Roxo - Adélia Prado


Roxo aperta.
Roxo é travoso e estreito.
Roxo é a cordis, vexatório,
Uma doidura pra amanhecer.
A paixão de Jesus é roxa e branca,
Pertinho da alegria.
Roxo é travoso, vai madurecer.
Roxo é bonito e eu gosto.
Gosta dele o amarelo.



O céu roxeia de manhã e de tarde,
Uma rosa vermelha envelhecendo.
Cavalgo caçando o roxo,
Lembrança triste, bonina.
Campeio amor pra roxeamar apaixonada,
O roxo por gosto e sina.


Epigrama N° 3 - Cecília Meireles

Mutilados jardins e primaveras abolidas
abriram seus miraculosos ramos
no cristal em que pousa a minha mão.

(Prodigioso perfume!)

Recompuseram-se tempos, formas, cores, vidas ...
Ah! mundo vegetal, nós, humanos, choramos
só da incerteza da ressurreição.


Branca noite de luar - Abgar Renault


Mal o dia se esgueira
e foge entre as árvores do crepúsculo,
insinuam-se os seus finais
entre as dúvidas do nascer da noite.

Pára o rio e sua viagem.
Cessam as águas a sua voz.
Cantos de pássaros interrompem-se
e tombam nos ouvidos da solidão.

Póstumos bois adormecem 
no relvado as suas sombras,
e um gesto final do ocaso 
conduz a ovelha derradeira.

Entre os rebanhos recolhidos 
recolheu-se a tarde
e, enquanto as distâncias 
se estiram brancamente,
lúcido vinho vai a terra embebedando:
o chão é claro sonho e firmamento.

Verte o céu a sua azul antiguidade
sobre as formas, 
as ausências e os corações dos homens,
e a lua vai abrindo em leve solo nas alturas
imaginativas ruas de silêncio, de outrora,
de alva tristeza e amoroso pensamento.


Chove. Há Silêncio - Fernando Pessoa


Chove. Há silêncio, porque a mesma chuva
Não faz ruído senão com sossego.
Chove. O céu dorme. Quando a alma é viúva
Do que não sabe, o sentimento é cego.
Chove. Meu ser (quem sou) renego...

Tão calma é a chuva que se solta no ar
(Nem parece de nuvens) que parece
Que não é chuva, mas um sussurrar
Que de si mesmo, ao sussurrar, se esquece.
Chove. Nada apetece...

Não paira vento, não há céu que eu sinta.
Chove longínqua e indistintamente,
Como uma coisa certa que nos minta,
Como um grande desejo que nos mente.
Chove. Nada em mim sente...


Província - Cecília Meireles

 

Cidadezinha perdida
no inverno denso de bruma,
que é de teus morros de sombra,
do teu mar de branda espuma,

das tuas árvores frias
subindo das ruas mortas?
Que é das palmas que bateram
na noite das tuas portas?

Pela janela baixinha,
viam-se os círios acesos,
e as flores se desfolhavam
perto dos soluços presos.

Pela curva dos caminhos,
cheirava a capim e a orvalho
e muito longe as harmônicas
riam, depois do trabalho.

Que é feito da tua praça,
onde a morena sorria
com tanta noite nos olhos
e, na boca, tanto dia?
Que é feito daquelas caras
escondendo o seu segredo?
Dos corredores escuros
com paredes só de medo?

Que é feito da minha vida?
abandonada na tua,
do instante de pensamento
deixado nalguma rua?
Do perfume que me deste,
que nutriu minha existência
e hoje é um tempo de saudade,
sobre a minha própria ausência?



O pássaro - Helena Figueiredo


Todos os anos, aquele pássaro volta.

Conheço-lhe o canto,
a forma destemida,
os trejeitos,

uma consanguinidade,
no avermelhado das folhas que o protegem,

e regressa a azáfama dos ninhos,
o pio apaixonado,
o estalar dos ovos,

um doce silêncio habitando o muro,

e a natureza plena,
esvoaça,
numa grata despedida,
em torno da chaminé.


Apelo - Miguel Torga


Porque não vens agora, que te quero
E adias esta urgência?
Prometeste-me o futuro e eu desespero
O futuro é o disfarce da impotência....

Hoje, aqui, já, neste momento,
Ou nunca mais.
A sombra do alento é o desalento
O desejo o limite dos mortais.


