Carrega-me contigo, Pássaro-Poesia - Hilda Hilst



I

Carrega-me contigo, Pássaro-Poesia
Quando cruzares o Amanhã, a luz, o impossível
Porque de barro e palha tem sido esta viagem
Que faço a sós comigo. Isenta de traçado
Ou de complicada geografia, sem nenhuma bagagem
Hei de levar apenas a vertigem e a fé:
Para teu corpo de luz, dois fardos breves.
Deixarei palavras e cantigas. E movediças
Embaçadas vias de Ilusão.
Não cantei cotidianos. Só cantei a ti
Pássaro-Poesia
E a paisagem-limite: o fosso, o extremo
A convulsão do Homem.
Carrega-me contigo.
No Amanhã.

Noturno - Mário Quintana



Atenção! O luar está filmando...









Quem és tu - Sophia de Mello B. Andresen


Quem és tu que assim vens pela noite adiante,
Pisando o luar branco dos caminhos,
Sob o rumor das folhas inspiradas?

A perfeição nasce do eco dos teus passos,
E a tua presença acorda a plenitude
A que as coisas tinham sido destinadas.

A história da noite é o gesto dos teus braços,
O ardor do vento a tua juventude,
E o teu andar é a beleza das estradas.

Sugestões - Adalgisa Nery



A chuva cai sobre as folhas
Enquanto o vento dobra a intenção das flores
O hálito da terra molhada
Avoluma sugestões no pensamento
Desenha na penumbra da memória
Restos de século, sonhos partidos
E imprecisas causas de sofrimento.

A chuva traz para o meu corpo
O vestido de uma mulher sem nome
Sepultada numa hora sem fixação.

O vento penteia meus cabelos
Com a forma dos ninhos em abandono
Olho o céu intumescido de tristeza
E reconheço que uma forma surgindo na neblina
Tem os meus ombros e o contorno da minha cabeça.

Ouço o vento regressando das infâncias esquecidas
Trazendo as cantigas de roda
Contando as histórias de fadas
Quando a minha voz
Era a voz de menina.

Eu sinto a chuva cair com volúpia
Sobre o solo agradecido
E o vento levar para as distâncias novamente
Fragmentos de muitas vidas
E a evasão dos meus pensamentos.

Françoise Hardy - La Question

Coroai-me de rosas - Ricardo Reis (Fernando Pessoa)



Coroai-me de rosas,
Coroai-me em verdade
De rosas
– Rosas que se apagam
Em fronte a apagar-se
Tão cedo!
Coroai-me de rosas
E de folhas breves.
E basta.

Prelúdio - Garcia Lorca


As alamedas vão,
mas deixam seu reflexo.

As alamedas vão,
mas nos deixam o vento.

O vento está amortalhado
nas imediações, sob o céu.

Mas deixou flutuando
sobre os rios os seus ecos.

O mundo dos vaga-lumes
invadiu minhas recordações.

E um coração diminuto
vai-me brotando nos dedos.

Palavras em forma de redemoinho - Octavio Paz



Abro a janela
que dá
pra nenhuma parte
A janela
que se abre para dentro
O vento
levanta
instantâneas levíssimas
torres de poeira giratória
São
mais altas que esta casa
Cabem
nesta folha
Caem e se levantam
Antes que digam
algo
ao dobrar a folha
se dispersam
Torvelinhos de ecos
aspirados inspirados
por seu próprio girar
Agora
abrem-se noutro espaço
Dizem
não o que dizemos
outra coisa sempre outra
a mesma coisa sempre
Palavras do poema
não as dizemos nunca
O poema nos diz.

Exaltação - Florbela Espanca



Viver! Beber o vento e o sol! Erguer
Ao céu os corações a palpitar!
Deus fez os nossos braços pra prender,
E a boca fez-se sangue pra beijar!

A chama, sempre rubra, ao alto a arder!
Asas sempre perdidas a pairar!
Mais alto até estrelas desprender!
A glória! A fama! Orgulho de criar!

