Ao longo do muro, as campânulas escorrem,
gelatinosas,
ainda coradas,
ainda cheirosas,
e já mortas.
Eu sou a menina que vai para a escola
com seu casaquinho vermelho,
e os seus livros forrados de papel azul.
A chuva continua a bater nas flores,
a avivar as cores dos muros,
a gorgolejar nas calhas,
a correr para os negros bueiros.
Eu sou a menina que vai para a escola
feliz, com os cabelos molhados
e o rosto frio.
A chuva é uma alegria, com suas agulhas de vidro
voando por todos os lados.
A chuva cheira a jasmim e a flor "boa-noite!"
Eu sou a menina que de repente fica triste,
porque ao longo do muro as campânulas escorrem,
gelatinosas,
cor de coral, cor de marfim,
perfumadas ainda,
e já mortas.
Entre o luar e a folhagem - Fernando Pessoa
Entre o luar e a folhagem,
Entre o sossego e o arvoredo,
Entre o ser noite e haver aragem
Passa um segredo.
Segue-o minha alma na passagem.
Tênue lembrança ou saudade,
Princípio ou fim do que não foi,
Não tem lugar, não tem verdade.
Atrai e dói.
Segue-o meu ser em liberdade.
Vazio encanto ébrio de si,
Tristeza ou alegria o traz?
O que sou dele a quem sorri?
Nada é nem faz.
Só de segui-lo me perdi.
Entre o sossego e o arvoredo,
Entre o ser noite e haver aragem
Passa um segredo.
Segue-o minha alma na passagem.
Tênue lembrança ou saudade,
Princípio ou fim do que não foi,
Não tem lugar, não tem verdade.
Atrai e dói.
Segue-o meu ser em liberdade.
Vazio encanto ébrio de si,
Tristeza ou alegria o traz?
O que sou dele a quem sorri?
Nada é nem faz.
Só de segui-lo me perdi.
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Ao longe, ao luar - Fernando Pessoa
Ao longe, ao luar,
No rio uma vela,
Serena a passar,
Que é que me revela ?
Não sei, mas meu ser
Tornou-se-me estranho,
E eu sonho sem ver
Os sonhos que tenho.
Que angústia me enlaça ?
Que amor não se explica ?
É a vela que passa
Na noite que fica.
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existe um planeta
perdido numa dobra
do sistema solar
aí é fácil confundir
sorrir com chorar
difícil é distinguir
esse planeta de sonhar
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A minhas solidões vou - Lope de Vega
A minhas solidões vou,
de minhas solidões venho,
porque para andar comigo
me bastam meus pensamentos.
Não sei o que tem a aldeia
onde vivo e onde pereço,
que não posso vir mais longe
porque venho de mim mesmo!
Nem bem nem mal vou comigo;
mas diz meu entendimento
que um homem que é todo ele alma
no próprio corpo está preso.
Entendo quanto me basta,
e somente não entendo
como se sofre a si mesmo
um ignorante soberbo.
De quantas coisas me cansam,
facilmente me defendo;
porém não posso guardar-me
desses perigos de um néscio.
Ele dirá que eu o sou,
porém com falso argumento;
que humildade e necedade
não cabem num só sujeito.
A diferença conheço,
porque nele e em mim contemplo
a loucura da arrogância,
a humildade em seu desprezo.
Ou sabe hoje a natureza
mais que soube em outro tempo,
ou tantos que nascem sábios
é por força de dizê-lo.
Eu só sei que não sei nada,
disse um filósofo, sendo
sua conta a humildade,
onde o que é mais é o menos.
Não me gabo de entendido,
por desditado me tenho;
pois os que não são ditosos,
como podem ser discretos?
Não pode durar o mundo,
pois dizem, e assim o creio,
que soa a vidro quebrado
e que se quebrará presto.
São os sinais do juízo
ver que todos o perdemos,
alguns por carta de mais,
outros por carta de menos.
Disseram que antigamente
a verdade foi-se ao céu:
tal a puseram os homens
que não se lhe viu regresso.
Em dupla idade vivemos
nós próprios e os estrangeiros:
a de prata é a dos estranhos,
a de cobre o nosso meio.
A quem não dará cuidado,
se é espanhol verdadeiro,
ver o homem à moda antiga
e nosso valor moderno?
Deus disse que comeria
seu pão o homem primeiro
suando o suor da carta,
por quebrar seu mandamento;
e alguns desobedientes
a qualquer vergonha e medo,
com as prendas de sua honra
hão trocado seus efeitos.
