21 de março - Dia Mundial da Poesia
A poesia é a união de duas palavras
que nunca se supôs que se pudessem juntar
e que formam uma espécie de mistério.
Garcia Lorca
A poesia é uma pintura que se move e uma música que pensa.
Eustache Deschamps
A ciência desenha a onda; a poesia enche-a de água.
Teixeira Pascoaes
Poesia são pensamentos que respiram, e palavras que queimam.
Thomas Gray
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Dia Mundial da Poesia - 21 de março
HAIKAI - Mário Quintana

Uma borboleta amarela?
Ou uma folha seca
Que se desprendeu e não quis pousar?
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Uma névoa de Outono - Fernando Pessoa
Uma névoa de Outono o ar raro vela,
Cores de meia-cor pairam no céu.
O que indistintamente se revela,
Árvores, casas, montes, nada é meu.
Sim, vejo-o, e pela vista sou seu dono.
Sim, sinto-o eu pelo coração, o como.
Mas entre mim e ver há um grande sono.
De sentir é só a janela a que eu assomo.
Amanhã, se estiver um dia igual,
Mas se for outro, porque é amanhã,
Terei outra verdade, universal,
E será como esta.
Cores de meia-cor pairam no céu.
O que indistintamente se revela,
Árvores, casas, montes, nada é meu.
Sim, vejo-o, e pela vista sou seu dono.
Sim, sinto-o eu pelo coração, o como.
Mas entre mim e ver há um grande sono.
De sentir é só a janela a que eu assomo.
Amanhã, se estiver um dia igual,
Mas se for outro, porque é amanhã,
Terei outra verdade, universal,
E será como esta.
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Aviso aos náufragos - Paulo Leminski
Esta página, por exemplo,
não nasceu para ser lida.
Nasceu para ser pálida,
um mero plágio da Ilíada,
alguma coisa que cala,
folha que volta pro galho,
muito depois de caída.
Nasceu para ser praia,
quem sabe Andrômeda, Antártida,
Himalaia, sílaba sentida,
nasceu para ser última
a que não nasceu ainda.
Palavras trazidas de longe
pelas águas do Nilo,
um dia, esta página, papiro,
vai ter que ser traduzida,
para o símbolo, para o sânscrito,
para todos os dialetos da Índia,
vai ter que dizer bom dia
ao que só se diz ao pé do ouvido,
vai ter que ser a brusca pedra
onde alguém deixou cair o vidro.
Não é assim que é a vida?
não nasceu para ser lida.
Nasceu para ser pálida,
um mero plágio da Ilíada,
alguma coisa que cala,
folha que volta pro galho,
muito depois de caída.
Nasceu para ser praia,
quem sabe Andrômeda, Antártida,
Himalaia, sílaba sentida,
nasceu para ser última
a que não nasceu ainda.
Palavras trazidas de longe
pelas águas do Nilo,
um dia, esta página, papiro,
vai ter que ser traduzida,
para o símbolo, para o sânscrito,
para todos os dialetos da Índia,
vai ter que dizer bom dia
ao que só se diz ao pé do ouvido,
vai ter que ser a brusca pedra
onde alguém deixou cair o vidro.
Não é assim que é a vida?
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Manhã de Chuva na Infância - Cecília Meireles
Ao longo do muro, as campânulas escorrem,
gelatinosas,
ainda coradas,
ainda cheirosas,
e já mortas.
Eu sou a menina que vai para a escola
com seu casaquinho vermelho,
e os seus livros forrados de papel azul.
A chuva continua a bater nas flores,
a avivar as cores dos muros,
a gorgolejar nas calhas,
a correr para os negros bueiros.
Eu sou a menina que vai para a escola
feliz, com os cabelos molhados
e o rosto frio.
A chuva é uma alegria, com suas agulhas de vidro
voando por todos os lados.
A chuva cheira a jasmim e a flor "boa-noite!"
Eu sou a menina que de repente fica triste,
porque ao longo do muro as campânulas escorrem,
gelatinosas,
cor de coral, cor de marfim,
perfumadas ainda,
e já mortas.
gelatinosas,
ainda coradas,
ainda cheirosas,
e já mortas.
Eu sou a menina que vai para a escola
com seu casaquinho vermelho,
e os seus livros forrados de papel azul.
A chuva continua a bater nas flores,
a avivar as cores dos muros,
a gorgolejar nas calhas,
a correr para os negros bueiros.
Eu sou a menina que vai para a escola
feliz, com os cabelos molhados
e o rosto frio.
A chuva é uma alegria, com suas agulhas de vidro
voando por todos os lados.
A chuva cheira a jasmim e a flor "boa-noite!"
