Um poema de amor para domingo - Ana Hatherly

Se eu pudesse dar-te aquilo que não tenho
e que fora de mim jamais se encontra
Se eu pudesse dar-te aquilo com que sonhas
e o que só por mim poderá ter sonhado.
Se eu pudesse dar-te o sopro que me foge
e que fora de mim jamais se encontra
Se eu pudesse dar-te aquilo que descubro
e descobrir-te o que de mim se esconde.
Então serias aquele que existe
e o que só por mim poderá ter sonhado.
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Ana Hatherly
Bernardo Soares (Fernando Pessoa)
O vento levantou-se...
Primeiro era como a voz de um vácuo...
um soprar no espaço para dentro de um buraco,
uma falta no silêncio do ar.
Depois ergueu-se um soluço, um soluço do fundo do mundo,
o sentir-se que tremiam vidraças e que era realmente vento.
Depois soou mais alto, urro surdo,
um chocar sem ser ante o aumentar noturno,
um ranger de coisas, um cair de bocados, um átomo de fim do mundo.
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Fernando Pessoa
As grades - Sidónio Muralha
Um pássaro entrou na gaiola vazia
e a gaiola fechou a alegria.
Canta a gaiola de contentamento
e canta o pássaro contra as grades
mas só canta porque tem saudades
das montanhas, do sol e do vento.
Cheia de pássaro a gaiola
cantarola, cantarola,
mas o pássaro tem asas
e vai deixar a gaiola.
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Sidónio Muralha
Olhar do Tempo - Ives Gandra
Olhar do tempo. Como eu sinto a messe,
Safra da terra, sem semente fora!
Ceifem a messe, que a safra apodrece,
Tempo de sempre, que se faz de agora.
Olhar do tempo. Como eu sinto o rio,
Estrada líquida, sem outra estrada!
Bebam a estrada, que desponta o estio,
Tempo de todos, que se faz de cada.
Olhar do tempo. Como eu sinto o espaço,
Tapete imenso, sem limites ao norte!
Durmam o norte, norteando o passo,
Tempo de vida que se faz de morte.
Olhar do tempo, como eu sinto a cruz!
Tempo de sombra, que se faz de luz.
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Ives Gandra da Silva Martins
O boi - Carlos Drummond de Andrade
Ó solidão do boi no campo,
ó solidão do homem na rua!
Entre carros, trens, telefones,
Entre gritos, o ermo profundo.
Ó solidão do boi no campo,
Ó milhões sofrendo sem praga!
Se há noite ou sol, é indiferente,
A escuridão rompe com o dia.
Ó solidão do boi no campo,
Homens torcendo-se calados!
A cidade é inexplicável
E as casas não têm sentido algum.
Ó solidão do boi no campo!
O navio-fantasma passa
Em silêncio na rua cheia.
Se uma tempestade de amor caísse!
As mãos unidas, a vida salva...
Mas o tempo é firme. O boi é só.
No campo imenso a torre de petróleo.
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Carlos Drummond de Andrade
Fábula - Cecília Meireles
Logo que pode, a azaléia abriu-se.
Ai! tinha um pingo de chuva dentro.
Noites, noites, noites formaram-na.
E meus olhos, esperando.
Será por um breve dia, seu límpido rosto.
Mas já os meus olhos irão dentro dela.
Vejo-os na gota de orvalho.
Vejo-os fechados na seda murcha.
Vejo-o caídos na manhã seguinte.
Fiéis à sua esperança.
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Cecília Meireles
Na noite tranquila - Li Bai
Penso na noite
diante da cama a lua brilha
em cima da geada está a dúvida
miro em cima e há lua cheia
miro embaixo e sinto saudade da minha terra.
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Li Bai
O voo - Menotti Del Picchia
Goza
a euforia do voo do anjo perdido em ti.
Não
indagues se nossas estradas, tempo e vento, desabam no abismo.
Que
sabes tu do fim?
Se
temes que teu mistério seja uma noite, enche-o de estrelas.
Conserva
a ilusão de que teu voo te leva sempre para o mais alto.
No
deslumbramento da ascensão, se pressentires que amanhã estarás mudo, esgota,
como
um pássaro, as canções que tens na garganta.
Canta!
Canta para conservar a ilusão de festa e de vitória.
Talvez
as canções adormeçam as feras que esperam devorar o pássaro.
Desde
que nasceste não és mais que um voo no tempo.
Rumo
do céu?
Que
importa a rota?
Voa
e canta, enquanto resistirem as asas.
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Menotti Del Picchia
Os cavalos da noite - H. Dobal
Os cavalos da noite galopando
de crinas soltas contra a luz da lua
eram fantasmas breves dominando
os sonhos de um menino solitário.
Um menino sem forças contra a noite
sonhava os seus cavalos assustados
e se inventava cavaleiro andante
dono dos seus caminhos pela vida.
