Era - Don't go away

Desejo - Roseana Murray


Quero asas de borboleta azul
para que eu encontre
o caminho do vento
o caminho da noite
a janela do tempo
o caminho de mim.

Canção antiga - Anrique Paço D’Arcos

Eu próprio me desconheço
De tão outro que hoje sou;
A vida vai no começo
E fui eu só quem mandou ...

Ouço o eco dos meus passos;
E, pela noite sem fim,
Tenho medo de mim próprio,
De ir correndo atrás de mim ...


Fazenda - Carlos Drummond de Andrade

Vejo o Retiro: suspiro
no vale fundo.
O Retiro ficava longe
do oceanomundo.
Ninguém sabia da Rússia
com sua foice.
A morte escolhia a forma
breve de um coice.
Mulher, abundavam negras
socando milho.
Rês morta, urubus rasantes,
logo em concílio.
O amor das éguas rinchava
no azul do pasto.
E criação e gente, em liga,
tudo era casto..

Mário Quintana


Não pretendo que a poesia seja
um antídoto para a tecnocracia atual.
Mas sim um alívio.
Como quem se livra de vez em quando
de um sapato apertado
e passeia descalço sobre a relva,
ficando assim mais próximo da natureza,
mas por dentro da vida.

Porque as máquinas um dia viram sucata.
A poesia, nunca.

Poema dialético - Hélio Pellegrino


caminho para o dia
__para o centro
deste dia
__para a noite
deste dia
__caminho para a noite
para o centro
__desta noite
para o dia
__desta noite


Antes do amanhecer - T. S. Eliot


Enquanto todo o Oriente o vermelho ao cinza entretecia,
As flores na janela se voltavam para a aurora,
Pétala a pétala, à espera de que nascesse o dia,
Flores frescas, flores murchas, flores da aurora.

Flores da manhã e flores de ontem: fluía
Seu perfume na sala ao despontar a aurora,
Perfume da floração e perfume da agonia
Flores frescas, flores murchas, flores da aurora.


Depus a máscara - Álvaro de Campos (F.Pessoa)

Depus a máscara e vi-me ao espelho. —
Era a criança de há quantos anos.
Não tinha mudado nada...
É essa a vantagem de saber tirar a máscara.
É-se sempre a criança,
O passado que foi
A criança.
Depus a máscara, e tornei a pô-la.
Assim é melhor,
Assim sou a máscara.
E volto à personalidade como a um términus de linha.


Luís Vaz de Camões



Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;

É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?


HAIKAI - Anibal Beça

Janela fechada:
borboleta na vidraça
dá cor ao meu dia.

Contranarciso - Paulo Leminski

Em mim
Eu vejo o outro
E outro
E outro
Enfim dezenas
Trens passando
Vagões cheios de gente
Centenas

O outro
Que há em mim
É você
Você
E você

Assim como
Eu estou em você
Eu estou nele
Em nós
E só quando
Estamos em nós
Estamos em paz
Mesmo que estejamos a sós


Cecília Meireles

 

Não fales as palavras dos homens,
Palavras com vida humana.
Que nascem, que crescem, que morrem.
Faze a tua palavra perfeita.
Dize somente coisas eternas.
Vive em todos os tempos
Pela tua voz.
Sê o que o ouvido nunca esquece.
Repete-te para sempre.
Em todos os corações.
Em todos os mundos.


Selinho - Um mimo!

 
Este  Selinho foi um mimo que ganhei da amiga Lourdinha.
Seu blog http://expressodointerior.blogspot.com.br/  é um encanto. Recomendo!
Obrigada pelo carinho!

E vamos às regrinhas :
Colocar o selo no blog.
Divulgar o selo
Linkar o blog de quem você ganhou.
Escolher 10 blogs para presentear.
 
Difícil indicar dez blogs de meu gosto. São tantos...
Por isso resolvi quebrar a regra.
Deixo aqui o selinho para todos aqueles que me visitam.
Aproveito para agradecer a vocês. 
São sempre bem – vindos!

 

O que há em mim - Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)

O que há em mim é sobretudo cansaço —
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
A sutileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas —
Essas e o que falta nelas eternamente —;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada —
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimno, íssimo, íssimo,
Cansaço...

Ah, sim, a velha poesia - Mário Quintana

Poesia, a minha velha amiga...
eu entrego-lhe tudo
a que os outros não dão importância nenhuma...
a saber:
o silêncio dos velhos corredores
uma esquina
uma lua
(porque há muitas, muitas luas...)
o primeiro olhar daquela primeira namorada
que ainda ilumina, ó alma,
como uma tênue luz de lamparina,
a tua câmara de horrores.
E os grilos?
Sim, os grilos...Entrego-lhe grilos aos milhões, um lápis verde, um retrato
amarelecido, um velho ovo de costura. Os teus pecados, as
reivindicações, as explicações – menos
o dar de ombros e os risos contidos
mas todas as lágrimas
que o orgulho estancou na fonte
as explosões de cólera
o ranger dos dentes
as alegrias agudas até o grito
a dança dos ossos

Pois bem
às vezes
de tudo quanto lhe entrego,
a Poesia faz uma coisa
que parece nada tem a ver com os ingredientes
mas que tem por isso mesmo
um sabor total: ETERNAMENTE
ESSE GOSTO DE NUNCA E DE SEMPRE.

