Retrato Campestre - Carlos Pena Filho



Havia na planície um passarinho,
Um pé de milho e uma mulher sentada.
E era só. Nenhum deles tinha nada
com o homem deitado no caminho.

O vento veio e pôs em desalinho
a cabeleira da mulher sentada
e despertou o homem lá na estrada
e fez canto nascer no passarinho.

O homem levantou-se e veio, olhando
a cabeleira da mulher voando
na calma da planície desolada.

Mas logo regressou ao seu caminho
deixando atrás um quieto passarinho,
um pé de milho e uma mulher sentada.


Vida - Maria Helena Amoras



O sol veio...
Despertou, subiu,
esquentou
declinou
e morreu dentro de mim...

E a lua veio...
Acenou, riu
e falou para mim
palavras de amor:
"__ És fonte,
inspiração de vida.
Razão de harmonia.
Em cada lágrima caída
está a tua dita.
Não te queixes
porque tudo é fantasia:
sonhos
ilusões
paixões
e melancolia...
Levanta,
anda, corre e ri
A vida é o amor
que ainda brota de ti..."


Inscrição sobre as ondas - David Mourão-Ferreira

 
Mal fora iniciada a secreta viagem,
um deus me segredou que eu não iria só.

Por isso a cada vulto os sentidos reagem,
supondo ser a luz que o deus me segredou.


Caboclo-d'Água - Henriqueta Lisboa

Caboclo-d'água Ô
caboclo-d'água.

Caboclo-d'água
vem de noite
— assombração.

Caboclo-d'água
molengão
tocando viola.

Caboclo-d'água
vá-se embora
vá-se embora
caboclo-d'àgua
não me chame
não!

A chuva é muita
sobe o rio
no barranco.

O vento chora
mais que reza
uma oração.

Acende a vela
minha gente,
eu tenho medo.

Eu tenho medo
de afogar
na escuridão.


O nome lírico - Fiama Hassa P. Brandão

Esta manhã
hoje
é um nome.

Nem mesmo amanheceu
nem o sol
a evoca.

Uma palavra
palavra só
a ergue.

Como um nome
amanhece
clareia.

Não do sol
mas de quem
a nomeia.


Encomenda - Cecília Meireles

Desejo uma fotografia
como esta – o senhor vê? – como esta:
em que para sempre me ria
com um vestido de eterna festa.

Como tenho a testa sombria,
derrame luz na minha testa.
Deixe esta ruga, que me empresta
um certo ar de sabedoria.

Não meta fundos de floresta
nem de arbitrária fantasia…
Não… Neste espaço que ainda resta,
ponha uma cadeira vazia.


Meninos - Murilo Mendes

Sentado à soleira da porta
Menino triste
Que nunca leu Julio Verne
Menino que não joga bilboquê
Menino das brotoejas e da tosse eterna

Contempla o menino rico na varanda
Rodando na bicicleta
O mar autônomo sem fim.

É triste a luta de classes.

Alice Ruiz



na ponta do galho
só uma folha balança
um periquito


O dia inacabado - Lêdo Ivo



 Como todos os homens sou inacabado.
 Jamais termino de ser.
 Apos a noite breve um longo amanhecer
 me detém no umbral do dia.

 Perco o que ganho no sonho e no desejo
 quando a mim mesmo me acrescento.
 Toda vez que me somo, subtraio-me
 uma porção levada pelo vento.
 Incompleto no dia inacabado,
 livre de ser ainda como e quando,
 sigo a marcha das plantas e das estrelas.
 E o que me falta e sobra é o meu contentamento.


As identidades do poeta - Carlos Drummond de Andrade



(trecho)
(...)

Fernando Pessoa caminha sozinho
pelas ruas da Baixa,
pela rotina do escritório
mercantil hostil
ou vai, dialogante, em companhia
de tantos si-mesmos
que mal pressentimos
na seca solitude
de seu sobretudo?
Afinal, quem é quem, na maranha
de fingimento que mal finge
e vai tecendo com fios de astúcia
personas mil na vaga estrutura
de um frágil Pessoa?

(...)