Tenho sede de infinito - Rabindranath Tagore



Não tenho descanso. Tenho sede de infinito.
Minha alma desfalecente aspira aos remotos desconhecidos.

Grande além!
Ah! o canto dolorido da tua flauta chamando!

Esqueço, esqueço sempre que não tenho asas para voar,
que vivo eternamente preso à terra.

A minha alma arde e o meu sono foge.
Sou um estrangeiro num país estranho.

Tu murmuras ao meu ouvido uma esperança impossível.
O meu coração conhece a tua voz como se fosse a sua própria voz.

Grande desconhecido!
Ah o canto dolorido da tua flauta chamando!

Esqueço, esqueço sempre que não tenho o corcel alado.
Não consigo encontrar o sossego,
sou um estrangeiro em meu próprio coração.

Nas brumas batidas de sol das horas lânguidas
que imensa visão de ti me aparece contra o azul do céu!

Grande irreconhecível!
Ah! o canto dolorido da tua flauta chamando!

Esqueço, esqueço sempre que na casa em que habito sozinho,
todas as grades estão fechadas.

Cançãozinha para Tagore - Cecília Meireles


Àquele lado do tempo
onde abre a rosa da aurora,
chegaremos de mãos dadas,
cantando canções de roda
com palavras encantadas.

Para além de hoje e de outrora,
veremos os Reis ocultos
senhores da Vida toda,
em cuja etérea Cidade
fomos lágrima e saudade
por seus nomes e seus vultos.

Àquele lado do tempo
onde abre a rosa da aurora,
e onde mais do que a ventura
a dor é perfeita e pura,
chegaremos de mãos dadas.

Chegaremos de mãos dadas,
Tagore, ao divino mundo
em que o amor eterno mora
e onde a alma é o sonho profundo
da rosa dentro da aurora.

Chegaremos de mãos dadas
cantando canções de roda.
E então nossa vida toda
será das coisas amadas.

Ameaçou chuva - Fernando Pessoa



Ameaçou chuva. E a negra
Nuvem passou sem mais...
Todo o meu ser se alegra
Em alegrias iguais.

Nuvem que passa... Céu
Que fica e nada diz...
Vazio azul sem véu
Sobre a terra feliz...

E a terra é verde, verde...
Por que então minha vista
Por meus sonhos se perde?
De que é que a minha alma dista?

O dom de ouvir - Helena Kolody



Ouvir
Como quem abraça e beija
a alma solitária
dos que ninguém escuta.

Ouvir com o coração
a confidência,
a queixa,
a longa história
dos isolados
pela indiferença alheia.

Ouvir com os olhos
e afirmar:
eu compreendo.

Nem é preciso dizer nada.

HAIKAI - Nádia Dantas



leve e ligeira
entre a sombra e a luz
uma borboleta

O penhasco da águia - Tomas Tranströmer

Por detrás do vidro do terrário
os répteis
estranhamente imóveis.

Uma mulher pendura roupa
em silêncio.
A morte é uma calmaria.

Pelo fundo da terra
a minha alma escorrega
silenciosa como um cometa.

Poemas haikai - Tomas Tranströmer

Os fios elétricos
estendidos por onde o frio reina
Ao norte de toda música.

O sol branco
treina correndo solitário para
a montanha azul da morte.

Temos que viver
com a relva pequena
e o riso dos porões

Agora o sol se deita.
sombras se levantam gigantescas.
Logo logo tudo é sombra.

As orquídeas.
Petroleiros passam deslizando.
É lua cheia.

Fortalezas medievais,
cidades desconhecidas, esfinges frias,
arenas vazias.

As folhas cochicham:
Um javali está tocando órgão.
E os sinos batem.

E a noite se desloca
de leste para oeste
na velocidade da lua.

Duas libélulas
agarradas uma na outra
passam e se vão

Presença de Deus.
No túnel do canto do pássaro
uma porta fechada se abre.

Carvalhos e a lua.
Luz e imagem de estrelas salientes.
O mar gelado.


Tomas Tranströmer, vencedor do prêmio Nobel de Literatura 2011.

Amai-vos... - Gibran Kahlil Gibran



Amai-vos um ao outro,
mas não façais do amor um grilhão.

Que haja, antes, um mar ondulante
entre as praias de vossa alma.

Enchei a taça um do outro,
mas não bebais da mesma taça.

Dai do vosso pão um ao outro,
mas não comais do mesmo pedaço.

Cantai e dançai juntos,
e sede alegres,

mas deixai
cada um de vós estar sozinho.

Assim como as cordas da lira
são separadas e,
no entanto,
vibram na mesma harmonia.

Dai vosso coração,
mas não o confieis à guarda um do outro.

Pois somente a mão da Vida
pode conter vosso coração.

E vivei juntos,
mas não vos aconchegueis demasiadamente.

Pois as colunas do templo
erguem-se separadamente.

E o carvalho e o cipreste
não crescem à sombra um do outro.

Canção - Paul Verlaine


O céu azul sobre o telhado
repousa em calma.
Uma árvore sobre o telhado
balança a palma.

A voz de um sino mansamente
ressoa no ar.
Um passarinho mansamente
põe-se a cantar.

Meu Deus, meu Deus, esta é que é a vida.
simples , tranquila,
como o rumor suave de vida
que vem da vila.

- Tu que aí choras, que é que fizestes,
dize, em verdade,
tu que aí choras, que é que fizestes
da mocidade?

Idade - Fiama Hassa P. Brandão



Conheci dias duradouros,
o sol tão longo entre manhã e tarde.
Um levantar súbito de luz
por trás da crista das heras no muro velho,
e depois descer no verão entre grades verdes
e para além do portão como a cair no Hades,
no inverno. Não havia tempo
nos dias longos, mas a passagem diária
do sol abençoado.

