Vincent - Marina Colasanti

Ciprestes de Van Gogh
imóveis labaredas
verdes incêndios sobre a tela
verdes mulheres nuas
em seus cabelos.
Ciprestes de Van Gogh
bizantinas colunas
da paisagem
vórtice
remoinho erguido
como o grito
o fallus
o arremesso de gozo
do pintor.


A Estrela - Manuel Bandeira

Vi uma estrela tão alta,
Vi uma estrela tão fria!
Vi uma estrela luzindo
Na minha vida vazia.

Era uma estrela tão alta!
Era uma estrela tão fria!
Era uma estrela sozinha
Luzindo no fim do dia.

Por que da sua distância
Para a minha companhia
Não baixava aquela estrela?
Por que tão alto luzia?

E ouvi-a na sombra funda
Responder que assim fazia
Para dar uma esperança
Mais triste ao fim do meu dia.


chama - Vera Lúcia de Oliveira

                         
a chama crepita
ardência ou olho assolador

fiapo que escapou
das mãos de Deus
antes de ter sido modelado
antes de ter recebido
pendor à introspecção
e à síntese

O Sonho - Julio Cortázar

 
O sonho, essa neve doce
que beija o rosto, rói até que encontre
debaixo, suspenso por fios musicais,
o outro, que desperta.


A mulher sentada - João Cabral de Melo Neto

Mulher. Mulher e pombos.
Mulher entre sonhos.
Nuvens nos seus olhos?
Nuvens sob seus cabelos.
(A visita espera na sala;
a notícia, no telefone;
a morte cresce na hora;
a primavera, além da janela).
Mulher sentada. Tranqüila
na sala, como se voasse.


Percurso de amor - A. Estebanez

Meus olhos
são praias rasas
de um profundo
mar de amor
que derrama
suas mágoas
no rumor vasto
das águas
na areia e morre
sem dor...

Dos teus navios
de sonhos
sou mais
que o navegador.
Meus olhos
são escotilhas
entreabertas
para as ilhas
do teu percurso
de amor...


Cantiga de Claridão - Thiago de Mello

 
Camponês, plantas o grão
no escuro - e nasce um clarão.
Quero chamar-te de irmão.

De noite, comendo o pão,
sinto o gosto dessa aurora
que te desponta da mão.

Fazes de sombras um facho
de luz para a multidão.
És um claro companheiro
mas vives na escuridão.
Quero chamar-te de irmão.

E enquanto não chega o dia
em que o chão se abra em reinado
de trabalho e de alegria,
cantando juntos, ergamos
a arma do amor em ação.


A cor do entardecer - Graça Pires



Planto urzes brancas
em redor do caminho.
No começo do verão,
será tão intensa
a cor do entardecer,
que os frutos hão-de devorar-me
a boca, para conter a sede.


HAIKAI - Carlos Martins


Dente-de-leão —
Sopro as sementes aladas
e faço um pedido.


Antologia - Carlos Drummond de Andrade

Guardo na boca os sabores
da gabiroba e do jambo,
cor e fragrância do mato,
colhidos no pé. Distintos.
Araticum, araçá,
ananás, bacupari,
jatobá... todos reunidos
congresso verde no mato,
e cada qual separado,
cada fruta, cada gosto
no sentimento composto
das frutas todas do mato
que levo na minha boca
tal qual me levasse o mato.

Rod Stewart - Blue Moon -

Tanta tristeza nas águas... - Dora Ferreira da Silva




Tanta tristeza nas águas
na face que refletia
o espelho frágil da lua
miragem melancolia.

Em que reino vive agora
a princesa que vivia
na infância sob amoreiras
acesas à luz do dia?

Onde o sol, onde o tumulto
de pombas no céu ardente
onde o frio da tarde morta
entre escombros do poente?

Tanta tristeza nas águas
na face que refletia
o espelho frágil da lua
miragem melancolia.

Onde a lua marinheira
no alto céu que surgia –
negro mar cheio de espantos
mordido de ventanias?

Onde o Rei do reino ausente
onde a fada que fazia
do mundo um sono profundo
e do sonho a luz do dia?

Tanta tristeza nas águas
na face que refletia
o espelho frágil da lua
miragem melancolia.

A lua é do Raul - Cecília Meireles


Raio de lua.
Luar.
Lua do ar
azul.
Roda da lua.
Aro da roda
na tua
rua,
Raul!
Roda o luar
na rua
toda
azul.
Roda o aro da lua.
Raul,
a lua é tua,
a lua da tua rua!
A lua do aro azul.


Yeda Prates Bernis



Barco é a noite
onde a alma navega.
O sonho é marinheiro.

No oceano do momento
o amor é timoneiro.
O mais é entrega.

poema para Manoel de Barros - Vera Lúcia de Oliveira

rasgo as veias do papel
e retiro
teu musgo
teu visgo de lesma
teu olho de olho
teu corpo
enroscado em ventre
de caracol
rasgo
rastejo relva
arranho sustos
resvalo em vírgulas
chupando lodo
e lágrima
de bicho
à espera
que a dor galope as águas
sem atropelar

Soneto de Maio - Vinícius de Moraes


Suavemente Maio se insinua 
Por entre os véus de Abril, o mês cruel 
E lava o ar de anil, alegra a rua 
Alumbra os astros e aproxima o céu. 

Até a lua, a casta e branca lua 
Esquecido o pudor, baixa o dossel 
E em seu leito de plumas fica nua 
A destilar seu luminoso mel. 

Raia a aurora tão tímida e tão fragil 
Que através do seu corpo tranparente 
Dir-se-ia poder-se ver o rosto 

Carregado de inveja e de presságio 
Dos irmãos Junho e Julho, friamente 
Preparando as catástrofes de Agosto... 






Soneto do anjo de maio - Ruy Espinheira Filho


Então, em maio, um Anjo incendiou-me.
Em seu olhar azul havia um dia
claro como os da infância. E a alegria
entrou em mim e em sua luz tomou-me

o coração. Depois, suave, guiou-me
para mim mesmo, para o que morria,
em meu peito, de olvido. E a noite, fria,
fez-se cálida — e a mágoa desertou-me.

Já não eram as cinzas sobre o Nada,
mas rios, e ventos, e árvores, e flamas,
e montes, e horizontes sem ter fim!

Era a vida de volta, resgatada,
e nova, e para sempre, pelas chamas
desse Anjo de maio que arde em mim!


O tempo dos homens - Ildásio Tavares



O tempo dos homens é feito de pedra,
É feito de carne, de sangue, de dor,
O tempo dos homens é feito de tempo
Que é tempo sem tempo, sem luz, sem amor.
Trezentos e sessenta e cinco dias,
Seis horas,
Uns tantos minutos
E segundos,
Leva o mundo
Para girar girando em torno ao sol,
Em sucessão de
Primavera, Verão, Outono, Inverno,
Sol e Sombra,
Noite e Dia.
Eterna imperturbável harmonia.
Os homens não cansam, não param, não dobram,
Comendo, comendo, sem ver, sem olhar,
Os homens não pensam, não falam, não dormem,
No tempo sem tempo do tempo a passar.  


Pregão - Rafael Alberti

Vendo nuvens de cores!
as redondas, vermelhas,
para suavizar os calores!
Vendo os cirros arroxeados
e rosas, as alvoradas,
os crepúsculos dourados!
O amarelo astro,
colhido o verde ramo
do celeste pessegueiro!
Vendo a neve, a chama
e o canto do pregoeiro!