A estrada que não tomei - Robert Frost

Duas estradas num bosque amarelo divergem:
triste por não poder seguir as duas
sendo um só viajante, muito tempo parei
olhando uma delas, até onde podia alcançar,
pois atrás das moitas ela dobrava.

Então tomei a outra que me pareceu de igual beleza,
uma vantagem talvez oferecendo
por ser cheia de grama, querendo ser pisada:
embora neste ponto o estado fosse o mesmo
e uma, como a outra, tivesse sido usada.

E naquela manhã todas as duas tinham
folhas ainda não escurecidas pelos passos.
Ora! Guardei a primeira para um outro dia!
Mas sabendo como uma estrada leva à outra,
duvidei poder um dia voltar!

Contarei esta estória suspirando,
daqui a séculos e séculos em algum outro lugar:
duas estradas, num bosque, divergiam
e eu tomei a que era menos frequentada
e foi isso a razão de toda a diferença!

Documentario Vinícius de Morais (Completo)

Manoel de Barros

Uma didática da invenção - Manoel de Barros



Para apalpar as intimidades do mundo é preciso saber:



a) Que o esplendor da manhã não se abre com faca
b) O modo como as violetas preparam o dia para morrer
c) Por que é que as borboletas de tarjas vermelhas
têm devoção por túmulos
d) Se o homem que toca de tarde sua existência num fagote,
tem salvação
e) Que um rio que flui entre dois jacintos carrega mais ternura
que um rio que flui entre dois lagartos
f) Como pegar na voz de um peixe
g) Qual o lado da noite que umedece primeiro.
etc.
etc.
etc.
Desaprender 8 horas por dia ensina os princípios.
Desinventar objetos. O pente, por exemplo.
Dar ao pente funções de não pentear.
Até que ele fique à disposição de ser uma begônia.
Ou uma gravanha.
Usar algumas palavras que ainda não tenham idioma.
Repetir repetir – até ficar diferente.
Repetir é um dom do estilo.

No Tratado das Grandezas do Ínfimo estava
escrito:
Poesia é quando a tarde está competente para dálias.
É quando
Ao lado de um pardal o dia dorme antes.
Quando o homem faz sua primeira lagartixa.
É quando um trevo assume a noite
E um sapo engole as auroras.
Formigas carregadeiras entram em casa de bunda.
As coisas que não têm nome são mais pronunciadas por crianças.
No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo,
lá onde a criança diz:
Eu escuto a cor dos passarinhos.



A criança não sabe que o verbo escutar não
funciona para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um verbo,
ele delira.
E pois.
Em poesia que é voz de poeta,
que é a voz de fazer nascimentos –
O verbo tem que pegar delírio.

Um girassol se apropriou de Deus: foi em Van Gogh.



Para entrar em estado de árvore é preciso
partir de um torpor animal de lagarto às
três horas da tarde, no mês de agosto.
Em dois anos a inércia e o mato
vão crescer em nossa boca.
Sofreremos alguma decomposição lírica
até o mato sair na voz.



Hoje eu desenho o cheiro das árvores.
Não tem altura o silêncio das pedras.
Adoecer de nós a Natureza:
– Botar aflição nas pedras
(Como fez Rodin).



Pegar no espaço contigüidades verbais é o
mesmo que pegar mosca no hospício para dar
banho nelas.
Essa é uma prática sem dor.
É como estar amanhecido a pássaros.
Qualquer defeito vegetal de um pássaro pode
modificar os seus gorjeios.



As coisas não querem mais ser vistas
por pessoas razoáveis:
Elas desejam ser olhadas de azul –
Que nem uma criança que você olha de ave.
Poesia é voar fora da asa.

Em casa de caramujo até o sol encarde.



O rio que fazia uma volta atrás de nossa casa
era a imagem de um vidro mole
que fazia uma volta atrás de casa.
Passou um homem depois e disse:
Essa volta que o rio faz
por trás de sua casa se chama enseada.
Não era mais a imagem de uma cobra de vidro
que fazia uma volta atrás de casa.
Era uma enseada.
Acho que o nome empobreceu a imagem.
Lembro um menino
repetindo as tardes naquele quintal.



Ocupo muito de mim com o meu desconhecer.
Sou um sujeito letrado em dicionários.
Não tenho mais que 100 palavras.
Pelo menos uma vez por dia
me vou no Morais ou no Viterbo –
A fim de consertar a minha ignorãça,
mas só acrescenta.
Despesas para minha erudição tiro nos almanaques:
– Ser ou não ser, eis a questão.



Ou na porta dos cemitérios:
– Lembra que és pó e que ao pó tu voltarás.
Ou no verso das folhinhas:
– Conhece-te a ti mesmo.
Ou na boca do povinho:
– Coisa que não acaba no mundo é gente besta
e pau seco.
Etc.
Etc.
Etc.


Maior que o infinito é a encomenda.