Virtude e filosofia
peregrinam como cegos.
Cada qual carrega ao outro,
pedindo vão e gemendo.
Dois pólos tem nossa terra,
universal movimento:
a melhor vida o favor,
o melhor sangue o dinheiro.
Escuto planger os sinos,
não me espanto, só me pesa
que em lugar de tantas cruzes
tantos homens mortos veja.
Olhando estou os sepulcros
e seus mármores eternos;
que não o foram seus donos
estão sem língua dizendo.
Oh! bem haja quem os fez,
porque tão-somente dentro
deles, dos mui poderosos
podem vingar-se os pequenos!
Sei que pintam feia a inveja;
eu, porém, tê-la confesso
de alguns homens que não sabem
nem dos que lhes vivem perto.
Sem tratos, contas nem contos,
sem livros e sem cadernos,
quando querem escrever
pedem a alguém o tinteiro.
Sem serem pobres nem ricos,
têm chaminés e canteiros.
Não os despertam cuidados,
não têm pretensões nem pleitos.
Não murmuraram do grande,
nem zombaram do pequeno;
nunca, como eu, páscoas deram
nem firmaram cumprimentos.
Com esta inveja que digo
e com o que passo em silêncio,
a minhas solidões vou,
de minhas solidões venho.
Tradução de Fernando Mendes Vianna
de minhas solidões venho,
porque para andar comigo
me bastam meus pensamentos.
Não sei o que tem a aldeia
onde vivo e onde pereço,
que não posso vir mais longe
porque venho de mim mesmo!
Nem bem nem mal vou comigo;
mas diz meu entendimento
que um homem que é todo ele alma
no próprio corpo está preso.
Entendo quanto me basta,
e somente não entendo
como se sofre a si mesmo
um ignorante soberbo.
De quantas coisas me cansam,
facilmente me defendo;
porém não posso guardar-me
desses perigos de um néscio.
Ele dirá que eu o sou,
porém com falso argumento;
que humildade e necedade
não cabem num só sujeito.
A diferença conheço,
porque nele e em mim contemplo
a loucura da arrogância,
a humildade em seu desprezo.
Ou sabe hoje a natureza
mais que soube em outro tempo,
ou tantos que nascem sábios
é por força de dizê-lo.
Eu só sei que não sei nada,
disse um filósofo, sendo
sua conta a humildade,
onde o que é mais é o menos.
Não me gabo de entendido,
por desditado me tenho;
pois os que não são ditosos,
como podem ser discretos?
Não pode durar o mundo,
pois dizem, e assim o creio,
que soa a vidro quebrado
e que se quebrará presto.
São os sinais do juízo
ver que todos o perdemos,
alguns por carta de mais,
outros por carta de menos.
Disseram que antigamente
a verdade foi-se ao céu:
tal a puseram os homens
que não se lhe viu regresso.
Em dupla idade vivemos
nós próprios e os estrangeiros:
a de prata é a dos estranhos,
a de cobre o nosso meio.
A quem não dará cuidado,
se é espanhol verdadeiro,
ver o homem à moda antiga
e nosso valor moderno?
Deus disse que comeria
seu pão o homem primeiro
suando o suor da carta,
por quebrar seu mandamento;
e alguns desobedientes
a qualquer vergonha e medo,
com as prendas de sua honra
hão trocado seus efeitos.
Virtude e filosofia
peregrinam como cegos.
Cada qual carrega ao outro,
pedindo vão e gemendo.
Dois pólos tem nossa terra,
universal movimento:
a melhor vida o favor,
o melhor sangue o dinheiro.
Escuto planger os sinos,
não me espanto, só me pesa
que em lugar de tantas cruzes
tantos homens mortos veja.
Olhando estou os sepulcros
e seus mármores eternos;
que não o foram seus donos
estão sem língua dizendo.
Oh! bem haja quem os fez,
porque tão-somente dentro
deles, dos mui poderosos
podem vingar-se os pequenos!
Sei que pintam feia a inveja;
eu, porém, tê-la confesso
de alguns homens que não sabem
nem dos que lhes vivem perto.
Sem tratos, contas nem contos,
sem livros e sem cadernos,
quando querem escrever
pedem a alguém o tinteiro.
Sem serem pobres nem ricos,
têm chaminés e canteiros.
Não os despertam cuidados,
não têm pretensões nem pleitos.
