Pássaro morto - Maria Rosa Colaço

De bico aberto
todo molhadinho
de penas luzidas
cabecinha arrepiada
pobre passarinho que morreste afogado.
Já não pias
Já não cantas
Já não vês os teus olhos
no espelho das águas.

Raízes - Sidónio Muralha

Velhas pedras que pisei
Saiam da vossa mudez
Venham dizer o que sei
Venham falar português
Sejam duras como a lei
E puras como a nudez.

Minha lágrima salgada
Caiu no lenço da vida
Foi lembrança naufragada
E para sempre perdida
Foi vaga despedaçada
Contra o cais da despedida.

Visitei tantos países
Conheci tanto luar
Nos olhos dos infelizes
E porque me hei-de gastar?
Vou ao fundo das raízes
E hei-de gastar-me a cantar.

A rua diferente - Carlos Drummond de Andrade

Na minha rua estão cortando árvores
botando trilhos
construindo casas.

Minha rua acordou mudada.
Os vizinhos não se conformam.
Eles não sabem que a vida
tem dessas exigências brutas.

Só minha filha goza o espetáculo
e se diverte com os andaimes,
a luz da solda autógena
e o cimento escorrendo nas fôrmas.

Nádia Dantas

nas asas do vento
o sonho infantil
flutua no céu

Balada das dez bailarinas do cassino - Cecília Meireles

Dez bailarinas deslizam
por um chão de espelho.
Têm corpos egípcios com placas douradas,
pálpebras azuis e dedos vermelhos.
Levantam véus brancos, de ingênuos aromas,
e dobram amarelos joelhos.

Andam as dez bailarinas
sem voz, em redor das mesas.
Há mãos sobre facas, dentes sobre flores
e os charutos toldam as luzes acesas.
Entre a música e a dança escorre
uma sedosa escada de vileza.

As dez bailarinas avançam
como gafanhotos perdidos.
Avançam, recuam, na sala compacta,
empurrando olhares e arranhando o ruído.
Tão nuas se sentem que já vão cobertas
de imaginários, chorosos vestidos.

As dez bailarinas escodem
nos cílios verdes as pupilas.
Em seus quadris fosforescentes,
passa uma faixa de morte tranqüila.
Como quem leva para a terra um filho morto,
levam seu próprio corpo, que baila e cintila.

Os homens gordos olham com um tédio enorme
as dez bailarinas tão frias.
Pobres serpentes sem luxúria,
que são crianças, durante o dia.
Dez anjos anêmicos, de axilas profundas,
embalsamados de melancolia.

Vão perpassando como dez múmias
as bailarinas tão fatigadas.
Ramo de nardos inclinado flores
azuis, brancas, verdes, douradas.
Dez mães chorariam se vissem
as bailarinas de mãos dadas.

Hoje de manhã saí muito cedo - Alberto Caeiro/Fernando Pessoa

Hoje de manhã saí muito cedo,
Por ter acordado ainda mais cedo
E não ter nada que quisesse fazer...

Não sabia que caminho tomar
Mas o vento soprava forte, varria para um lado,
E segui o caminho para onde o vento me soprava nas costas.

Assim tem sido sempre a minha vida, e
Assim quero que possa ser sempre -
Vou onde o vento me leva e não me
Sinto pensar.

Viviane Mosé - Vida e Tempo

A menina enferma - Cecília Meireles

A menina enferma tem no seu quarto formas inúmeras
que inventam espantos para seus olhos sem ilusão.

Bonecos que enchem as grandes horas de pesadelos,
que lhe roubam os olhos, que lhe partem a garganta,
que arrebatam tesouros da sua mão.

Um dia, ela descobriu sozinha que era duas!
a que sofre depressa, no ritmo intenso e atroz da noite
e a que olha o sofrimento do alto do sono, do alto de tudo,
balançada num céu de estrelas invisíveis,
sem contato nenhum com o chão.

A mão da menina enferma refratou-se também na água pura,
como, outras vezes, sua voz, nesses rios do céu.

Partiu-se a mão contemplativa dentro d'água:
mas não houve mesmo amargura, mas quase delícia,
no seu pulso quebrado e exato.

E ela contempla a onda mansa:
e tudo isso é uma simples lembrança?

é uma alheia notícia?
ou algum velho retrato?

A menina enferma passeia no jardim brilhante,
de plantas úmidas, de flores frescas, de água cantante,
com pássaros sobre a folhagem.

A menina enferma apanha o sol nas mãos magrinhas:
seus olhos longos têm um desenho de andorinhas
num rosto sereno de imagem.

A menina enferma chegou perto do dia tão mansa
e tão simples como uma lágrima sobre a esperança.
E acaba de descobrir que as nuvens também têm movimento.