Campeava as distâncias descuidado
e armado pelo sono ia amansando
no coração da treva os seus temores.
E revivia a noite no mistério
dos árdegos cavalos renovando
o seu campo de sonho solitário.
de crinas soltas contra a luz da lua
eram fantasmas breves dominando
os sonhos de um menino solitário.
Um menino sem forças contra a noite
sonhava os seus cavalos assustados
e se inventava cavaleiro andante
dono dos seus caminhos pela vida.
Campeava as distâncias descuidado
e armado pelo sono ia amansando
no coração da treva os seus temores.
E revivia a noite no mistério
dos árdegos cavalos renovando
o seu campo de sonho solitário.
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H. Dobal
A hora grafada - Adélia Prado
De noite no mato as árvores semelhavam
uma águia acabada de pousar,
um anjo saudando,
um galo perfeitinho,
uma ave grande vista de frente.
De noite no mato, as vivas figuras enraizadas,
prontas a falar ou bater asas.
uma águia acabada de pousar,
um anjo saudando,
um galo perfeitinho,
uma ave grande vista de frente.
De noite no mato, as vivas figuras enraizadas,
prontas a falar ou bater asas.
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Adélia Prado
As contemplações vem ! Victor Hugo
Vem! - Uma flauta invisível
Suspire perto dos vergéis
-A canção mais tranquila
É a canção de pastores.
O vento sopra, debaixo dos galhos,
O espelho escuro das águas.
-A canção mais feliz
É a canção de pássaros.
Aquele cuidar atento não te atormenta.
Nos amamos! amamos sempre!
-A canção mais encantadora
É a canção de amores.
Suspire perto dos vergéis
-A canção mais tranquila
É a canção de pastores.
O vento sopra, debaixo dos galhos,
O espelho escuro das águas.
-A canção mais feliz
É a canção de pássaros.
Aquele cuidar atento não te atormenta.
Nos amamos! amamos sempre!
-A canção mais encantadora
É a canção de amores.
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Instante - Adalgisa Nery
O espanto abriu meu pensamento
Com idioma vindo do delírio,
Dos receios indefesos, dos louvores sem raízes,
No perdão oferecido sem razão.
O espanto abriu meu pensamento
Na noite carregada de lamentos
Em linguagem universal
Fluindo do eco perdido
Com passos de presságio amanhecendo.
Corpos florindo na pele da terra
Acendendo vida nas rosas e nos vermes,
Aumentando a potência do limo,
Preparando a primavera nos campos,
Ventres irrigando secas raízes,
Cogumelos róseos crescendo
Na umidade das faces.
Coagulação de prantos na semente
Das constelações adivinhadas.
E no faminto inconsciente, o tempo
Sorvendo com fúria o seu sustento
No insondável silêncio de mim mesma.
Com idioma vindo do delírio,
Dos receios indefesos, dos louvores sem raízes,
No perdão oferecido sem razão.
O espanto abriu meu pensamento
Na noite carregada de lamentos
Em linguagem universal
Fluindo do eco perdido
Com passos de presságio amanhecendo.
Corpos florindo na pele da terra
Acendendo vida nas rosas e nos vermes,
Aumentando a potência do limo,
Preparando a primavera nos campos,
Ventres irrigando secas raízes,
Cogumelos róseos crescendo
Na umidade das faces.
Coagulação de prantos na semente
Das constelações adivinhadas.
E no faminto inconsciente, o tempo
Sorvendo com fúria o seu sustento
No insondável silêncio de mim mesma.
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Infinito silêncio - Ferreira Gullar
houve
(há)
um enorme silêncio
anterior ao nascimento das estrelas
antes da luz
a matéria da matéria
de onde tudo vem incessante e onde
tudo se apaga
eternamente
esse silêncio
grita sob nossa vida
e de ponta a ponta
a atravessa
estridente.
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Madrigal gravado em laca - Guimarães Rosa
Quando a borboleta coroou a flor amarela
os lírios , em ângulo reto com seus caules,
fizeram uma profunda saudação...
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O copo d'água - Lago Burnett
O copo d'água. Insípido
entre o pássaro e a lâmpada.
Lúcido e líquido.
Listras de sol passeiam-lhe a superfície
sem excessos matinais de azul-desperto.
Luz flutuante, o mundo transparente,
o copo d'água resiste.
Sólida contextura, as
firmes paredes de vidro unânimes, eternas,
equilibram o milagre.
O copo d'água. insípido
na antenoite sonora. Simples,
lúcido e líquido.
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Poemas do vento - Menotti Del Picchia
Gastar-se no tempo
diluir-se no vento
evolar-se no sonho
deixando
- haverá quem o colha? -
um resíduo...
Memória.
Levarei por onde ande
uma inquietação mais nada
impulso vital que extingo
dentro de um pouco de lama.
Tal que o vento que baila
fazendo seu corpo efêmero
com a poeira das estradas...
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