Não murmuraram do grande,
nem zombaram do pequeno;
nunca, como eu, páscoas deram
nem firmaram cumprimentos.
Com esta inveja que digo
e com o que passo em silêncio,
a minhas solidões vou,
de minhas solidões venho.
Tradução de Fernando Mendes Vianna
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Soneto da transfiguração - Odylo Costa, Filho

Quero as ilhas no mar amanhecendo
- garças verdes nas águas se deitando -
e os rios em que o barro vai descendo
e o choro humano que vão carreando.
Quero as estradas que mal vão nascendo
e os matos que no sol vão secando.
Quero os olhos de outrora renascendo,
quero a vida de agora despontando.
Tudo sonho reter na mão cansada.
Feito o menino que encontrou um ninho
jogado ao chão, na beira do caminho,
e o quer salvar da força da enxurrada,
e o que resta de mim vendo trazer
para transfigurar-se no teu ser.
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Missão da Poesia - Rubem Alves
Assim são as imagens poéticas:
elas têm o poder
de ir lá no fundo da alma,
onde moram os esquecimentos.
E quando um desses esquecimentos acorda,
a gente sente um estremeção no corpo.
Essa é a missão da poesia:
recuperar os pedaços perdidos de nós.
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14 de Março - Dia Nacional da Poesia

Todo dia é dia de poesia.
Ela está em toda parte.
Em todos os cantos do mundo há,
em todo os momentos,
alguém evocando sensações,
impressões e emoções.
A poesia não está no papelEstá na vida
Vista e sentida
Por olhos sensíveis
E corpos que se permitem ir além.
Por almas que ousam
Interiores que gritam. Carolina Salcides
A POESIA
Onde está
a poesia? Indaga-se
por toda parte. E a poesia
vai à esquina comprar jornal. Ferreira Gullar
Castro Alves
(Depois da leitura de um poema)
(IMPROMPTU)La vem o pastor subindo aos Alpes
Lança aos abismos a canção tremente.
Responde embaixo — o precipício enorme!
Responde em cima — o firmamento ingente!
Poeta! a voz do pegureiro errante
Em ti vibrando... se alteou!... cresceu!
Tua alma é funda — como é fundo o pego!
Teu gênio é alto — como é alto o céu!
Poesia é quando uma emoção encontra seu pensamentoe o pensamento encontra palavras. Robert Frost
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Mensagem à Poesia - Vinícius de Moraes
Não posso
Não é possível
Digam-lhe que é totalmente impossível
Agora não pode ser
É impossível
Não posso.
Digam-lhe que estou tristíssimo,
mas não posso ir esta noite ao seu encontro.
Contem-lhe que há milhões de corpos a enterrar
Muitas cidades a reerguer, muita pobreza pelo mundo.
Contem-lhe que há uma criança chorando em alguma parte do mundo
E as mulheres estão ficando loucas, e há legiões delas carpindo
A saudade de seus homens; contem-lhe que há um vácuo
Nos olhos dos párias, e sua magreza é extrema; contem-lhe
Que a vergonha, a desonra, o suicídio rondam os lares,
e é preciso reconquistar a vida
Façam-lhe ver que é preciso eu estar alerta,
voltado para todos os caminhos
Pronto a socorrer, a amar, a mentir, a morrer se for preciso.
Ponderem-lhe, com cuidado – não a magoem... – que se não vou
Não é porque não queira: ela sabe; é porque há um herói num cárcere
Há um lavrador que foi agredido, há um poça de sangue numa praça.
Contem-lhe, bem em segredo, que eu devo estar prestes, que meus
Ombros não se devem curvar, que meus olhos não se devem
Deixar intimidar, que eu levo nas costas a desgraça dos homens
E não é o momento de parar agora; digam-lhe, no entanto
Que sofro muito, mas não posso mostrar meu sofrimento
Aos homens perplexos; digam-lhe que me foi dada
A terrível participação, e que possivelmente
Deverei enganar, fingir, falar com palavras alheias
Porque sei que há, longínqua, a claridade de uma aurora.