Olha-as como de muito mais longe. E com um sorriso de saudade
põe nesses barcos brancos seus sentimentos de eternidade
e parte pelo claro vento.

Adriana Calcanhoto - Esquadros

Parábola - Cyro de Mattos

Prometeu soltar os pássaros,
Não extrair a lágrima da árvore,
Repartir os frutos com os outros,
Deixar a água limpa,
Não envenenar o céu.

No último gesto
Pensou que era morto
E viveu.

Alquimia - Yeda Prates Bernis



Enterrei meu canarinho
junto à roseira.
Agora, a primeira rosa
vai amanhecer
cantando.

Soneto inascido - Artur da Távola

O poema subjaz.
Insiste sem existir
escapa durante a captura
vive do seu morrer.
O poema lateja.
É limbo, é limo,
imperfeição enfrentada,
pecado original.
O poema viceja no oculto
engendra-se em diluição
desfaz-se ao apetecer.
O poema poreja flor e adaga
e assassina o íncubo sentido.
Existe para não ser.

Poeta - Adolfo Casais Monteiro

Poeta: uma criança em frente do papel,
Poema: os jogos inocentes,
invenções do menino aborrecido e só
A pena joga com palavras ocas,
Atira-se ao ar a ver se ganha o jogo.
Os dados caem: são o poema: Ganhou.

Elegia - Orides Fontela


Mas para que serve o pássaro?

Nós o contemplamos inerte.
Nós o tocamos no mágico fulgor das penas.
De que serve o pássaro se
desnaturado o possuímos?
O que era voo e eis
que é concreção letal e cor
paralisada, íris silente, nítido,
o que era infinito e eis
que é peso e forma, verbo fixado, lúdico
o que era pássaro e é
o objeto: jogo
De uma inocência que
o contempla e revive
- criança que tateia
no pássaro um esquema
de distâncias -
mas para que serve o pássaro?
O pássaro não serve; arrítmicas
brandas asas repousam.



Viagem - Helena Kolody

Era um pássaro triste.
Andorinha exaurida,
A viajar para longe.
Em suas asas tremia
Um prenúncio de morte.

A árvore acenou da distância
Um fraterno chamado.

Repousou a andorinha
E sonhou longamente,
Acordada.
E foi, aquele sonho, a vida.

Bebendo à luz da lua - Li Bai

Um jarro de vinho entre as flores,
bebo sozinho - nenhum amigo me acompanha.
Alço minha taça, convido a lua
e minha sombra - agora somos três.
A lua não bebe
e minha sombra apenas imita meus gestos.
Mesmo assim, são elas as minhas companhias.
É primavera, tempo de festa -
canto, a lua escuta e cintila;
danço, minha sombra se agita, animada.
Enquanto estou sóbrio, juntos estamos os três;
quando me embriago, cada um segue seu rumo.
Selamos uma amizade que nenhum mortal conhece.
E juramos nos encontrar no mundo além das nuvens.

Djavan - Faltando Um Pedaço

Praia - Cecília Meireles



Nuvem, caravela branca
No ar azul do meio-dia:
- quem te viu como eu te via?

Rolaram trovões escuros
Pela vertente dos montes.
Tremeram súbitas fontes.

Depois, ficou tudo triste
Como o nome dos defuntos:
Mar e céu morreram juntos.

Vinha o vento do mar alto
E levantava as areias,
Sem ver como estavam cheias

De tanta coisa esquecida,
Pisada por tantos passos,
Quebradas em tantos pedaços!

Por onde ficou teu corpo,
- ilusão de claridade -
quando se fez tempestade?

Nuvem, caravela branca,
Nunca mais há meio-dia?

(já nem sei como te via!)

O olhar de Murilo Mendes - António Ramos Rosa

O olhar de Murilo Mendes abre-se às forças da origem
e num lento silêncio até ao fundo do imóvel
inaugura a nupcial articulação.
Vazio e presença, ruptura e aliança
na atenção aguda à evidência e ao enigma.
Os deuses mostram-se então na imobilidade do ar
e no puro instante da contemplação irisam-se.
E o olhar abre-se imensamente às nascentes nocturnas
captando o eco perdido em cada coisa.
Nessa glória que ilumina tudo, é alta e rapidíssima
a língua da visão que contorna os confins
e deixa transparecer o indivisível círculo
que em si preserva o silêncio divino e o fulgor
de umas quantas palavras que pulsam como estrelas.

Oferenda - Cyro de Mattos

Abre-te terra,
Reinventa-te em rosa,
Perfuma teu perfume
Com esse vinho sempiterno,
Última oferenda de teu filho
Que foi ave, mão e árvore,
Agora flor sem vento
Na poeira do vento.