Utopia - Dora Ferreira da Silva


Deus é dia - noite
inverno - verão
guerra - paz
penúria - saciedade:
era este o credo da Montanha
Dormindo velávamos.

Quantas vezes a ti voltei
regaço
e a ti voltarei
horizonte da meta?
Não do preciso ou impreciso desejo
mas doar pleno
sendo Deus oferenda e altar.
Quem desperta do gesto litúrgico
de si mesmo feito
sente o peito pulsar
silêncio
e dança.


Canção - Tasso da Silveira


Os ouvidos eternos
ficaram, atentos, escutando
o fundo rumor dos passos:

dos passos dos homens
pelos
caminhos
do mundo.



HAIKAI - Alice Ruiz



lua quase cheia
por trás das nuvens
nos olhos do cão

Navegação - Cecília Meireles


Éramos feitos de um leite casto,
repleto de suspiros.

Feitos de canções docemente entoadas
sob vagas iluminações.

De brinquedos poéticos, sob estrelas,
em varandas e laranjais.

Tínhamos olhos cheios de flores e pássaros,
a boca de preces, a testa de beijos.

Pisávamos no mundo com leveza de anjo,
e iríamos, certamente, para além do horizonte.

Escolhíamos as palavras de dizer, com grande enlevo,
porque falar já era ser.

Amávamos na viagem a estrela que ia na proa
tanto como a espuma que nos fugia.

Com tantos ontens e amanhãs, não combatíamos pelo hoje.
Ele ia sendo por si, harmonioso, entre uns e outros.

E éramos tudo, divinamente, com gracioso esquecimento.
E nem tomávamos, porque éramos de dar.

Assim morremos, dos contrastes que matam os homens.


The Om

Meditação - Rabindranath Tagore



O amanhã pertence a nós!
Ó Sol, levanta-te sobre os corações que sangram
E desabrocham como flores na manhã,
E também sobre o banquete do orgulho,
Ontem iluminado por tochas, e hoje reduzido a cinzas...

Abdicação - Fernando Pessoa



Toma-me, ó noite eterna, nos teus braços
E chama-me teu filho.
Eu sou um rei
que voluntariamente abandonei
O meu trono de sonhos e cansaços.

Minha espada, pesada a braços lassos,
Em mão viris e calmas entreguei;
E meu cetro e coroa — eu os deixei
Na antecâmara, feitos em pedaços

Minha cota de malha, tão inútil,
Minhas esporas de um tinir tão fútil,
Deixei-as pela fria escadaria.

Despi a realeza, corpo e alma,
E regressei à noite antiga e calma
Como a paisagem ao morrer do dia.

Chanson - Jacques Prévert



Quel jour sommes-nous
Nous sommes tous les jours
Mon amie
Nous sommes toute la vie
Mon amour
Nous nous aimons et nous vivons
Nous vivons et nous nous aimons
Et nous ne savons pas ce que c'est que la vie
Et nous ne savons pas ce que c'est que le jour
Et nous ne savons pas ce que c'est que l'amour.

Alongo-me - Guimarães Rosa


O rio nasce
toda a vida.
Dá-se
ao mar a alma vivida.
A água amadurecida,
a face
ida.
O rio sempre renasce.
A morte é vida.


Canção de Amor - Hermann Hesse



Tu és a corça e eu o cervo,
pássaro tu e eu a árvore,
o sol tu e eu a neve,
tu és o dia e eu o sonho.

De minha boca adormecida à noite
um pássaro de ouro voa a ti:
tem a voz clara, multicolores asas,
e vai cantar-te a canção do amor
- e vai cantar-te a canção de mim.

Amor - Roseana Murray



Amor é o mistério
maior,
o jogo mágico
que se joga
com pedras sagradas,
pedaços da alma,
enluarados cristais.

Estrada que atravessa
abismos, cavernas, oceanos,
as mais altas montanhas,
e deságua no outro,
dentro dos seus sonhos,
dentro da sua noite.

Perseverança - Flora Figueiredo



Sofro pela espera longa e infundada,
pela flecha que saiu sem dar em nada,
pelo remo que quebrou sem navegar,
pela rocha que tombou, partiu-se ao meio
e brotou pedras onde eu quis colher centeio,
pela manhã que amanheceu sem se deitar.

Escuto a cotovia que insinua
que o cravo morreu, mas a terra continua.

Bendigo o chão por cada grão e me comovo.
Parto de novo.

A noite é essa escuridão tão envolvente - Cecília Meireles



A noite é essa escuridão tão envolvente
que parece um exercício de morte:
assim vai desaparecendo tudo,
assim desaparecemos dos outros
e de nós.

Apenas respiramos
Podem cortar este último fio
- e o tear que somos se imobiliza.

A noite esconde a terra, o céu, a casa, os vossos rostos.

Estou novamente dentro de uma entranha?
Humana ? Cósmica? Em que entranha me aninho,
onde se enrola o novelo da minha memória,
em que cofre, na escuridão?

Nossas asas estão docemente fechadas
e nossos olhos moram no pensamento.

Cada um tem a sua noite.
Cada coisa.
E tudo está na sua noite,
enquanto é noite.

O dia é um bailarino com sinos e espelhos.

Interrompemos a treva onde aprendíamos lembranças;
e somos de repente uns falsos acordados.

A árvore e a nuvem - Tomas Tranströmer


Uma árvore anda de aqui para ali sob a chuva,
com pressa, ante nós, derramando-se na cinza.
Leva um recado. Da chuva arranca vida
como um melro ante um jardim de fruta.

Quando a chuva cessa, detém-se a árvore.
Vislumbramo-la direita, quieta em noites claras,
à espera, como nós, do instante
em que flocos de neve floresçam no espaço.