Constância no Deserto - Cecília Meireles



Em praias de indiferença
navega meu coração.
Venho desde a adolescência
na mesma navegação.

- Por que mar de tanta ausência,
e areias brancas de tão
despovoada inconsistência,
de penúria e de aflição?

(Triste saudade que pensa
entre resposta e a intenção!)

Números de grande urgência
gritam pela exatidão:
mas a areia branca e imensa
toda é desagregação!

Em praias de indiferença
navega meu coração.
Impossível, permanência.
Impossível, direção.

E assim por toda a existência
navegar, navegarão
os que têm por toda ciência
desencanto e devoção.


Túlio Mourão e Adélia Prado

Carrego comigo - Carlos Drummond de Andrade

Carrego comigo
há dezenas de anos
há centenas de anos
o pequeno embrulho.

Serão duas cartas?
será uma flor?
será um retrato?
um lenço talvez?

Já não me recordo
onde o encontrei.
Se foi um presente
ou se foi furtado.

Se os anjos desceram
trazendo-o nas mãos,
se boiava no rio,
se pairava no ar.

Não ouso entreabri-lo.
Que coisa contém,
ou se algo contém,
nunca saberei.

Como poderia
tentar esse gesto?
O embrulho é tão frio
e também tão quente.

Ele arde nas mãos,
é doce ao meu tato.
Pronto me fascina
e me deixa triste.

Guardar um segredo
em si e consigo,
não querer sabê-lo
ou querer demais.

Guardar um segredo
de seus próprios olhos,
por baixo do sono,
atrás da lembrança.

A boca experiente
saúda os amigos.
Mão aperta mão,
peito se dilata.

Vem do mar o apelo,
vêm das coisas gritos.
O mundo te chama:
Carlos! Não respondes?

Quero responder.
A rua infinita
vai além do mar.
Quero caminhar.

Mas o embrulho pesa.
Vem a tentação
de jogá-lo ao fundo
da primeira vala.

Ou talvez queimá-lo:
cinzas se dispersam
e não fica sombra
sequer, nem remorso.

Ai, fardo sutil
que antes me carregas
do que és carregado,
para onde me levas?

Por que não me dizes
a palavra dura
oculta em teu seio,
carga intolerável?

Seguir-te submisso
por tanto caminho
sem saber de ti
senão que te sigo.

Se agora te abrisses
e te revelasses
mesmo em forma de erro,
que alivio seria!

Mas ficas fechado.
Carrego-te à noite
se vou para o baile.
De manhã te levo

para a escura fábrica
de negro subúrbio.
És, de fato, amigo
secreto e evidente.

Perder-te seria
perder-me a mim próprio.
Sou um homem livre
mas levo uma coisa.

Não sei o que seja.
Eu não a escolhi.
Jamais a fitei.
Mas levo uma coisa.

Não estou vazio,
não estou sozinho,
pois anda comigo
algo indescritível.

Ah, toca suavemente - Fernando Pessoa


Ah, toca suavemente
Como a quem vai chorar
Qualquer canção tecida
De artifício e de luar —
Nada que faça lembrar
                A vida.

Prelúdio de cortesias,
Ou sorriso que passou...
Jardim longínquo e frio...
E na alma de quem o achou
Só o eco absurdo do voo
                Vazio.

HAIKAI - Masuda Goga



Libélula voando
pára um instante e lança
sua sombra no chão

Geraldo Azevedo - Caravana

Plena - Lena Jesus Ponte


Hoje sou alvo;
amanhã, seta.

Desperto utopia;
adormeço sem meta.

Amanheço soneto;
anoiteço sem métrica.

