Arte poética - Jorge Luís Borges



Olhar o rio feito de tempo e água
E recordar que o tempo é outro rio,
Saber que nos perdemos como o rio
E nossas faces passam como a água.

Perceber que a vigília é outro sonho
Que sonha não sonhar, e que essa morte
Que a nossa carne teme é a mesma morte
De toda noite, que é sono, que é sonho.

Vislumbrar num dia ou num ano um símbolo
dos dias dos homens e de seus anos,
E converter o ultraje desses anos
Em uma música, um rumor e um símbolo.

Ver na morte o sonho, entrever no ocaso
Um triste ouro, sendo assim a poesia
Que é imortal e pobre. Pois a poesia
Volta sempre, tal como a aurora e o ocaso.

Às vezes durante as tardes um rosto
Nos olha do mais fundo de um espelho;
A arte deve ser como esse espelho
Que nos revela nosso próprio rosto.

Contam que Ulisses, farto de prodígios,
Chorou de amor ao divisar sua Ítaca
Tão verde e humilde. A arte é essa Ítaca
De verde eternidade, sem prodígios.

Também é como o rio interminável,
Que passa e fica e é cristal de um mesmo
Heráclito inconstante, que é o mesmo
E é outro, como o rio interminável.

Dobre - Fernando Pessoa



Peguei no meu coração
E pu-lo na minha mão
Olhei-o como quem olha
Grãos de areia ou uma folha.

Olhei-o pávido e absorto
Como quem sabe estar morto;
Com a alma só comovida
Do sonho e pouco da vida.

Necessidade - Simone Weil



O círculo dos dias do céu deserto que gira
Em meio ao silêncio aos olhos dos mortais
Garganta aberta aqui embaixo, onde cada hora engole
Tantos gritos tão suplicantes e tão cruéis

Todos os astros lentos nos passos de sua dança
Única dança fixa, brilho silencioso do alto
Sem forma apesar de nós, sem nome, sem cadência
Perfeito demais, que não reveste nenhum defeito

Neles suspendidos, nossa cólera é vã
Acalma nossa sede se vós partis nossos corações.
Clamando e desejando, seu círculo nos arrasta
Nossos senhores brilhantes foram sempre vencedores

Dilacera as carnes, cadeias de claridade pura
Cravadas sem um gemido no ponto fixo do Norte
A alma me expõe a toda ferida
Nós desejamos vos obedecer até a morte.

Da fidelidade - Vinícius de Moraes


Há alguma coisa maior que nós mesmos
que é a fidelidade a nós mesmos.

Flor espantosa que vive das águas cáusticas
e das terras apodrecidas da prodigiosa extensão humana.

É a sua santidade que eu quero fazer nascer
destas palavras de ritmo obscuro
E neste momento mesmo é talvez a sua inocência
que eu violento com os meus dedos mártires que a desejariam sangrando.

Ela nasce desse instante supremo
em que o homem que viu a verdade
sente que a sua simplicidade trágica nada poderá contra ele

Ele que é como o país que vê a guerra
no pássaro de arribação que se pousou
da grande viagem sobre o seu pavilhão estendido.

Não existe talvez nada mais belo que a miséria
que habita essa alma que nós mostramos
como um pavilhão estendido ao pássaro peregrino
E talvez nada mais horrível que essa guerra
que se vê nascer subitamente das entranhas da nossa miséria

A fidelidade é como o amor da miséria pelo eterno viajante sereno
É como um homem que à força de contemplar um rio
é por sua vez comtemplado por ele.

Se é que há um lugar de Deus em cada criatura
nada será fidelidade senão a fidelidade à falta de Deus neste lugar
Aos sentimentos e nunca à verdade
porque a verdade é o símbolo do absoluto e o absoluto é a morte do homem.

Ai de mim! talvez eu devesse morrer
porque eu digo as palavras da fé com gestos de inteligência.
Fidelidade, lírio, anjo, mar de pureza!

Desenho leve - Cecília Meireles



Via-se morrer o amor
de braços abertos.

Uma espuma azul andava
nas areias desertas.

Nos galhos frescos das árvores,
recentemente cortadas,
meninas todas de branco
se balançavam.
O eco partia o baralho
de suas risadas.

Via-se morrer o amor
de mãos estendidas.

Uma lua sem memória
pelas águas transparentes
arrastava seus vestidos.

Via-se morrer o amor
de solidões cercado.

Via-se e tinha-se pena
sem se poder fazer nada.

E era uma tarde de lua,
com vento pelas estrelas
esquecidas.

E ao longe riam-se as crianças:
no princípio do mundo,
no reino da infância.

Uma perda - Artur da Távola



A Carlos Drummond de Andrade

No meio do caminho tinha uma perda.
Tinha uma perda no meio do caminho.
Tinha uma perda.
No meio do caminho tinha uma perda.

Primeiro a irmã depois o pai.
Não sabia que no meio do caminho
tinha a perda do paraíso
que me fez bravo.
Fui só, fui eu,
fui vida a partir da perda
que me estava destinada
no meio do carinho
de minha mãe solitária.

Fui perda de mim mesmo
procurado por toda a vida
até que achado no poema
do meu hoje encanecido.

Tudo porque
no meio do caminho tinha uma perda.
Tinha uma perda no meio do carinho.

Janis Joplin - The Rose

Chove - Ana Cristina César


A chuva cai.
Os telhados estão molhados,
Os pingos escorrem pelas vidraças.
O céu está branco,
O tempo está novo.
A cidade lavada.
A tarde entardece,
Sem o ciciar das cigarras,
Sem o jubilar dos pássaros,
Sem o sol, sem o céu.
Chove.
A chuva chove molhada,
No teto dos guarda-chuvas.
Chove.
A chuva chove ligeira,
Nos nossos olhos e molha.
O vento venta ventado,
Nos vidros que se embalançam,
Nas plantas que se desdobram.
Chove nas praias desertas,
Chove no mar que está cinza,
Chove no asfalto negro,
Chove nos corações.
Chove em cada alma,
Em cada refúgio chove;
E quando me olhaste em mim,
Com os olhos que me seguiam,
Enquanto a chuva caía
No meu coração chovia
A chuva do teu olhar.


