românticos,
Os outros também não realizam nada, e são ricos e pobres,
Os outros também levam a vida a olhar para as malas a arrumar,
Os outros também dormem ao lado dos papéis meio compostos,
Os outros também são eu.
Vendedeira da rua cantando o teu pregão como um hino inconsciente,
Rodinha dentada na relojoaria da economia política,
Mãe, presente ou futura, de mortos no descascar dos Impérios,
A tua voz chega-me como uma chamada a parte nenhuma, como o silêncio da vida...
Olho dos papéis que estou pensando em arrumar para a janela,
Por onde não vi a vendedeira que ouvi por ela,
E o meu sorriso, que ainda não acabara, inclui uma crítica metafisica.
Descri de todos os deuses diante de uma secretária por arrumar, 
Fitei de frente todos os destinos pela distração de ouvir apregoando,
E o meu cansaço é um barco velho que apodrece na praia deserta, 
E com esta imagem de qualquer outro poeta fecho a secretária e o poema...
Como um deus, não arrumei nem uma coisa nem outra...


Definição do amor - Lope de Vega


            
Desmaiar-se, atrever-se, estar furioso,
áspero, terno, liberal, esquivo,
alentado, mortal, defunto, vivo,
leal, traidor, covarde e valoroso;

 não ver, fora do bem, centro e repouso,
mostrar-se alegre, triste, humilde, altivo,
enfadado, valente, fugitivo,
satisfeito, ofendido, receoso;

 furtar o rosto ao claro desengano,
beber veneno qual licor suave,
esquecer o proveito, amar o dano;

 acreditar que o céu no inferno cabe,
doar sua vida e alma a um desengano,
isto é amor; quem o provou bem sabe.  


                               

Caixa mágica de surpresa - Elias José

Um livro
é uma beleza,
é caixa mágica
só de surpresa.

Um livro
parece mudo,
mas nele a gente
descobre tudo.

Um livro
tem asas
longas e leves
que de repente,
levam a gente
longe, longe.

Um livro
é parque de diversões
cheios de sonhos coloridos,
cheio de doces sortidos,
cheio de luzes e balões.

Um livro
é uma floresta
com folhas e flores
e bichos e cores.
è mesmo uma festa,
um baú de feiticeiro,
um navio pirata no mar,
um foguete perdido no ar,
é amigo e companheiro.


Flor da pele - Zeca Baleiro

Uma após uma as ondas apressadas - Ricardo Reis (F. Pessoa)



Uma após uma as ondas apressadas
Enrolam o seu verde movimento
E chiam a alva ‘spuma
No moreno das praias.

Umas após uma as nuvens vagarosas
Rasgam o seu redondo movimento
E o sol aquece o ‘spaço
Do ar entre as nuvens ‘scassas.

Indiferente a mim e eu a ela,
A natureza deste dia calmo
Furta pouco ao meu senso
De esvair o tempo.

Só uma vaga pena inconsequente
Para um momento à porta da minha alma
E após fitar-me um pouco
Passa, a sorrir de nada.

O Poeta é um Guardador - Ana Hatherly

O poeta é um guardador

guarda a diferença
guarda da indiferença

no incerto
guarda a certeza da voz.