Da vida tenho o mel e tenho os travos
No lago dos meus olhos de violetas,
Nos meus beijos estáticos, pagãos!

Trago na boca o coração dos cravos!
Boêmios, vagabundos, e poetas,
Com eu sou vossa Irmã, ó meus Irmãos!

Este é o lenço - Cecília Meireles



Este é o lenço de Marília,
pelas suas mãos lavrado,
nem a ouro nem a prata,
somente a ponto cruzado.
Este é o lenço de Marília
para o Amado.

Em cada ponta, um raminho,
preso num laço encarnado;
no meio, um cesto de flores,
por dois pombos transportado.
Não flores de amor-perfeito,
mas de malogrado!

Este é o lenço de Marília:
bem vereis que está manchado:
será do tempo perdido?
será do tempo passado?
Pela ferrugem das horas?
ou por molhado
em águas de algum arroio
singularmente salgado?

Finos azuis e vermelhos
do largo lenço quadrado,
- quem pintou nuvens tão negras
neste pano delicado,
sem dó de flores e de asas
nem do seu recado?

Este é o lenço de Marília,
por vento de amor mandado.
Para viver de suspiros
foi pela sorte fadado:
breves suspiros de amante,
- longos, de degredado!

Este é o lenço de Marília
nele vereis retratado
o destino dos amores
por um lenço atravessado:
que o lenço para os adeuses
e o pranto foi inventado.

Olhai os ramos de flores
de cada lado!
E os tristes pombos, no meio,
com o seu cestinho parado
sobre o tempo, sobre as nuvens
do mau fado!

Onde está Marília, a bela?
E Dirceu, com a lira e o gado?
As altas montanhas duras,
letra a letra, têm contado
sua história aos ternos rios,
que em ouro a têm soletrado...

E as fontes de longe miram
as janelas do sobrado.

Este é o lenço de Marília
para o Amado.

Eis o que resta dos sonhos:
um lenço deixado.

Pombos e flores, presentes.
Mas o resto, arrebatado.

Caiu a folha das árvores,
muita chuva tem gastado
pedras onde houvera lágrimas.
Tudo está mudado.

Este é o lenço de Marília
como foi bordado.
Só nuvens, só muitas nuvens
vêm pousando, têm pousado
entre os desenhos tão finos
de azul e encarnado.
Conta já século e meio
de guardado.

Que amores como este lenço
têm durado,
se este mesmo está durando?
mais que o amor representado?

A folha viva - Fiama Hassa P. Brandão


Matem-se o ramo vivo
Da verdura. A folha
Cai, repõe-se, a copa reverdece,
O seu volume sobe.
Nada é efêmero
Sob o tom da luz. Tudo
Retoma a folha, tem recorte,
O seu pecíolo verde ou outra forma.
Cai a folhagem, tinge todo o chão.
Ou, possuída a terra, ela persiste
E é perene a queda
De uma árvore,
Depois o surto,
E tudo convergente, se mantém.

A rosa branca - Thiago de Mello


Não me inquieta se o caminho
que me coube – por secreto
desígnio – jamais floresce.
Dentro de mim, sei que existe,
oculta, uma rosa branca.
Incólume rosa. E branca.

Não pude colhê-la: mal
nascera e logo perdi-me
nos labirintos do tempo,
onde desde então pervago
apenas entressonhando
aquilo que sou – e vive
no recôncavo da rosa.

Sem conhecer-me, padeço
o mistério de existir
em amargo desencontro
comigo mesmo. No entanto,
pesar tão largo se apaga
quando pressinto: na rosa,
mistério não há. Nenhum.

Sem medo de trair-me a face,
posso morrer amanhã.
Extinto o jugo do tempo,
olhos nem boca haverá
- para a queixa e para a lágrima -
se em vez de rosa, de pétala
cinza de pétala, apenas
existir a escuridão.
O vazio. Nada mais.

HAIKAI - Yeda Prates Bernis



Manchas de tarde
na água. E um voo branco
transborda a paisagem.