Rosa - Cecília Meireles



Tu és como o rosto das rosas:
diferente em cada pétala.

Onde estava o teu perfume? Ninguém soube.
Teu lábio sorriu para todos os ventos
e o mundo inteiro ficou feliz.

Eu, só eu,
encontrei a gota de orvalho que te alimentava,
como um segredo que cai do sonho.

Depois, abri as mãos,
- e perdeu-se.

Ferido de amor e morte - Manoel de Barros


Ferido de amor e morte
Ando à procura de paz.
Cadê teu rosto de brumas,
Para meu sonho desabado?

Meus pés de urzes e barcos,
Magoei-os pelos caminhos.
Soprem ventos do oceano
Sobre as flores e os espinhos...

Casa entre grades e rosas
Com portão de ferro arqueado.
- Sonhe o menino perdido
Com seus ombros desabados.

Canção - Cecília Meireles



Ouvi cantar de tristeza,
porém não me comoveu.
Para o que todos deploram,
que coragem Deus me deu.

Ouvi cantar de alegria.
No meu caminho, parei.
Meu coração fez-se noite.
fechei os olhos. Chorei.

Dizem que cantam amores.
Não quero ouvir mais cantar.
Quero silêncios de estrelas,
voz sem promessas do mar.

Penso em ti no silêncio da noite - Álvaro de Campos



Penso em ti no silêncio da noite, quando tudo é nada,
E os ruídos que há no silêncio são o próprio silêncio,
Então, sozinho de mim, passageiro parado
De uma viagem em Deus, inutilmente penso em ti.

Todo o passado, em que foste um momento eterno
E como este silêncio de tudo.
Todo o perdido, em que foste o que mais perdi,
É como estes ruídos,
Todo o inútil, em que foste o que não houvera de ser
É como o nada por ser neste silêncio nocturno.

Tenho visto morrer, ou ouvido que morrem,
Quantos amei ou conheci,
Tenho visto não saber mais nada deles de tantos que foram
Comigo, e pouco importa se foi um homem ou uma conversa;
Ou um [...] assustado e mudo,
E o mundo hoje para mim é um cemitério de noite
Branco e negro de campas e [...] e de luar alheio
E é neste sossego absurdo de mim e de tudo que penso em ti.

Ventos da noite - Pablo Neruda



Como uma bambolina a Lua na altura deve arquear-se...
Ventos da noite, tenebrosos ventos!
Que rugem e fendem as ondas do céu,
que pisam os tetos com pés de rocio.
Estirado, dormindo,
enquanto as ébrias ressacas do céu
desmoronam bramindo sobre o pavimento.
Estirado, dormindo, quando as distâncias terminam e voam
trazendo a meus olhos o que estava distante.

Ventos da noite, tenebrosos ventos!
Quão pequenas as minhas asas neste golpe tremendo!
Que grande é o mundo diante de minha garganta abatida!
Entretanto, se eu quiser, posso morrer,
estirar-me na noite para que a ira do vento me arraste.
Morrer, estirar-me adormecido,
voar na violenta maré, cantando, estirado, adormecido!!
Sobre os telhados galopam os cascos do céu.
Uma chaminé soluça...
Ventos da noite, tenebrosos ventos!

Amanhecência - Stella Leonardos

Algo peço? ou me pertence?
Contudo a tudo pertenço
— às águas, árvores, astros
e acima de tudo às asas
das cantigas que amanheçam.

Vai, meu coração de pássaro,
sofrendo por lá num "tremolo".

Talvez tuas penas caiam
nas cordas manhãs de essência
e acordem pássaros trêmulos
no coração de outras penas.

Quem sabe se alando acordes
e cantos amanhecência
de pássaros cantos novos?


Saio do sonho, da noite, do absurdo - Cecília Meireles



Saio do sonho, da noite, do absurdo:
sou navegante que aborda o limite humano,
espuma breve
Meus vestidos são de uma tristeza total:
de frágil superfície ao denso forro,
profundo mar.
Pergunto-me por que venho
e por que venho assim vestida:
- é dos lugares do sonho, da noite, do absurdo?
- é do limite humano a que abordo,
séria e inerme?
Entre os dias humanos
e a noite ex-humana
que mensageiro acaso somos?
A que destinatários?
em que linguagem?
que mensagem?
Ó noite, ó sonhos, ó absurdo
onde, no entanto, fluíamos, claríssimos!

Eu amo tudo o que foi - Fernando Pessoa



Eu amo tudo o que foi
Tudo o que já não é,
A dor que já me não dói,
A antiga e errônea fé,
O ontem que a dor deixou,
O que deixou alegria
Só porque foi, e voou
E hoje é já outro dia.

José - Carlos Drummond de Andrade por Paulo José

Carlos Drummond de Andrade - entrevista

Consolo na praia - Carlos Drummond de Andrade


Vamos, não chores...
A infância está perdida.
A mocidade esta perdida.
Mas a vida não se perdeu.


O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.

Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis casa, navio, terra.
Mas tens um cão.

Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humour?

A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.

Tudo somado, devias
precipitar-te, de vez, nas águas.
Estás nu na areia, no vento...
Dorme, meu filho.



A flor e a náusea - Carlos Drummond de Andrade


Preso à minha classe e a algumas roupas,
Vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?

Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.

Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.

Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.

Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.

Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.