Eu sou a menina que de repente fica triste,
porque ao longo do muro as campânulas escorrem,
gelatinosas,
cor de coral, cor de marfim,
perfumadas ainda,
e já mortas.
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Entre o luar e a folhagem - Fernando Pessoa
Entre o luar e a folhagem,
Entre o sossego e o arvoredo,
Entre o ser noite e haver aragem
Passa um segredo.
Segue-o minha alma na passagem.
Tênue lembrança ou saudade,
Princípio ou fim do que não foi,
Não tem lugar, não tem verdade.
Atrai e dói.
Segue-o meu ser em liberdade.
Vazio encanto ébrio de si,
Tristeza ou alegria o traz?
O que sou dele a quem sorri?
Nada é nem faz.
Só de segui-lo me perdi.
Entre o sossego e o arvoredo,
Entre o ser noite e haver aragem
Passa um segredo.
Segue-o minha alma na passagem.
Tênue lembrança ou saudade,
Princípio ou fim do que não foi,
Não tem lugar, não tem verdade.
Atrai e dói.
Segue-o meu ser em liberdade.
Vazio encanto ébrio de si,
Tristeza ou alegria o traz?
O que sou dele a quem sorri?
Nada é nem faz.
Só de segui-lo me perdi.
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Ao longe, ao luar - Fernando Pessoa
Ao longe, ao luar,
No rio uma vela,
Serena a passar,
Que é que me revela ?
Não sei, mas meu ser
Tornou-se-me estranho,
E eu sonho sem ver
Os sonhos que tenho.
Que angústia me enlaça ?
Que amor não se explica ?
É a vela que passa
Na noite que fica.
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existe um planeta
perdido numa dobra
do sistema solar
aí é fácil confundir
sorrir com chorar
difícil é distinguir
esse planeta de sonhar
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A minhas solidões vou - Lope de Vega
A minhas solidões vou,
de minhas solidões venho,
porque para andar comigo
me bastam meus pensamentos.
Não sei o que tem a aldeia
onde vivo e onde pereço,
que não posso vir mais longe
porque venho de mim mesmo!
Nem bem nem mal vou comigo;
mas diz meu entendimento
que um homem que é todo ele alma
no próprio corpo está preso.
Entendo quanto me basta,
e somente não entendo
como se sofre a si mesmo
um ignorante soberbo.
De quantas coisas me cansam,
facilmente me defendo;
porém não posso guardar-me
desses perigos de um néscio.
Ele dirá que eu o sou,
porém com falso argumento;
que humildade e necedade
não cabem num só sujeito.
A diferença conheço,
porque nele e em mim contemplo
a loucura da arrogância,
a humildade em seu desprezo.
Ou sabe hoje a natureza
mais que soube em outro tempo,
ou tantos que nascem sábios
é por força de dizê-lo.
Eu só sei que não sei nada,
disse um filósofo, sendo
sua conta a humildade,
onde o que é mais é o menos.
Não me gabo de entendido,
por desditado me tenho;
pois os que não são ditosos,
como podem ser discretos?
Não pode durar o mundo,
pois dizem, e assim o creio,
que soa a vidro quebrado
e que se quebrará presto.
São os sinais do juízo
ver que todos o perdemos,
alguns por carta de mais,
outros por carta de menos.
Disseram que antigamente
a verdade foi-se ao céu:
tal a puseram os homens
que não se lhe viu regresso.
Em dupla idade vivemos
nós próprios e os estrangeiros:
a de prata é a dos estranhos,
a de cobre o nosso meio.
A quem não dará cuidado,
se é espanhol verdadeiro,
ver o homem à moda antiga
e nosso valor moderno?
Deus disse que comeria
seu pão o homem primeiro
suando o suor da carta,
por quebrar seu mandamento;
e alguns desobedientes
a qualquer vergonha e medo,
com as prendas de sua honra
hão trocado seus efeitos.
Virtude e filosofia
peregrinam como cegos.
Cada qual carrega ao outro,
pedindo vão e gemendo.
Dois pólos tem nossa terra,
universal movimento:
a melhor vida o favor,
o melhor sangue o dinheiro.
Escuto planger os sinos,
não me espanto, só me pesa
que em lugar de tantas cruzes
tantos homens mortos veja.
Olhando estou os sepulcros
e seus mármores eternos;
que não o foram seus donos
estão sem língua dizendo.
Oh! bem haja quem os fez,
porque tão-somente dentro
deles, dos mui poderosos
podem vingar-se os pequenos!
Sei que pintam feia a inveja;
eu, porém, tê-la confesso
de alguns homens que não sabem
nem dos que lhes vivem perto.
Sem tratos, contas nem contos,
sem livros e sem cadernos,
quando querem escrever
pedem a alguém o tinteiro.
