Wim Mertens - We are the thieves

Martha Medeiros

foram tantas noites de insônia
roubando os poucos anos que tinha
perdi a conta dos prantos
contei carneiros e os dias
e os dias nunca passavam
ou passavam e eu não via
ficava um aperto no peito
nem tudo entendia como era
mas que era bonito eu sabia

Caleidoscópio - Helena Kolody



A cada giro de espelhos,
muda o vitral da vivência.
Não permanece a figura.
Nem um desenho regressa.

O albatroz - Charles Baudelaire

Às vezes, por prazer, os homens de equipagem
Pegam um albatroz, enorme ave marinha,
Que segue, companheiro indolente de viagem,
O navio que sobre os abismos caminha.

Mal o põem no convés por sobre as pranchas rasas,
Esse senhor do azul, sem jeito e envergonhado,
Deixa doridamente as grandes e alvas asas
Como remos cair e arrastar-se a seu lado.

Que sem graça é o viajor alado sem seu nimbo!
Ave tão bela, como está cômica e feia!
Um o irrita chegando ao seu bico em cachimbo,
Outro põe-se a imitar o enfermo que coxeia!

O poeta é semelhante ao príncipe da altura
Que busca a tempestade e ri da flecha no ar;
Exilado no chão, em meio à corja impura,
As asas de gigante impedem-no de andar.

Loreena McKennitt - Come By The Hills



Venha pelos montes, para onde a fantasia é livre
E permaneça onde os picos tocam o céu e as rochas encontram o mar
Onde os rios correm livres e a água é dourada no sol
E as preocupações de amanhã devem esperar até esse dia acabar

Venha pelso montes para onde a vida é uma música
E canta enquanto os pássaros enchem o ar com a sua alegria durante todo o dia
Onde as árvores balançam no compassso e até o vento cantam na melodia
E as preocupações de amanhã devem esperar até esse dia acabar

Venha pelos montes para a terra onde as lendas continuam vivas
Onde as histórias do velho agitam o coração e talvez ainda voltem novamente
Onde o passado foi perdido e o futuro ainda será ganhado
E as preocupações de amanhã devem esperar até esse dia acabar

Venha pelos montes, para onde a fantasia é livre
E permaneça onde os picos tocam o céu e as rochas encontram o mar
Onde os rios correm livres e a água é dourada no sol
E as preocupações de amanhã devem esperar até esse dia acabar

Formigas - Manoel de Barros

Não precisei de ler São Paulo, Santo Agostinho,
São Jerônimo, nem Tomás de Aquino,
nem São Francisco de Assis -
Para chegar a Deus.
Formigas me mostraram Ele.

A Chuva - Arnaldo Antunes



A chuva molhou os transeuntes. A chuva encharcou as
praças. A chuva enferrujou as máquinas. A chuva enfureceu
as marés. A chuva e seu cheiro de terra. A chuva com sua
cabeleira. A chuva esburacou as pedras. A chuva alagou a
favela. A chuva de canivetes. A chuva enxugou a sede. A
chuva anoiteceu de tarde. A chuva e seu brilho prateado. A
chuva de retas paralelas sobre a terra curva. A chuva
destroçou os guarda-chuvas. A chuva durou muitos dias. A
chuva apagou o incêndio. A chuva caiu. A chuva
derramou-se. A chuva murmurou meu nome. A chuva ligou
pára-brisa. A chuva acendeu os faróis. A chuva tocou a
sirene. A chuva com a sua crina. A chuva encheu a piscina.
A chuva com as gotas grossas. A chuva de pingos pretos.
A chuva açoitando as plantas. A chuva senhora da lama. A
chuva sem pena. A chuva apenas. A chuva empenou os
móveis. A chuva amarelou os livros. A chuva corroeu as
cercas. A chuva e seu baque seco. A chuva e seu ruído de
vidro. A chuva inchou o brejo. A chuva pingou pelo teto. A
chuva multiplicando insetos. A chuva sobre os varais. A
chuva derrubando raios. A chuva acabou a luz. A chuva
molhou os cigarros. A chuva mijou no telhado. A chuva
regou o gramado. A chuva arrepiou os poros. A chuva fez
muitas poças. A chuva secou ao sol.

Roseana Murray



Como se fosse fácil,
eu me divido em duas
e enquanto a metade fica
bordando invisíveis luares,
a outra, que também sou eu,
anda solta pelos mares.

E enquanto a metade fica
trançando o azul das tardes,
a outra, que também sou eu,
anda louca pelos ares.

Canção da janela aberta - Mário Quintana

Passa nuvem, passa estrela,
Passa a lua na janela...

Sem mais cuidados na terra,
Preguei meus olhos no Céu.

E o meu quarto, pela noite
Imensa e triste, navega...

Deito-me ao fundo do barco,
Sob os silêncios do Céu.

Adeus, Cidade Maldita,
Que lá se vai o teu Poeta.

Adeus para sempre, Amigos...
Vou sepultar-me no Céu!

Eis o pastor pequenino - Cecília Meireles

Eis o pastor pequenino,
muito menor que o rebanho,
a mirar,tímido e atento,
o crepúsculo no campo,
a abraçar-se ao cordeirinho
como irmão do seu tamanho.

Seus olhos são, no silêncio,
mais que de pastor - de santo.