Se ela não compreender, oh procurem convencê-la
Desse invencível dever que é o meu; mas digam-lhe
Que, no fundo, tudo o que estou dando é dela, e que me
Dói ter de despojá-la assim, neste poema; que por outro lado
Não devo usá-la em seu mistério: a hora é de esclarecimento
Nem debruçar-me sobre mim quando a meu lado
Há fome e mentira; e um pranto de criança sozinha numa estrada
Junto a um cadáver de mãe: digam-lhe que há
Um náufrago no meio do oceano, um tirano no poder, um homem
Arrependido; digam-lhe que há uma casa vazia
Com um relógio batendo horas; digam-lhe que há um grande
Aumento de abismos na terra, há súplicas, há vociferações
Há fantasmas que me visitam de noite
E que me cumpre receber, contem a ela da minha certeza
No amanhã
Que sinto um sorriso no rosto invisível da noite
Vivo em tensão ante a expectativa do milagre; por isso
Peçam-lhe que tenha paciência, que não me chame agora
Com a sua voz de sombra; que não me faça sentir covarde
De ter de abandoná-la neste instante, em sua imensurável
Solidão, peçam-lhe, oh peçam-lhe que se cale
Por um momento, que não me chame
Porque não posso ir
Não posso ir
Não posso.
Mas não a traí. Em meu coração
Vive a sua imagem pertencida, e nada direi que possa
Envergonhá-la. A minha ausência.
É também um sortilégio
Do seu amor por mim. Vivo do desejo de revê-la
Num mundo em paz. Minha paixão de homem
Resta comigo; minha solidão resta comigo; minha
Loucura resta comigo. Talvez eu deva
Morrer sem vê-Ia mais, sem sentir mais
O gosto de suas lágrimas, olhá-la correr
Livre e nua nas praias e nos céus
E nas ruas da minha insônia. Digam-lhe que é esse
O meu martírio; que às vezes
Pesa-me sobre a cabeça o tampo da eternidade e as poderosas
Forças da tragédia abastecem-se sobre mim, e me impelem para a treva
Mas que eu devo resistir, que é preciso...
Mas que a amo com toda a pureza da minha passada adolescência
Com toda a violência das antigas horas de contemplação extática
Num amor cheio de renúncia. Oh, peçam a ela
Que me perdoe, ao seu triste e inconstante amigo
A quem foi dado se perder de amor pelo seu semelhante
A quem foi dado se perder de amor por uma pequena casa
Por um jardim de frente, por uma menininha de vermelho
A quem foi dado se perder de amor pelo direito
De todos terem um pequena casa, um jardim de frente
E uma menininha de vermelho; e se perdendo
Ser-lhe doce perder-se...
Por isso convençam a ela, expliquem-lhe que é terrível
Peçam-lhe de joelhos que não me esqueça, que me ame
Que me espere, porque sou seu, apenas seu; mas que agora
É mais forte do que eu, não posso ir
Não é possível
Me é totalmente impossível
Não pode ser não
É impossível
Não posso.
Não é possível
Digam-lhe que é totalmente impossível
Agora não pode ser
É impossível
Não posso.
Digam-lhe que estou tristíssimo,
mas não posso ir esta noite ao seu encontro.
Contem-lhe que há milhões de corpos a enterrar
Muitas cidades a reerguer, muita pobreza pelo mundo.
Contem-lhe que há uma criança chorando em alguma parte do mundo
E as mulheres estão ficando loucas, e há legiões delas carpindo
A saudade de seus homens; contem-lhe que há um vácuo
Nos olhos dos párias, e sua magreza é extrema; contem-lhe
Que a vergonha, a desonra, o suicídio rondam os lares,
e é preciso reconquistar a vida
Façam-lhe ver que é preciso eu estar alerta,
voltado para todos os caminhos
Pronto a socorrer, a amar, a mentir, a morrer se for preciso.
Ponderem-lhe, com cuidado – não a magoem... – que se não vou
Não é porque não queira: ela sabe; é porque há um herói num cárcere
Há um lavrador que foi agredido, há um poça de sangue numa praça.
Contem-lhe, bem em segredo, que eu devo estar prestes, que meus
Ombros não se devem curvar, que meus olhos não se devem
Deixar intimidar, que eu levo nas costas a desgraça dos homens
E não é o momento de parar agora; digam-lhe, no entanto
Que sofro muito, mas não posso mostrar meu sofrimento
Aos homens perplexos; digam-lhe que me foi dada
A terrível participação, e que possivelmente
Deverei enganar, fingir, falar com palavras alheias
Porque sei que há, longínqua, a claridade de uma aurora.
