Rústica - Florbela Espanca


Ser a moça mais linda do povoado,
Pisar, sempre contente, o mesmo trilho,
Ver descer sobre o ninho aconchegado
A bênção do Senhor em cada filho.

Um vestido de chita bem lavado,
Cheirando a alfazema e a tomilho...
Com o luar matar a sede ao gado,
Dar às pombas o sol num grão de milho...

Ser pura como a água da cisterna,
Ter confiança numa vida eterna
Quando descer à "terra da verdade"...

Meu Deus, dai-me esta calma, esta pobreza!
Dou por elas meu trono de princesa,
E todos os meus reinos de ansiedade.


Distâncias Perdidas - Adalgisa Nery

Iluminados por luz que nasce na distância
E largados à vontade sem destino
Cavalgamos campos e relvados
Vazios de montes ou vales aguados.
A colheita de horizontes é farta
Mas inatingível para a fome de repouso.
No céu os mares sonolentos ou raivosos,
Na terra, do canto morto e irrevelado
Nascem braços como espigas ressecadas,
Na paisagem
Exuberante cresce a solidão
Sem deixar rastros da nossa passagem.

Mãe - Eunice Arruda

mãe da hora
extrema
sai do silêncio
da neblina
volta

volta a menina antiga
afeita
às chuvas e aos relâmpagos
tenta

tenta atravessar o rio
o escuro
é hora – a extrema –
a de alcançar a outra margem
a margem –
– mãe

abandona a sombra
o silêncio
vem
vigia
vela na mão vem
– cobertas me abraçando –
silenciosamente
me recolhe – mãe – na hora extrema

Jason Mraz - Bella Luna

HAIKAI - Rogério Martins

ao voltar dos campos
abro a porta
e a lua entra comigo

A Pétala - Lêdo Ivo


Toda vida é incompleta
rosa a que falta
uma pétala.

Na escuridão
busco debalde
a tua mão.

E escuto um silvo:
É o trem que parte
da estação.


Bernardo Soares (Fernando Pessoa)

Somos todos míopes, excepto para dentro.
Só o sonho vê com o olhar.
Transeuntes eternos por nós mesmos,
não há paisagem senão o que somos.
Nada possuímos, porque nem a nós possuímos.
Nada temos porque nada somos.
Que mãos estenderei para que universo?
O universo não é meu: sou eu.

Chuva - H. Dobal


A chuva cata segredos
nas folhas vivas da tarde.
O leve passar do vento,
o lento passar do tempo
nas folhas vivas da tarde.
E a chuva a chuva,
as águas doces da chuva,
no lento apodrecer
das folhas mortas da tarde
vão despertando os segredos da vida.


Poemínimis - A. Estebanez



espinhos
de flores
carinhos
de dores

espinhos
de dores
carinhos
de flores

malditos
benditos
carinhos

benditos
malditos
espinhos


Outonal - Florbela Espanca

Caem as folhas mortas sobre o lago;
Na penumbra outonal, não sei quem tece
As rendas do silêncio...Olha, anoitece!
- Brumas longínquas do País do Vago...

Veludos a ondear...Mistério mago...
Encantamento...A hora que não esquece,
A luz que a pouco e pouco desfalece,
Que lança em mim a bênção dum afago...

Outono dos crepúsculos doirados,
De púrpuras, damascos e brocados!
- Vestes a terra inteira de esplendor!

Outono das tardinhas silenciosas,
Das magníficas noites voluptuosas
Em que eu soluço a delirar de amor...

Presentes

SELOS





Ganhei estes dois selos do Blog oceanoaazulsonhos.blogspot.com.
Obrigada!

Agradeço também a vocês que sempre estão aqui no docecomoachuva.

Agora as regras:

No caso do selo de qualidade, deverá enumerar dez coisas sobre você
e posteriormente indicar dez blogs a quem deseja indicá-lo.

1- Conte um sonho que você tem - (São muitos)
2 - Uma frase que lhe veio na cabeça - ( Para que serve a utopia? Para que eu não deixe de caminhar. Eduardo Galeano)
3 - Seu maior medo - (Morte)
4 - Um livro que você leu e ficou sonhando - (Vários)
5 - Seu melhor amigo - (Tenho muitos...)
6 - Uma música que o faz sonhar - (Muitas)
7 - Um amuleto. Especificar - (Não tenho)
8 - Um sonho que você teve e ficou com medo - (Não me lembro)

Blogs que recomendo:

Difícil escolher entre tantos que leio e sigo, por isso ofereço a todos que passarem por aqui.
Bom final de semana!
Abraço
Nádia

Gilberto Gil - Three Little Birds

Contradição - Emílio Moura

Que sonho sonho
Neste degredo?
É tarde? É cedo?
É sonho o sonho?

