Sonho - Ricardo Reis / Fernando Pessoa



Se recordo quem fui, outrem me vejo,
E o passado é o presente na lembrança.
Quem fui é alguém que amo
Porém somente em sonho.
E a saudade que me aflige a mente
Não é de mim nem do passado visto,
Senão de quem habito
Por trás dos olhos cegos.
Nada, senão o instante, me conhece.
Minha mesma lembrança é nada, e sinto
Que quem sou e quem fui
São sonhos diferentes.

Eu q’ria ser o Mar - Florbela Espanca


Eu q’ria ser o Mar ingente e forte
O mar enorme, a vastidão imensa...
Eu q’ria ser a árvore que não pensa,
Que ri do mundo vão e até da morte...

Eu q’ria ser o Sol, o irmão do Mar
O bem do que é humilde e pobrezinho...
Eu q’ria ser a pedra no caminho
Que não sofre a tortura do pensar...

Mas o Mar também chora de tristeza...
E a árv’re também, como quem reza,
Levanta aos céus os braços como um crente!

E o Sol cheio de mágoa ao fim de um dia,
Tem lágrimas de sangue na agonia,
E as pedras, essas, pisa-as toda a gente...


Canção do mar - Dulce Pontes

Nádia Dantas



Meu barco pequenino
vai singrando as horas,
enfrentando tempestades,
nevoeiros e calmarias.

E assim navego meus dias...

Canção de primavera - Mário Quintana



Um azul do céu mais alto
Do vento a canção mais pura
Me acordou, num sobressalto
Como a outra criatura…

Só conheci meus sapatos
Me esperando, amigos fiéis
Tão afastado me achava
Dos meus antigos papéis!

Dormi cheio de cuidados
Como um barco soçobrando
Por entre uns sonhos pesados
Que nem morcego voejando...

Quem foi que ao rezar por mim
Mudou o rumo da vela
Para que despertasse assim
Como dentro de uma tela?

Um azul do céu mais alto
Do vento a canção mais pura
E agora… este sobresalto...
Esta nova criatura!

SOU NINHO - Humberto Ak'abal



Os pássaros não estão,
esconderam-se no meu coração.

Hoje sou ninho.




Biografia do orvalho 3 - Manoel de Barros



As árvores velhas quase todas foram preparadas
para o exílio das cigarras.
Salustiano, um índio guató, me ensinou isso.
E me ensinou mais: Que as cigarras do exílio
são os únicos seres que sabem de cor quando a
noite está coberta de abandono.
Acho que a gente deveria dar mais espaço para
esse tipo de saber.
O saber que tem força de fontes.

Soneto I - Venho de longe - Paulo Bomfim



Venho de longe, trago o pensamento
Banhado em velhos sais e maresias;
Arrasto velas rotas pelo vento
E mastros carregados de agonia.

Provenho desses mares esquecidos
Nos roteiros de há muito abandonados
E trago na retina diluídos
Os misteriosos portos não tocados.

Retenho dentro da alma, preso à quilha
Todo um mar de sargaços e de vozes,
E ainda procuro no horizonte a ilha.

Onde sonham morrer os albatrozes...
Venho de longe a contornar a esmo,
O cabo das tormentas de mim mesmo.

Lembranças - Adélia Prado


Hoje estou melancólica e suspirosa como minha mãe,
choveu muito, a água invadiu este porão de lembranças,
boiam na enxurrada a caminho do rio.
Deixo que naveguem, pois não as perderei.
O rio é dentro de mim.

Passando incógnito - Robert Frost



É em vão que se ergue a voz, que se suspira
Sob o rumor das folhas, que respira:
Que fazes, entre a sombra secular
Das ramas, ocupado com luz e ar?

Do que a modesta orquídea menos sabes,
Feliz do brilho pouco que lhe cabe,
Que das folhas que a adornam não é dona,
Cuja flor para o solo se flexiona.

Por uma dobra a base lhe arrebatas –
E pareces pequeno ao pé das matas.
Desprende-se uma folha e cai, singela,
Sem trazer o teu nome escrito nela.

Cumpres tua hora e segues adiante.
E as matas ficam, seja como for,
Sem darem pela falta dessa flor
Que tomaste como um troféu do instante.

Conselho - Fernando Pessoa


Cerca de grandes muros quem te sonhas.
Depois, onde é visível o jardim
Através do portão de grade dada,
Põe quantas flores são as mais risonhas,

Para que te conheçam só assim.
Onde ninguém o vir não ponhas nada.
Faze canteiros como os que outros têm,
Onde os olhares possam entrever
O teu jardim com lho vais mostrar.