Se ela não compreender, oh procurem convencê-la
Desse invencível dever que é o meu; mas digam-lhe
Que, no fundo, tudo o que estou dando é dela, e que me
Dói ter de despojá-la assim, neste poema; que por outro lado
Não devo usá-la em seu mistério: a hora é de esclarecimento
Nem debruçar-me sobre mim quando a meu lado
Há fome e mentira; e um pranto de criança sozinha numa estrada
Junto a um cadáver de mãe: digam-lhe que há
Um náufrago no meio do oceano, um tirano no poder, um homem
Arrependido; digam-lhe que há uma casa vazia
Com um relógio batendo horas; digam-lhe que há um grande
Aumento de abismos na terra, há súplicas, há vociferações
Há fantasmas que me visitam de noite
E que me cumpre receber, contem a ela da minha certeza
No amanhã
Que sinto um sorriso no rosto invisível da noite
Vivo em tensão ante a expectativa do milagre; por isso
Peçam-lhe que tenha paciência, que não me chame agora
Com a sua voz de sombra; que não me faça sentir covarde
De ter de abandoná-la neste instante, em sua imensurável
Solidão, peçam-lhe, oh peçam-lhe que se cale
Por um momento, que não me chame
Porque não posso ir
Não posso ir
Não posso.
Mas não a traí. Em meu coração
Vive a sua imagem pertencida, e nada direi que possa
Envergonhá-la. A minha ausência.
É também um sortilégio
Do seu amor por mim. Vivo do desejo de revê-la
Num mundo em paz. Minha paixão de homem
Resta comigo; minha solidão resta comigo; minha
Loucura resta comigo. Talvez eu deva
Morrer sem vê-Ia mais, sem sentir mais
O gosto de suas lágrimas, olhá-la correr
Livre e nua nas praias e nos céus
E nas ruas da minha insônia. Digam-lhe que é esse
O meu martírio; que às vezes
Pesa-me sobre a cabeça o tampo da eternidade e as poderosas
Forças da tragédia abastecem-se sobre mim, e me impelem para a treva
Mas que eu devo resistir, que é preciso...
Mas que a amo com toda a pureza da minha passada adolescência
Com toda a violência das antigas horas de contemplação extática
Num amor cheio de renúncia. Oh, peçam a ela
Que me perdoe, ao seu triste e inconstante amigo
A quem foi dado se perder de amor pelo seu semelhante
A quem foi dado se perder de amor por uma pequena casa
Por um jardim de frente, por uma menininha de vermelho
A quem foi dado se perder de amor pelo direito
De todos terem um pequena casa, um jardim de frente
E uma menininha de vermelho; e se perdendo
Ser-lhe doce perder-se...
Por isso convençam a ela, expliquem-lhe que é terrível
Peçam-lhe de joelhos que não me esqueça, que me ame
Que me espere, porque sou seu, apenas seu; mas que agora
É mais forte do que eu, não posso ir
Não é possível
Me é totalmente impossível
Não pode ser não
É impossível
Não posso.
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HAIKAI - Kobayashi Issa
Em cada pérola de orvalho
estremece
a minha terra natal
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Os meus livros - Jorge Luís Borges
Os meus livros (que não sabem que existo)
São uma parte de mim, como este rosto
De têmporas e olhos já cinzentos
Que em vão vou procurando nos espelhos
E que percorro com a minha mão côncava.
Não sem alguma lógica amargura
Entendo que as palavras essenciais,
As que me exprimem, estarão nessas folhas
Que não sabem quem sou, não nas que escrevo.
Mais vale assim. As vozes desses mortos
Dir-me-ão para sempre.
São uma parte de mim, como este rosto
De têmporas e olhos já cinzentos
Que em vão vou procurando nos espelhos
E que percorro com a minha mão côncava.
Não sem alguma lógica amargura
Entendo que as palavras essenciais,
As que me exprimem, estarão nessas folhas
Que não sabem quem sou, não nas que escrevo.
Mais vale assim. As vozes desses mortos
Dir-me-ão para sempre.
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Película - Piotr Sommer
O sol da tarde
atrás da esquina da cidade,
e cada segmento de pele,
e cada pensamento
permanecem sobrepostos,
e nada se pode ocultar
porque tudo sai a reluzir:
as cartas sem resposta,
a ingratidão,
uma memória curta.
atrás da esquina da cidade,
e cada segmento de pele,
e cada pensamento
permanecem sobrepostos,
e nada se pode ocultar
porque tudo sai a reluzir:
as cartas sem resposta,
a ingratidão,
uma memória curta.
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