O horizonte azul e verde
vai sendo roxo e amaranto,
e as nuvens todas se acabam,
e uma estrela vai chegando
- para levar o menino
que vai levando o rebanho.

marinha XXXII - Gabriel Bicalho


sem reta
nem rota
paira
sobre a
praia
meu sonho
gaivota

O vento - Dora Ferreira da Silva

Na palma do vento
pouso a fronte. Nele confio.
A quem confiaria senão a ele
este rude labor?

Abandono-me à tormenta
(lumes mastros
gaivotas do mar próximo).

Enreda-me a noite.
Mas dele são os dedos leves
que me fecham os olhos. E é manhã.

Dados biográficos / Carlos Drummond de Andrade

Mas que dizer do poeta
Numa prova escolar?
Que ele é meio pateta
E não sabe rimar?
Que veio de Itabira,
Terra longe e ferrosa?
E que seu verso vira,
De vez em quando, prosa?
Que é magro, calvo, sério
(na aparência) e calado,
com algo de minério
não de todo britado?
Que encontrou no caminho
Uma pedra e, estacando,
Muito riso escarninho
O foi logo cercando?
Que apesar dos pesares
Conserva o bom-humor
Caça nuvens nos ares,
Crê no bem e no amor?

Mas que dizer do poeta
Numa prova escolar
Em linguagem discreta
Que lhe saiba agradar?

Fuga - Miguel Torga



Vento que passas, leva-me contigo
Sou poeira também, folha de outono.
Rês tresmalhada que não quer abrigo
No calor do redil de nenhum dono.

Leva-me, e livre deixa-me cair
No deserto de todas as lembranças,
Onde eu possa dormir
Como no limbo dormem as crianças.

Carla Visi e Gilberto Gil - Só chamei porque te amo

História da alma - Vinícius de Moraes

Meia-noite. Frio. Frio em tudo
E mais frio que em tudo, frio na Alma
A Noite grande e aberta... a Alma grande e aberta...
Infinitamente frias...

No alto a noite má seguia a Alma que vagava
Enregelada e nua entre todas as almas
Seguia a Alma presa
Presa por todos os lados
A Alma caminhava e a noite caminhava com ela
A Alma fugia e a noite perseguia a Alma
E a Alma parava. Então a noite também parava
E mandava um frio mais frio do que a Alma

E a Alma já fria tornava a caminhar
E a noite vinha e perseguia a Alma
E a Alma parava... e a Alma parava...
E chorando ajoelhada pedia perdão...

O intenso brilho - Adélia Prado



É impossível no mundo
estarmos juntos
ainda que do meu lado adormecesses.
O véu que protege a vida
nos separa.
O véu que protege a vida
nos protege.
aproveita, pois,
que é tudo branco agora,
à boca do precipício,
neste vórtice
e fala
nesta clareira aberta pela insônia
quero ouvir tua alma
a que mora na garganta
como em túmulos
esperando a hora da ressurreição,
fala meu nome
antes que eu retorne
ao dia pleno,
à semi-escuridão.

Dentro sem fora - Ferreira Gullar



A vida está
dentro da vida
em si mesma circunscrita
sem saída.

Nenhum riso
nem soluço
rompe
a barreira de barulhos

A vasão
é para o nada
Por conseguinte
não vasa.

A chuva, uma história - Ruy Espinheira Filho



A chuva conta uma história
nas telhas, no chão de ardósia.

Fala do açude onde sonha
esse reflexo risonho

(e onde tão fundo sonharam
os sonhos dos afogados)

que é um menino em seu sonho
de horizontes tão longe

que lá (ele não sabia)
jamais chegaria a vida.

A chuva conta este conto
que é como um sonho em que sonha

esse menino, que se ergue
de sobre a luz do reflexo

(e vai com ele essa luz
de amplos espaços azuis)

à voz que o busca, de casa,
por sobre montes e vales

(para os ouvidos, demais
distante, mas chega à alma),

essa ternura que o chama
nas frias cinzas do ângelus

e o envolve, e o guia, cálida,
entre as ruínas da tarde,

e agora silencia
neste ermo fim do dia

de um homem, enquanto a chuva
chora no rosto dos muros.

Stanzas in meditation - Rodrigo Garcia Lopes

Para Henry David Thoreau

Folhas negras caem, rufam em profusão. O vento encrespa a
Água, Tempo, enruga
faces. Um vale revela
canyons, grutas:
em silêncio, exploramos o interior

Destas montanhas. Uma uma chuva fina, estranha,
começa a cair
e súbito dissipa —
o ruído áspero
de uma vespa.
Este é o céu, claro, como metal. E aquilo,

A fumaça abandonada por um trem, talvez. Flores
Se dissolvem nos olhos, e nos debruçamos sobre velhas lendas
Conferindo as pegadas de um animal desconhecido.

A trilha termina num riacho.

A água se surpreende com este vento todo
que vem do oeste
e que agita a sinfonia das árvores.

Neblina nítida, colinas, um vapor neste espelho.
Num ponto qualquer da paisagem captamos
seus olhos verdes, mudos, fixos na relva úmida.
Um animal e você contemplam do mirante
este milagre

(a baía vazia
— a areia do dia exibindo sua rasante —
rochedos & distâncias, como antes,
animada pelas danças do vento
fazendo desta ausência
presenças manifestas em tudo:
chuva
que desaba
entre os olhos
abertos
da serpente.
Um flash
de luz
entre os
bambus)
:
o silêncio do sonho
traduzindo
uma imagem-movimento
que se desfaz entre a verdade dos instantes.