A voz do silêncio - Helena Petrovna Blavatsky



Que a tua Alma dê ouvidos a todo o grito de dor
como a flor do lótus abre o seu seio para beber o sol matutino.

Que o sol feroz não seque uma única lágrima de dor
antes que a tenhas limpado dos olhos de quem sofre.

Que cada lágrima humana escaldante caia no teu coração e ali fique;
nem nunca a tires enquanto durar a dor que a produziu.

Estas lágrimas, ó tu de coração compassivo,
são os rios que irrigam os campos da caridade imortal.
É neste terreno que cresce a flor nocturna de Buddha,
mais difícil de achar, mais rara de ver do que a flor da árvore Vogay.
É a semente da libertação do renascer.

tradução: Fernando Pessoa

O verbo - Fernando Py


o verbo
preexiste
às areias do tempo

o verbo
perfaz o mundo
em seus números

o verbo
no espaço da frase
conjuga
seu traço múltiplo

o verbo
molda-se em carne
no disfarce
da palavra

o verbo
se apessoa
aos enxertos
da voz

o verbo
mal se conquista
- a doma é acerba

o verbo
se averba


Um Chamado João - Carlos Drummond de Andrade



João era fabulista
fabuloso
fábula?
Sertão místico disparando
no exílio da linguagem comum?

Projetava na gravatinha
a quinta face das coisas
inenarrável narrada?
Um estranho chamado João
para disfarçar, para farçar
o que não ousamos compreender?

Tinha pastos, buritis plantados
no apartamento?
no peito?
Vegetal ele era ou passarinho
sob a robusta ossatura com pinta
de boi risonho?

Era um teatro
e todos os artistas
no mesmo papel,
ciranda multívoca?

João era tudo?
tudo escondido, florindo
como flor é flor, mesmo não semeada?
Mapa com acidentes
deslizando para fora, falando?
Guardava rios no bolso
cada qual em sua cor de água
sem misturar, sem conflitar?

E de cada gota redigia
nome, curva, fim,
e no destinado geral
seu fado era saber
para contar sem desnudar
o que não deve ser desnudado
e por isso se veste de véus novos?

Mágico sem apetrechos,
civilmente mágico, apelador
de precípites prodígios acudindo
a chamado geral?
Embaixador do reino
que há por trás dos reinos,
dos poderes, das
supostas fórmulas
de abracadabra, sésamo?
Reino cercado
não de muros, chaves, códigos,
mas o reino-reino?

Por que João sorria
se lhe perguntavam
que mistério é esse?
E propondo desenhos figurava
menos a resposta que
outra questão ao perguntante?

Tinha parte com… (sei lá
o nome) ou ele mesmo era
a parte de gente
servindo de ponte
entre o sub e o sobre
que se arcabuzeiam
de antes do princípio,
que se entrelaçam
para melhor guerra,
para maior festa?

Ficamos sem saber o que era João
e se João existiu
de se pegar.

Mar Calmo - Goethe



Tranquilo, o mar não canta nem ondeia.
O nauta, imerso noutro mar de mágoas,
Os olhos tristes e úmidos passeia
Pela tranqüila quietação das águas.

A onda, que dorme quieta, não espuma;
O astro, que sonha plácido, não canta;
E em todo o vasto mar, em parte alguma
A mais pequena vaga se levanta.

Pousa um momento - Fernando Pessoa


Pousa um momento,
Um só momento em mim,
Não só o olhar, também o pensamento.
Que a vida tenha fim
Nesse momento!
No olhar a alma também
Olhando-me, e eu a ver
Tudo quanto de ti teu olhar tem.
A ver até esquecer
Que tu és tu também.

Só tua alma sem tu
Só o teu pensamento
E eu onde, alma sem eu. Tudo o que sou
Ficou com o momento
E o momento parou.

Clarice Lispector




… alivia minha alma, 
faze com que eu sinta que Tua mão está dada à minha,
faze com que eu sinta que a morte não existe
porque na verdade já estamos na eternidade,
faze com que eu sinta que amar é não morrer,
que a entrega de si mesmo 
não significa a morte e sim a vida,
faze com que eu sinta uma alegria modesta e diária,
faze com que eu não Te indagues demais,
porque a resposta seria tão misteriosa quanto a pergunta,
faze com que eu receba o mundo sem medo,
pois para esse mundo incompreensível nós fomos criados
e nós mesmos também incompreensíveis,
então é que há uma conexão entre esse mistério 
do mundo e o nosso,
mas essa conexão não é clara para nós 
enquanto quisermos entendê-la,
abençoa-me para que eu viva com alegria
o pão que como, o sono que durmo,
faze com que eu tenha caridade 
e paciência comigo mesma, amém.


Passarinhos - Cleonice Rainho



No fio grosso,
um molho de fios,
passarinhos pousam
e cantam de manhãzinha.

São fios do telefone,
vão levar recados pra alguém,
trazer recados pra mim.

Mas o canto fica,
— trinados de alegria
que vêm com o sol do dia.

O menino e o mundo - Emílio Moura



A água canta nas pedras.
Um arco-íris inocente brinca num raio de sol.
A vida sorri à vida.
A realidade está sonhando.

Azul menino - Stella Leonardos

Onde azula
na campina
um menino
de azul-fino,
pés descalços,
braços nus,

do azul lado
da campina
de azulado
mais celeste
que os celestes
mais azuis,

onde os ares
azuleam
de árias de águas
de cachoeira
de cantar a-
zuis cantares,

onde as águas
burborejam
burburinho
de azuis círculos
e áreas se asam
de azuis asas,

uma infância
de azul leste
de azul lesto
de azul terno
no azul presto
cantoeterno.