Treva - Tasso da Silveira


Acende a lanterna da Tua graça
na floresta funda
para que eu ache o caminho
da Tua casa perdida entre penumbras tão distantes...

Acende a lanterna da Tua graça,
por que não há trilhos mais ásperos
nem mais secretos precipícios
do que os da floresta funda.
Nem distâncias que se prolonguem tão desesperantemente,
nem medo tão longo de ficar-se perdido para sempre...

Acende a lanterna da Tua graça,
porque para os meus olhos se apagaram
todas as paisagens lúcidas.
Porque a minha treva transbordou de dentro de mim mesmo
sobre as coisas do mundo...

Pomba em Broadway - Cecília Meireles

 
Naquele reino cinzento
veio a pomba bater asas
contra muros de cimento.

Veio a pomba bater asas
aquele reino severo
com portas negras nas casas.

O rumor de suas penas
era um sussurro de fontes
brancas em tardes morenas.

Era um sussurro de fontes,
mas ai! por densas paredes
e verticais horizontes!

Que mensagem conduzia
subindo e descendo os ares,
pela fronteira do dia,

subindo e descendo os ares,
estrangulada nos muros
daqueles densos lugares,

por onde vultos escuros,
o ouro do mundo levavam
fechado densos lugares,

por onde vultos escuros,
o ouro do mundo levavam
fechado nos punhos duros?

Batia as asas, batia,
jorrava auroras de prata
no peito morto do dia.

Mas uma noite sem data
vinha dobrando as esquinas
com acautelada pata.


Poema Canção - Cecília Meirelles

Noturno - Fernando Py


No silêncio da noite vou formando
teu retrato, no silêncio da noite
modelando teus olhos, teus cabelos
entre os lençóis de sono que me envolvem.

Na meia claridade, maldesperto,
angustiado, insone, construindo
a arquitetura móvel de teus lábios
levanto-me, e estás sempre comigo.

Durante o dia e a qualquer momento
estamos lado a lado, vou compondo
a tua imagem (vento sombra nuvem),
lembrança amiga no trabalho duro.

E surges na agonia do crepúsculo
- e és a aurora inaugurando a noite.

Canção Dolente - Álvaro Moreyra


Salgueiros trêmulos, belos!
meus camaradas tão bons!
vós sois como violoncelos
onde o vento acorda sons…

Melodia dos destinos!
voz do tempo! voz plangente!
Ah! na saudade dos sinos,
canta a saudade da gente…

Corujas de vida obscura!
a vossa sorte me diz
que a verdadeira ventura
é não tentar ser feliz…

No mar sem hipocampos - Marina Colasanti


Assim que anoiteceu, saiu para pescar.
Peixes não, estrelas.
Afastou-se da casa, atravessou um campo até o seu limite.
Na linha do horizonte, sentado à beira do céu,
abriu a caixa das frases poéticas que havia trazido como iscas.
Escolheu a mais sonora, prendeu-a firmemente na rebarba luzidia.
Depois, pondo-se de cabeça para baixo, lançou a linha no imenso azul,
deixando desenrolar todo o molinete.
E, paciente, enquanto a Lua avançava sem mover ondas,
começou a longa espera de que uma estrela
viesse morder o seu anzol.


Fala do velho do restelo ao austronauta - José Saramago


Aqui na terra a fome continua
A miséria e o luto
A miséria e o luto e outra vez a fome

Acendemos cigarros em fogos de napalm
E dizemos amor sem saber o que seja.
Mas fizemos de ti a prova da riqueza,
Ou talvez da pobreza, e da fome outra vez,
E pusemos em ti nem eu sei que desejos
De mais alto que nós, de melhor e mais puro,
No jornal soletramos de olhos tensos
Maravilhas de espaço e de vertigem.

Salgados oceanos que circundam
Ilhas mortas de sede onde não chove.
Mas a terra, astronauta, é boa mesa
(E as bombas de napalm são brinquedos)
Onde come brincando só a fome
Só a fome, astronauta, só a fome.




Apesar da sede - Graça Pires



Tudo podia ser mais simples.
Mas a infância fica tão longe
e os espelhos começaram
a gritar-me uma inocência
que deixou de ser minha
para sempre.
O que quero dizer
acompanha, devagar,
o movimento do sol.
E são cada vez mais lentos
os passos que me levam
na direção das nascentes.
Apesar da sede.