Sem serem pobres nem ricos,
têm chaminés e canteiros.
Não os despertam cuidados,
não têm pretensões nem pleitos.
Não murmuraram do grande,
nem zombaram do pequeno;
nunca, como eu, páscoas deram
nem firmaram cumprimentos.
Com esta inveja que digo
e com o que passo em silêncio,
a minhas solidões vou,
de minhas solidões venho.
Tradução de Fernando Mendes Vianna
de minhas solidões venho,
porque para andar comigo
me bastam meus pensamentos.
Não sei o que tem a aldeia
onde vivo e onde pereço,
que não posso vir mais longe
porque venho de mim mesmo!
Nem bem nem mal vou comigo;
mas diz meu entendimento
que um homem que é todo ele alma
no próprio corpo está preso.
Entendo quanto me basta,
e somente não entendo
como se sofre a si mesmo
um ignorante soberbo.
De quantas coisas me cansam,
facilmente me defendo;
porém não posso guardar-me
desses perigos de um néscio.
Ele dirá que eu o sou,
porém com falso argumento;
que humildade e necedade
não cabem num só sujeito.
A diferença conheço,
porque nele e em mim contemplo
a loucura da arrogância,
a humildade em seu desprezo.
Ou sabe hoje a natureza
mais que soube em outro tempo,
ou tantos que nascem sábios
é por força de dizê-lo.
Eu só sei que não sei nada,
disse um filósofo, sendo
sua conta a humildade,
onde o que é mais é o menos.
Não me gabo de entendido,
por desditado me tenho;
pois os que não são ditosos,
como podem ser discretos?
Não pode durar o mundo,
pois dizem, e assim o creio,
que soa a vidro quebrado
e que se quebrará presto.
São os sinais do juízo
ver que todos o perdemos,
alguns por carta de mais,
outros por carta de menos.
Disseram que antigamente
a verdade foi-se ao céu:
tal a puseram os homens
que não se lhe viu regresso.
Em dupla idade vivemos
nós próprios e os estrangeiros:
a de prata é a dos estranhos,
a de cobre o nosso meio.
A quem não dará cuidado,
se é espanhol verdadeiro,
ver o homem à moda antiga
e nosso valor moderno?
Deus disse que comeria
seu pão o homem primeiro
suando o suor da carta,
por quebrar seu mandamento;
e alguns desobedientes
a qualquer vergonha e medo,
com as prendas de sua honra
hão trocado seus efeitos.
Virtude e filosofia
peregrinam como cegos.
Cada qual carrega ao outro,
pedindo vão e gemendo.
Dois pólos tem nossa terra,
universal movimento:
a melhor vida o favor,
o melhor sangue o dinheiro.
Escuto planger os sinos,
não me espanto, só me pesa
que em lugar de tantas cruzes
tantos homens mortos veja.
Olhando estou os sepulcros
e seus mármores eternos;
que não o foram seus donos
estão sem língua dizendo.
Oh! bem haja quem os fez,
porque tão-somente dentro
deles, dos mui poderosos
podem vingar-se os pequenos!
Sei que pintam feia a inveja;
eu, porém, tê-la confesso
de alguns homens que não sabem
nem dos que lhes vivem perto.
Sem tratos, contas nem contos,
sem livros e sem cadernos,
quando querem escrever
pedem a alguém o tinteiro.
Sem serem pobres nem ricos,
têm chaminés e canteiros.
Não os despertam cuidados,
não têm pretensões nem pleitos.
Não murmuraram do grande,
nem zombaram do pequeno;
nunca, como eu, páscoas deram
nem firmaram cumprimentos.
Com esta inveja que digo
e com o que passo em silêncio,
a minhas solidões vou,
de minhas solidões venho.
Tradução de Fernando Mendes Vianna
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Soneto da transfiguração - Odylo Costa, Filho

Quero as ilhas no mar amanhecendo
- garças verdes nas águas se deitando -
e os rios em que o barro vai descendo
e o choro humano que vão carreando.
Quero as estradas que mal vão nascendo
e os matos que no sol vão secando.
Quero os olhos de outrora renascendo,
quero a vida de agora despontando.
Tudo sonho reter na mão cansada.
Feito o menino que encontrou um ninho
jogado ao chão, na beira do caminho,
e o quer salvar da força da enxurrada,
e o que resta de mim vendo trazer
para transfigurar-se no teu ser.
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Missão da Poesia - Rubem Alves
Assim são as imagens poéticas:
elas têm o poder
de ir lá no fundo da alma,
onde moram os esquecimentos.
E quando um desses esquecimentos acorda,
a gente sente um estremeção no corpo.
Essa é a missão da poesia:
recuperar os pedaços perdidos de nós.
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