Só és, sonhada?
Nunca exististe?
Ou nada existe?
ou tudo é nada?

Então, por que este
deslumbramento
de que nasceste?

Por que à acesa
viva incerteza
te reinvento?

Evolução - Helena Kolody



Caem as folhas de repente,
brotam outras pelos ramos,
murcham flores, surgem pomos
e a planta volta à semente.

Assim somos. Sutilmente,
diferimos do que fomos.

Impossível transmitir,
por secreto e singular,
o acrescentar e perder
desse crescer que é mudar.

Poesia entre o cais e o hospital - Adalgisa Nery

Geme no cais o navio cargueiro
No hospital ao lado, o homem enfermo.
O vento da noite recolhe gemidos
Une angústias do mundo ermo.
Maresia transborda do mar em cansaço,
Odor de remédios inunda o espaço.
Máquina e homem, ambos exaustos
Um, pela carga que pesa em seu bojo
Outro, na dor tomando o seu corpo.
Cais, hospital: Portos de espera
E começo de fim da longa viagem.
Chaminés de cargueiros gritando no mar,
Garganta do homem em gemidos no ar.
No fundo, o universo,
O mar infinito,
O céu infinito,
O espírito infinito.
Neblinados em tristezas e medos
Surgem silêncios entre os rochedos.
Chaminés de cargueiros gritando no mar
E a garganta do homem em gemidos no ar.

HAIKAI - Carol Lebel

fecho um livro
vou à janela
a noite é enorme

Tradução de Carlos Seabra

Aos Poetas - Miguel Torga


Somos nós
As humanas cigarras!
Nós,
Desde os tempos de Esopo conhecidos.
Nós,
Preguiçosos insectos perseguidos.

Somos nós os ridículos comparsas
Da fábula burguesa da formiga.
Nós, a tribo faminta de ciganos
Que se abriga
Ao luar.
Nós, que nunca passamos
A passar!…

Somos nós, e só nós podemos ter
Asas sonoras,
Asas que em certas horas
Palpitam,
Asas que morrem, mas que ressuscitam
Da sepultura!
E que da planura
Da seara
Erguem a um campo de maior altura
A mão que só altura semeara.

Por isso a vós, Poetas, eu levanto
A taça fraternal deste meu canto,
E bebo em vossa honra o doce vinho
Da amizade e da paz!
Vinho que não é meu,
mas sim do mosto que a beleza traz!

E vos digo e conjuro que canteis!
Que sejais menestreis
De uma gesta de amor universal!
Duma epopeia que não tenha reis,
Mas homens de tamanho natural!
Homens de toda a terra sem fronteiras!
De todos os feitios e maneiras,
Da cor que o sol lhes deu à flor da pele!
Crias de Adão e Eva verdadeiras!
Homens da torre de Babel!

Homens do dia a dia
Que levantem paredes de ilusão!
Homens de pés no chão,
Que se calcem de sonho e de poesia
Pela graça infantil da vossa mão!

Estás só. Ninguém o sabe - Ricardo Reis (Fernando Pessoa)



Estás só. Ninguém o sabe. Cala e finge.
Mas finge sem fingimento.
Nada esperes que em ti já não exista,
Cada um consigo é triste.
Tens sol se há sol, ramos se ramos buscas,
Sorte se a sorte é dada.

João Bosco - Corsário

Amor no éter - Adélia Prado



Há dentro de mim uma paisagem
entre meio-dia e duas horas da tarde.
Aves pernaltas, os bicos mergulhados na água,
entram e não neste lugar de memória,
uma lagoa rasa com caniço na margem.
Habito nele, quando os desejos do corpo,
a metafísica, exclamam:
como és bonito!
Quero escrever-te até encontrar
onde segregas tanto sentimento.
Pensas em mim, teu meio-riso secreto
atravessa mar e montanha,
me sobressalta em arrepios,
o amor sobre o natural.
O corpo é leve como a alma,
os minerais voam como borboletas.
Tudo deste lugar
entre meio-dia e duas horas da tarde.