Meus dias foram aquelas romãs brunidas - Cecília Meireles


Meus dias foram aquelas romãs brunidas
repletas de cor e sumo e doçura compacta.
Foram aquelas dálias, redondas colméias
cheias de abelhas, de vento e de horizontes.
Meus dias foram aquelas negras raízes
escravas, caminhando por humildes subterrâneos.
Foram aquelas rosas duramente construídas
e logo sopradas por lábios displicentes.
Ah! meus dias foram aqueles sóbrios cactos
de raríssima flor encravada em coroas de espinhos.
Meus dias foram estes altos muros robustos,
este peso de enormes pedras, este cansado limite,
onde pousavam solidões, palavras, enganos
com o brilho, a inconstância desta incerta borboleta.

Noite - Abgar Renault


Há duas pombas brancas no telhado.
Junto delas pousa o silêncio do dia já parado,
e entre asas caladas o primeiro gesto da noite vai crescendo.
É tarde nos telhados e nas árvores,
é tarde (triste e mais tarde) nessa rua
que se reabriu no fundo de um olhar,
onde se movem ressurrectos mármores
e começam a discorrer ventos e velas
por sobre a limpidez das mesmas águas velhas,
e pássaros azuis bicam frutos de astro soltos no ar.

Sobem (de onde?) vultos escuros de coisas e de entes,
alongam a última distância, somem a luz que se destece
e a linha dos caminhos, apagam o verde prado.
Não há duas pombas brancas no telhado:
sobre elas, seu voo e seu arrulho ausentes
a lápide sem cor das horas desce.

Flores - Dora Ferreira da Silva


As flores do inverno vão se abrindo
em arbustos sem folhas
candelabros de ramos
que se aquecem
na débil luz que emana das corolas.
Falam em surdina, veladas de aroma,
as pétalas, bailarinas do pudor,
confidenciando nos vórtices secretos
dentro da pálpebra do dia sem calor.

Fernando Pessoa

O Ar - Paulo Bomfim



Em nossa transparência
Os muros da carne.

Em nossa angústia
O vento rebelde.

Em nossa nuvem
O voo do pássaro.

Em nossa fonte
A água invisível.

Em nossa árvore
A serpente do nada.

Somos o ar
Na torre das palavras.

O nascimento do Poema - Adélia Prado


O que existe são coisas,
não palavras. Por isso
te ouvirei sem cansaço recitar em búlgaro
como olharei montanhas durante horas,
ou nuvens.
Sinais valem palavras,
palavras valem coisas,
coisas não valem nada.
Entender é um rapto,
é o mesmo que desentender.
Minha mãe morrendo,
não faltou a meu choro este arco-íris:
o luto irá bem com meus cabelos claros.
Granito, lápide, crepe,
são belas coisas ou palavras belas?
Mármore, sol, lixívia.
Entender me sequestra de palavras e de coisa,
arremessa-me ao coração da poesia.
Por isso escrevo os poemas
pra velar o que ameaça minha fraqueza mortal.
Recuso-me a acreditar que homens inventam as línguas,
é o Espírito quem me impele,
quer ser adorado
e sopra no meu ouvido este hino litúrgico:
baldes, vassouras, dívidas e medo,
desejo de ver Jonathan e ser condenada ao inferno.
Não construí as pirâmides. Sou Deus.

Palavras - Manoel de Barros


Palavra dentro da qual estou há milhões de anos é árvore.
Pedra também.
Eu tenho precedências para pedra.
Pássaro também.
Não posso ver nenhuma dessas palavras que não leve um susto.


Andarilho também.
Não posso ver a palavra andarilho
que não tenha vontade de dormir debaixo de uma árvore.
Que eu não tenha vontade de olhar com espanto,
de novo, aquele homem do saco a passar como um rei de andrajos
nos arruados de minha aldeia.

E tem mais uma: as andorinhas,
pelo que sei, consideram os andarilhos como árvore.