Lenda indígena de como nasceu o Amazonas - Gastón Figueira

Rio maravilhoso: eu sei como nasceste...
Eu sei que há muitos anos, há milênios,
a Lua e o Sol se amaram...
Mas, para o bem da Terra,
esse nascente amor sacrificaram
...porque, se a Lua e o Sol
algum dia se unissem,
o mundo acabaria inundado
pelas apaixonadas lágrimas da Lua,
ou queimado pelo constante e ardente amor do Sol...
Era, pois, impossível, dolorosa, essa imensa paixão!
À Lua, fraca, sensível,
o carinho arrancaria lágrimas ternas e doces.
O Sol, forte, abrasador,
seus raios aumentaria com o amor.
E o mundo, então, seria todo de Água ou de Fogo,
que jamais podem unir-se...
Por isso, a Lua e o Sol
seu amor sacrificaram:para sempre,
se afastaram, tomando rumos distintos...
E, nessa noite,
a Lua, sozinha, sozinha,
ferida de amor, chorou,
Suas lágrimas caíram na superfície do mar;
mas, também, foi impossível misturar o pranto doce da Lua
com o pranto amargo do mar.
Toda aquela tristeza e toda aquela dor
mudaram-se em beleza..
pois, das lágrimas doces vertidas pela Lua,
grande, maravilhoso,
um rio se formou...


Inatingível - Vinícius de Moraes

O que sou eu, gritei um dia para o infinito
E o meu grito subiu, subiu sempre
Até se diluir na distância.
Um pássaro no alto planou voo
E mergulhou no espaço.
Eu segui porque tinha que seguir
Com as mãos na boca, em concha
Gritando para o infinito a minha dúvida.

Mas a noite espiava a minha dúvida
E eu me deitei à beira do caminho
Vendo o vulto dos outros que passavam
Na esperança da aurora.
Eu continuo à beira do caminho
Vendo a luz do infinito
Que responde ao peregrino a imensa dúvida.

Eu estou moribundo à beira do caminho.
O dia já passou milhões de vezes
E se aproxima a noite do desfecho.
Morrerei gritando a minha ânsia
Clamando a crueldade do infinito
E os pássaros cantarão quando o dia chegar
E eu já hei de estar morto à beira do caminho.


Abismo - Fernando Pessoa


Olho o Tejo, e de tal arte
Que me esquece olhar olhando,
E súbito isto me bate
De encontro ao devaneando —
O que é sério, e correr?
O que é está-lo eu a ver?
Sinto de repente pouco,
Vácuo, o momento, o lugar.
Tudo de repente é oco —
Mesmo o meu estar a pensar.
Tudo — eu e o mundo em redor —
Fica mais que exterior.
Perde tudo o ser, ficar,
E do pensar se me some.
Fico sem poder ligar
Ser, ideia, alma de nome
A mim, à terra e aos céus... 

 
E súbito encontro Deus.



Alessandro Safina - Luna

Letra: Ferida Exposta ao Tempo - Affonso Romano de Sant’Anna


É forçoso dizer que me faz falta
o poema que existe e nunca li,
como se alhures
brotassem coisas que não vi
e que distantes,
carentes,
dependessem de mim.
Algo como se o intocado fosse a sinfonia
inacabada, mais:rasgada
como o quadro nunca esboçado, perdido
na abatida mão do artista.

O ausente
é uma planta
que na distância se arvora
e é tão presente
quando o passado que aflora.

E a literatura, mais que avenida ou praça
por onde cavalga a glória, é um monumento,
sim, de dúbia estória: granito e rima,
alegoria ao vento, lugar onde carentes
e arrogantes
cravamos nosso nome de turista:
-estive aqui, desamado,
riscando a pedra e o tempo
expondo meu sangue e nome
com o coração trespassado.


Noite interna - Nelson Motta



ao longo da longa noite
luzem luas, lumem luzes
que no entanto não clareiam
minha busca da manhã.

faltam forças
frágil fraquejo
e por fim
fujo da faceminha que me fita:
feroz figura, feia criatura,
fruta fenecida a me fitar no espelho.


Chove! - José Gomes Ferreira


Chove...

Mas isso que importa!,
se estou aqui abrigado nesta porta
a ouvir a chuva que cai do céu
uma melodia de silêncio
que ninguém mais ouve
senão eu?

Chove...

Mas é do destino
de quem ama
ouvir um violino
até na lama.


Um bem-te-vi - Manoel de Barros

Garça - Manoel de Barros

A palavra garça em meu perceber é bela.
Não seja só pela elegância da ave.
Há também a beleza letral.
O corpo sônico da palavra
E o corpo níveo da ave
Se comungam.
Não sei se passo por tantã dizendo isso.
Olhando a garça-ave e a palavra garça
Sofro uma espécie de encantamento poético.