Mas onde és teu, e nunca o vê ninguém,
Deixa as flores que vêm do chão crescer
E deixa as ervas naturais medrar.

Faze de ti um duplo ser guardado;
E que ninguém, que veja e fite, possa
Saber mais que um jardim de quem tu és -
Um jardim ostensivo e reservado,
Por trás do qual a flor nativa roça
A erva tão pobre que nem tu a vês...

Carlos Drummond de Andrade - Verdade

A Alma - Augusto Frederico Schmidt



Às vezes eu sinto – minha alma
Bem viva.
Outras vezes porém ando erradio,
Perdido na bruma, atraído por todas as distâncias.

Às vezes entro na posse absoluta de mim mesmo
E a minha essência é alguma coisa de palpável
E de real.
Outras vezes porém ouço vozes chamando por mim,
Vozes vindas de longe,
vozes distantes que o vento traz nas tardes mansas.

Sou o que fui ...
Sou o que serei ...

Às vezes me abandono inteiramente a saudades estranhas
E viajo por terras incríveis, incríveis.
Outras vezes porém qualquer coisa à-toa –
O uivo de um cão na noite morta,
O apito de um trem cortando o silêncio,
Uma paisagem matinal,
Uma canção qualquer surpreendida na rua –
Qualquer coisa acorda em mim coisas perdidas no tempo
E há no meu ser uma unidade tão perfeita
Que perco a noção da hora presente, e então

Sou o que fui.
E sou o que serei.

Canto XLIV - Houve um poema - Cecília Meireles



Houve um poema,
entre a alma e o universo.
Não há mais.
Bebeu-o a noite, com seus lábios silenciosos.
Com seus olhos estrelados de muitos sonhos.

Houve um poema:
Parecia perfeito.
Cada palavra em seu lugar,
como as pétalas nas flores
e as tintas no arco-íris.
No centro, mensagem doce
e intransmitida jamais.

Houve um poema:
e era em mim que surgia, vagaroso.
Já não me lembro, e ainda me lembro.
As névoas da madrugada envolvem sua memória.
É uma tênue cinza.
O coral do horizonte é um rastro de sua cor.
Derradeiro passo.

Houve um poema.
Há esta saudade.
Esta lágrima e este orvalho - simultâneos -
que caem dos olhos e do céu.

Fragile - Sting



Fragile

If blood will flow when flesh and steel are one
Drying in the colour of the evening sun
Tomorrow's rain will wash the stains away
But something in our minds will always stay

Perhaps this final act was meant
To clinch a lifetime's argument
That nothing comes from violence
and nothing ever could
For all those born beneath an angry star
Lest we forget how fragile we are

On and on the rain will fall
Like tears from a star
Like tears from a star
On and on the rain will say
How fragile we are
How fragile we are

On and on the rain will fall
Like tears from a star
Like tears from a star
On and on the rain will say
How fragile we are
How fragile we are
How fragile we are
How fragile we are

Caminho ao contrário - Humberto Ak'abal


De vez em quando
caminho ao contrário:
é a minha maneira de lembrar.

Se caminhasse só para a frente,
poderia contar-te
como é o esquecimento.


O menino - Atahualpa Yupanqui



A noite com as espumas do rio,
te estão tecendo um enfeite, menino.

Quero a estrela da noite a mais bela, para brilhar no teu riso,
Menino . . .
Menino, dorme sorrindo menino.
Ah menino!

O menino quis ser peixe e correu à beira do mar
Pôs os pés dentro d'água
Mas não pôde ser peixe.

O menino quis ser nuvem e seus olhos ao céu levou
Voava a nuvem no ar
Mas o menino não voou.

E o menino quis ser homem, e forte compôs sua voz
Mas o mundo era tão seu,
Que o menino, assim menino cresceu

Foram passando os anos e o menino se fez homem
E andou por estes mundos misturando desespero e dor
E um dia, o homem quis ser menino, quis ser nuvem,
Quis ser peixe...

Mas a praia era de angústia, e as nuvens passaram ao longe
E vai o homem pelo mundo, com razão ou sem razão
E leva um menino frustrado, gemendo em seu coração.

Que belo mundo é seu mundo menino, ah, menino
Menino dorme sorrindo menino, ah, menino...